ORNITORRINCO

ANOTAÇÕES FORTUITAS DE FIM DE ANO

Faz muito tempo que não simplesmente caminho. Mas hoje é dia. Basta ir. A pior coragem é a do início. Percorro a cidade de São Paulo, que me ignora, confortavelmente. Na mão carrego apenas meu nome escrito errado num copo de café gelado da Starbucks. Quanta ironia besta curiosa: a Starbucks querendo me fazer acreditar que se importa com o meu nome. E não é a única. Tá bom assim, tá bonito assim, o nome errado no copo em meio à multidão de anônimos à qual faço questão de pertencer. “Se eu fiquei gorda, deleta”, disse a menina pra amiga, tirando fotos no saguão do hotel. Mas você é gorda – eu quis falar mas não falei. Eu gosto de você assim, gorda – eu quis falar mas não falei. Que tal a gente parar com essa porra já? Você é gorda, você é linda. Cabô. Eu hein. Eu quis falar. Mas não falei. Entenda: tudo é importante. Nem tudo divino e maravilhoso. É difícil esquecer o pai que esqueceu o filho no banco de trás do carro. É difícil esquecer a mãe que esqueceu a filha no banco de trás. Por gentileza, uma informação: quando se chega até aqui, como é que faz pra sair? Se for reto vai dar no retorno? A banca de jornal me fala: EUA e Cuba decidem reatar relações diplomáticas após 53 anos. São 11 horas da manhã. Não quero uma Coca-Cola, mas poderia tomar de gole um balde de rum. A menina que faz flores de palha me diz “eu e minha prima estamos com fome”. Vamo trocar uma flor dessa por um picadinho à moda com banana frita? Nunca levei jeito pra fazer flor. Nunca levei jeito pra fazer picadinho. Mas juro que tomava agora, dum gole, um balde de rum. Estou fora do meu mundo há tanto tempo que o meu mundo virou esse outro mundo que ele também não é. Dormir em camas de hotel. Acordar em camas de hotel. Acabar deixando pra lá isso de botar despertador só pra tomar o café da manhã do hotel. É danado decorar o próprio endereço se ele muda toda semana. É uma saudade de cada uma coisa boba. Dormir em casa, acordar em casa, tomar meu café preto em casa, a água fervendo batendo no filtro e a fumaça subindo da minha xícara velha de bolinhas coloridas. Minha casa sem eu dentro, lá, paradinha, em algum lugar da cidade na qual supostamente o meu mundo está. Penso nela: minha casa, vazia, habituada a viver por si só. Saudade dos meus amigos. Será que meus amigos ainda são meus amigos? Quando eu voltar quero ver meus amigos, caso eles ainda sejam meus amigos. Quando eu voltar, vou consertar o chuveiro. Quando eu voltar vou consertar a gradinha do corredor. Quando eu voltar vou trocar a vela do filtro. Quando eu voltar, vou mudar tudo de lugar, o piano vai pra cozinha em 2015, a mesa de escritório mais pra perto da janela. Quando eu voltar vou simular em cada coisa um recomeço. Mãe? Ainda dá tempo de eu querer ser plantadora de uvas quando crescer? Mãe, por favor, diz que dá? Envelheci rápido demais nesses ultimamentes. De vez em quando é que eu reparo, no espelho do camarim. No camarim é que dá pra ver a quantidade de cabelos brancos multiplicando devagar. Estamos todos com cabelos brancos aqui e acolá, as crianças estão deixando de ser barrigas, estão balbuciando fonemas que daqui a muito pouco serão palavras, que daqui a pouco serão frases, que daqui a pouco serão o mundo. Martim e Lola já têm um ano. Clara, mais. Santiago, quase isso. Daqui a pouco estão abrindo minha cerveja, virando de gole um balde de rum, e eu a seguir envelhecendo no espelho de um camarim. Hoje mesmo estive a falar diante de 900 pessoas. Quando estou de pijama no quarto, quieta, não me ocorre que este seja o mesmo corpo que esteve a falar diante de 900 pessoas, não me ocorre como é que pode alguém, por ofício, estar a falar diante de 900 pessoas toda noite. Como pode alguém viver do que não entende? Ganhei sem sentir. A melhor habilidade é a que a gente ganha sem sentir. Talvez. É exatamente o que a gente faz sem sentir que é a única coisa que a gente é. Quero fazer da vida toda um diariamente: só. Alguma coisa tem de estar fazendo do tempo a pessoa que não tem tempo pra nada. O Papai Noel do shopping está suando sob a bata, pobre Noel, sussurrando que é hora de fazer novas promessas, que é hora de refazer as promessas velhas não cumpridas de sempre. Hora de pensar no que passou, pensar em onde você estava há um ano atrás e pensar onde você quer estar daqui a um ano. Desacostumar o olho de ver as coisas como já estão e lembrar o quanto cada coisa era surpreendente quando apareceu pela primeira vez. Fica parecendo que o tempo passa devagar. Agora parece que foi rápido porque agora já acabou. Agora parece que foi pouco porque Papai Noel volta sem mudar de roupa, como se nada tivesse acontecido, na maior cara de pau do planeta. Aconteceu coisa à pampa, Papai, não me vem com essa não. Cresce um menino dentro da barriga da minha irmã e tudo. Esse sim, ainda barriga. Mas por muito pouco tempo. Daqui a muito pouco, palavras, mundo e balde de rum. É a primeira vez que uma criança vai me pertencer por sangue e que o amor será gratuito, por nascimento. Amar sem conhecer. Isso é perfeitamente possível, e muito mais comum do que se imagina. Cuesta trabajo. Vou ser tia em sério, preciso aparentar consistência de tia. Nisso os cabelos brancos vão ser úteis: vai parecer um sinal de que eu sei coisas sobre a vida. “Às vezes tenho a impressão de que as pessoas estão todas vivendo suas vidas enquanto eu estou aqui, no teatro”. Tinha essa frase numa peça que eu fiz e meu coração se apertava. Tem o consolo de saber que é no teatro, e não fora, que estamos sempre a tentar dizer a verdade. Mãe? Descobri que meu maior sonho é ser camponesa, e ter pernas fortes em vez de Whatsapp. Tem alguma coisa muito errada, cheirando muito mal, muito de leve. Eu quero lembrar que a maior tecnologia possível ainda é a de ser só uma pessoa, caminhando sem nome certo por uma cidade qualquer. Faz tempo que eu não simplesmente sou só uma pessoa. Hoje é dia de tentar lembrar.

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Publicado em 24/12/2014 por em Keli Freitas.
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