ORNITORRINCO

VEJO ENQUANTO ME OUVEM

Será que estão ouvindo bem? Meu irmão Bernardo veio. Deve estar assustado, esse show é diferente, e ele estranha, mas eu sou assim desde os 5, ele não estranha. Na parede, pintaram umas baleias, nunca vi baleia. Sempre vejo baleia. Sei que vocês me entendem. As pedras são baleias. É o Nanini lá atrás? É. Nossa, que bad. Eu devia ter aquecido minha voz, sei lá. E quem são esses bizolos aqui na frente? Vidradões, do estilo com olho curioso. Ih, aplaudiram, olha…que coisa, gostaram, então. Acho. No Rio se aplaude mesmo sem gostar. Se bem que aquelas duas meninas ali atrás, na direita, perto da parede das baleias não. Caras de cu. Apoiadas no braço. Uns dizem que é inveja, eu não consigo. Anos de bullying não me fazem pensar que alguém possa ter inveja de mim. Eu não sou ninguém, só fiz umas musiquetas lá no meu quarto e vim aqui hoje, cantar, mostrar. Que nem o padeiro faz o pão e mostra lá na cesta pra gente escolher. Essas duas não gostaram do meu pão. Não é melhor ir embora? Virei Stravinski – coitada, vão me vaiar, jogar as cadeiras, o lance todo. Essas duas, pelo menos. O resto tá gostando, olha. Ih, que coisa. Esquece as duas, Letícia. Olha a cara daquele cara com o namorado, entregue, que engraçado, que engraçado, que engraçado. Vem, meu menino vadio, vem sem mentir pra você. O Arthur é tão hilário, ele é tão 8 anos, ora zombeteiro, ora molinho, olha a cara dele, meu deus. Agora eu entro, é agora, é agora. Ah não, ainda não, que doente mental eu. Agora é o Paulo. Olha o Paulo, gente. O que é o Paulo? Que figura, só tem figura nessa porra. Será que o Guel Arraes tá gostando? E aquele dia que eu fui na casa dele porque eu era assistente do Ricky Castro, meu deus, quantos trabalhos hilários eu já tive nessa vida… Ele contou uma história tão intensa, que ele estava na cachoeira, e vieram vários mosquitos, e eles estavam estranhos, e ele achou melhor sair dali, e assim que ele saiu, veio uma tromba d’água, que forte. Será que é assim a história, será que eu pergunto pra ele se é isso mesmo, isso tem 8 anos. Eita, é minha vez. Meu diafragma dedica essa canção ao Thiago, essa monstruosidade de beleza e profundidade. Olha, ele me olhou. Será que estão me ouvindo bem? Até que está cheio, que bom. Tem gente ali atrás, nem estão conversando, que raro, que especial, que milagre. Há quem ouça, mas será que me escutam? Sobre compreender, não quero nem compreender, não é necessário no caso, mas escutar, puxa vida, escutar é importante. O que estão comendo ali naquela mesa? Que fome, preciso de um chiclete antes de ir falar com as pessoas, estou com bafo. Take my breath away. Você me faz perder o fôlego. Você me faz. Me faz, me faz, me faz, me faz. Chora, Leticinha, chora, chora que melhora. De úlcera você não morre. Guarda não. As duas com cara de cu continuam olhando, emanam uma energia pesada, que ruim. Mal sabem elas que estando aqui no palco, não estou exposta, é onde mais estou protegida.

Preciso aprender a cantar de olho fechado.

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Publicado em 15/01/2015 por em Letícia Novaes.
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