ORNITORRINCO

FELIZ MINUTO NOVO

E pra você, como é que é existir? Quando nasce alguém a gente para, repara e comemora: mamou! Fez xixi! Olha quanto cocô, coisa mais linda da titia! Olha ela segurando o meu dedinho! E passa o tempo e nossa: tá se arrastando no chão, daqui a pouco tá engatinhando, gente! E olha a menina em pé se apoiando no sofá, olha ela, vai andar, vem, meu amor, ah, caiu, upa, levantou, daqui a pouco vamos comprar uma bicicleta, e olha ela pedalando sem rodinha, como é que pode a vida, né?
Aí a gente cresce e para de reparar. Dormir é luxo. Xixi e cocô é nojento, não pode comentar. Andar passa a ser normal, cair é vexame. E a vida vira essa coisa banal, cinco dias de trabalho, dois de descanso, 52 vezes seguidas e oba, é ano novo, agora sim tudo pode acontecer, agora sim tudo vai mudar.
A verdade a gente sabe mas esquece. Tudo muda sempre. Agora. Agora. Agora. Nasce uma linha no canto dos seus olhos. Cresce branco aquele centímetro a mais do seu cabelo. Você vê o inédito e se transforma. Assim. Num estalar de dedos. Quem vai dormir a cada noite não é mais quem acordou, mas a gente disfarça, não percebe. Dá trabalho, cansa muito esse negócio de mudar. Deixa pro réveillon e junta tudo numa lista que fica mais prático.
E aí quando o novo pula exibido detrás de uma árvore a gente se espanta: pode então a vida mudar assim, de repente? Como se as pequenas mudanças cotidianas não fossem o anúncio, o prenúncio de que nada está estático, nunca. Quando o novo chega farfalhante, carregado de desejos e sonhos, a gente logo desconfia: e pode tanta alegria assim tão rápido? E se esquece de que quando o imprevisível se apresenta não adianta discordar. Mas como assim ele bateu de carro? Mas assim de repente? Não concordo! Quer o divórcio? Morreu? A gente discorda mas não tem jeito: já aconteceu.
A vida acontece. Agora. Agora. Dia 11. Em outubro. Num sábado, numa segunda-feira. Às três da tarde ou às quatro da madrugada. Num virar de páginas de um livro a vida acontece. Num avião que desaparece. Num esbarrar de mãos na praça. Nas palavras virgens mil vezes repetidas que você diz a cada dia pro seu filho. Bom dia. Boa noite. Juízo. Seja feliz. O ano muda, mudam os meses, as horas mudam velozes ao longo dos dias. Se a gente for esperto, dá as mãos pra vida, muda com ela, e não disfarça: celebra e agradece.

(Foto de Camilo Lobo)

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Publicado em 30/12/2014 por em Maria Rezende.
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