ORNITORRINCO

VENTOS DE AGOSTO


O filme “Ventos de Agosto” tem uma rara característica, borra as margens entre documentário e ficção para observar a etnografia, a convivência das pessoas e o crescimento de uma cidadezinha no interior litorâneo de Alagoas. Uma cidade que ao mesmo tempo é única e comum: pescadores, extração de coco, idosos que vivem a memória e jovens com corpos ensandecidos por experimentação. 

Dirigido pelo Gabriel Mascaro com apenas 50 mil reais, o filme já foi exibido em grandes festivais nacionais e internacionais, recebido com muito entusiasmo. O filme segue a personagem Shirley (Dandara de Morais), garota que deixa a vida na cidade grande e vai morar nessa pequena vila de Alagoas (filmado em Porto de Pedras, nos arredores de Maceió). Lá a menina sonha em se tornar tatuadora enquanto divide-se entre os cuidados com a avó, o trabalho na plantação de coqueiros e o namoro com Jeison (Geová Manoel dos Santos). A rotina tranquila dos moradores dessa vila é revirada quando um pesquisador (interpretado pelo próprio diretor) chega para registrar o som dos ventos alísios. A vida desses personagens começa a enfrentar dilemas sobre a maneira com que lidamos com a modernidade e a natureza. 

Em uma das cenas mais bonitas, esse pesquisador, ou seja, o diretor do filme, capta o som direto enquanto é rodeado pelas crianças e observado pelos velhos que olham com curiosidade aquele que está “perturbando” o sistema local.


Como a distribuição de filmes nacionais privilegia produções comerciais, “Ventos de Agosto” provavelmente não vai chegar nas salas de cinema de todo o Brasil. Se não fossem os festivais, nem seria exibido nas grandes cidades. Mas tudo bem, né? Você tem aí como opção os filmes “Loucas para Casar”, “Os caras de pau em o misterioso roubo do anel”, “Boa sorte” e o “Irmã Dulce”, por que vai querer ver um filme de um jovem cineasta brasileiro de quem você nunca ouviu falar, sem atores conhecidos e de narrativa experimental?

Graças à internet (o que seria de nós?) a produção driblou os cinemas e colocou o filme para ser assistido pelo serviço do Vimeo on demand. Você paga apenas $3,00 e assiste na sua casa. Bom? Ruim? Excelente. Foi assim que assisti e recomendo a todos que queiram conhecer o trabalho do Mascaro, ou aqueles que já o seguem desde “Domésticas”, assistam o filme e divulguem para os amigos conhecerem o trabalho e o novo sistema de exibição. 
Quem sabe assim o público tome conhecimento de um outro cinema produzido aqui no Brasil e que infelizmente não aparece nas salas convencionais. E assim, diminua o tempo entre a pergunta e resposta dos jornalistas e produtores de audio visual que saíram dos cinemas perguntando “Por que o Brasil não consegue fazer um Relatos Selvagens?”. Consegue. Vocês que não estão olhando para a direção onde a resposta está. 

Trailer:

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Informação

Publicado em 15/01/2015 por em Gabriel Pardal.
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