ORNITORRINCO

QUE NENHUMA MORTE SEJA EM VÃO

O ano nem bem começou e já topei neste assunto diversas vezes por diversos motivos.

O que mais me impressiona é a forma com que ele é encarado de pessoa a pessoa e de contexto a contexto, sem querer de forma alguma colocar maçãs e bananas na mesma balança, a questão que mais vem a minha cabeça nestes últimos dias é: Será que uma vida humana vale mais que outras?

Triste é comprovar com o decorrer dos acontecimentos que sim. Seres humanos são mortos todos os dias, mas algumas vezes escolhemos nos importar com alguns casos, em outros momentos parecem que não nos permitem nem parar para pensar sobre estas perdas.

Todos já se depararam com estas perguntas em sua timeline mas poucos ousaram responder, ou ao menos pensar em respostas para estas questões. Mas por que diabos a morte de 20 franceses vale mais do que a morte de 2000 africanos?

Será que eles realmente nos fazem diferença?

Em meio a enxurrada de informações vestidas de “je suis charlie”, tive grande dificuldade para encontrar informações sobre o genocídio na Nigéria, nenhuma passeata, nenhum slogan, nenhuma hashtag, nenhuma reportagem completa que acompanhasse o desfecho deste fato que ainda me tira o sono.

Fiquei a me perguntar: será que não produzem mais informações por que não interessa a ninguém ou será que não interessa a ninguém por que não produzem informações a respeito?

Nesta espiral da crise da grande mídia onde não podemos mais saber quem veio primeiro, o ovo ou a galinha, o que pude notar é que o ser humano só consegue se chocar ou ser aterrorizado quando uma notícia de morte afeta o seu semelhante. Precisamos ver a violência tocar a nossa porta ou a porta do nosso vizinho para nos chocarmos com a sua existência.

Mas o que nos torna mais semelhante a um traficante branco na Indonésia do que a um traficante negro morto sem julgamento em mais uma favela do Rio de Janeiro? Em qual momento um torna-se humano em risco e o outro um risco a humanidade que deve ser extinto? Já praticamos a pena de morte trajada de “auto de resistência” a anos no Brasil e a única coisa que conseguimos fazer a respeito é questionar a soberania de um pais que aprovou em sua constituição uma lei que prevê pena de morte para tráfico e a executa. Realmente é sempre mais fácil falar da grama do vizinho enquanto a nossa seca ao sol, sem nenhuma atenção ou cuidado.

Voltando a questão da identificação com o semelhante para gerar compaixão, precisamos olhar mais para os olhos de todos, leia-se: todo e qualquer ser humano que exista. Para que enfim comecemos um trabalho de cuidado e vigilância mútua pela vida do próximo e consequentemente a nossa.

A polícia mata todos os dias por questões banais em todo o território brasileiro. Mas será que para a mídia dominante no Brasil começar a questionar os abusos da polícia precisaríamos perder um jovem surfista amigo do nosso mais novo ídolo campeão mundial de surf? Jovens promissores, como Ricardo dos Santos, continuarão a ter suas vidas interrompidas enquanto continuarmos a acreditar nas armas como forma de trazer a paz e segurança e também enquanto fingirmos que estes jovens não estão morrendo diariamente nos becos e favelas “pacificadas” das nossas cidades protegidas por uma força armada, frustrada, despreparada e pronta para atacar na sua primeira perda de memória afetiva.

Tem muita gente morrendo por aí, então não espere que o falecido tenha um rostinho que te agrade, nem a tua religião, nem que use roupas que se identifiquem com o teu estilo, ou que toque na banda que você ama, nem que fale a tua língua, nem que muito menos tenha o tom de pele parecido com o seu.

Tem muita vida por aí acabando da forma mais banal possível. Precisamos nos escandalizar com o término sumário de todas elas.

Para jamais esquecer: Je suis Amarildo! Nous sommes tous Amarildo.

Hilnando Mendes é designer, filmmaker e colaborador do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 22/01/2015 por em Hilnando Mendes.
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