ORNITORRINCO

NÓS, ELES E O ATENTADO AOS CHARGISTAS

Considero estúpido e indefensável o atentado contra os chargistas franceses. Por outro lado, não me associo àqueles que rapidamente tecem uma linha entre o gesto e a religião islâmica. Não professo nenhuma fé religiosa e me sinto tranquilo assumindo que a religião aí não tem sequer a maior parte da responsabilidade que querem lhe impor. Enquanto religião específica, o que ela influi é o mesmo tanto que qualquer outra religião pode o fazer por meio de seus grupos sectários e totalitários.

Aliás, há muito mais religiões do que se quer catalogar, sendo que as mais modernas devidamente anti metafísicas recebem um tratamento linguístico diferenciado, mas nem por isso dispensando liturgias e certos códigos de conduta que por vezes alimentam seguidores capazes de gestos tão ou mais brutais que este atentado.

Como jornalista, também não estou mais tocado porque se trataria de um ataque a liberdade de imprensa. Também não creio que o atentado tenha esta questão como ponto chave. Talvez apenas na medida que a violência simbólica recorrente (e aqui não me refiro às charges) que sofre os que professam a fé islâmica em solo europeu seja melhor vingada pelos sectários contra uma das principais máquinas das ideologias oficiais do status quo.

Como agnóstico, consigo compreender que boa parte das religiões metafísicas professam acima de tudo o amor e, de certo modo, a busca na mesma fé que tenho: a de que a convivência humana, senão amorosa, pode ser muito mais tranquila, equilibrada, honesta e alegre entre os seres humanos. Como já disse o psicanalista marxista (judeu) Erich Fromm “se o amor fosse fácil todas as religiões seriam ingênuas”. Infelizmente a palavra amor foi vulgarizada e muitos já nem sequer entendem a magnitude e as ambições cósmicas do que ela busca significar e representar.

Por fim, no mundo complexo em que vivemos, ninguém detém a verdade sobre um fato desta natureza, tão absurdo quanto é a própria existência humana. De minha parte apenas teço estas considerações porque acredito que combater a dicotomia do “nós e eles” é o principal desafio para superar tantas iniquidades. Iniquidades que quando cometidas contra “eles” – que quero sempre ver como nós – sequer “nos” consternam.

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Publicado em 07/01/2015 por em Júlio Fisherman.
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