ORNITORRINCO

POR UM NATAL COM SENTIDO E CONSENTIDO

Uma amiga minha me mandou uma mensagem questionando o valor do Natal com a família dela. Minha irmã reclamou que eu não ajudei a arrumar  a ceia de Natal. Meu irmão se matou e não vai estar aqui neste ano pela primeira vez desde que me entendo humano. Esses são três fatos que me ensinaram a atribuir um sentido diferente para o Natal, espero ter seu consentimento ao fim desse texto.

Ontem vi duas mães discutindo por causa de um último brinquedo numa loja, isso tudo na frente dos filhos. As obrigatoriedades tácitas desde montar árvore, enfeitar casa e fazer uma ceia complexa, e em especial o consumismo desenfreado e desesperado me assustam na medida que o que poderia ser uma grande oportunidade para todos nós nos percebermos como seres que estão conectados, acaba sendo um frenesi em busca de muitos objetivos fúteis. Mesmo as instituições de caridade se focam muito mais no material, no presentear, raramente no essencial e em valores que ao meu ver transcendem o ter da matéria. Acho que minha amiga se referia mais a essa celebração de cunho capitalista de árvores, sacolas, bebidas, números, lucros e prejuízos do que ao fato de ela estar em Petrópolis com uma família que ela não curte. Nunca gostei de obrigatoriedades de qualquer natureza, hoje menos ainda dessas obrigatoriedades de Natal. Até mesmo para as crianças daqui de casa eu gosto de fazê-las entender que existem coisas mais importantes que a escolha de um presente e só presenteio quando vejo real sentido. Penso que este consumismo que impõem a obrigatoriedade de presentear que é discreta, ou as vezes abertamente, empurrada pela nossa goela abaixo deturpa e bota em segundo plano a oportunidade que se apresenta nesta data.

Neste ano, eu não ajudei a arrumar a mesa e não ajudei a cozinhar. Minha irmã reclamou e eu percebi que apesar de amar a ceia daqui de casa, não fazia questão dela e por mim elas não precisavam fazê-la esse ano. Meu argumento, além do cansaço de não querer ter trabalho, é que o tender, ravioli caseiro da minha mãe, rabanada e milhões de outras coisas que eu amo como bom ex-gordo, tudo isso apesar de delicioso e apreciado, é supérfluo e está bem aquém do que significa hoje pra mim o Natal. Se nada disso existisse e todos nós decidíssemos simplesmente sentar na sala e conversar, eu estaria feliz pela oportunidade de estar reunido com tanta gente amada, com quem escolho e opto estar todo ano nos meus 32 anos de existência. No meu caso é minha família e amigos de infância, mas obviamente pode ser que você não seja muito chegado na sua família de sangue, como minha amiga do início do texto, então que seja o momento de se aconchegar na família que você elegeu como sua ou nos amigos que escolheu este ano.
Independente de sua religião, fé, crença, ou falta delas, o Natal é uma grande oportunidade de união. Na vida de adulto as pessoas tomam rumos muito diferentes e no Natal é um raro momento em que todos tem a oportunidade de estar juntos. Na minha casa sempre foi assim, Natal da família sempre foi aqui, e com a ausência do meu irmão esse ano essa vontade de unir, este escolher estar junto ficou ainda mais evidente pra mim. Natal é oportunidade de estar com quem se ama, de reunir a família, encontrar os amigos e resgatar o que há em comum a todos nós. Há quem diga que esse sentimento de fraternidade é o tal espírito Natalino.

Seja no Natal chinês, no Natal hindu, Natal Judeu, ou no Natal da PQP, o chamado espírito Natalino deveria existir sempre, esse sentir fraterno deveria ser celebrado e carregado pelo ano todo, mas como ainda não é, que nesta época, pelo menos nessa época a gente consiga ter isso mais forte em nós bem acima da necessidade de presentear e encher a pança. Esse sentimento faz bem pra quem sente, faz bem pro mundo todo ter esta consciência não?

Essa consciência de que todos apesar de completamente diferentes, somos profundamente iguais na nossa essência que nos conecta: todos nós somos humanos, demasiadamente humanos e por mais um ano que passou estamos aqui, unidos, juntos, vivos.

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Informação

Publicado em 25/12/2014 por em Franco Fanti.
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