ORNITORRINCO

O ARRASTÃO ANUNCIADO

É dezembro, o natal com sua parafernália convida os transeuntes a exercerem o único direito que lhes é garantido: consumir pelas ruas da cidade, livres, sem opressão, com os sonhos presos na carteira de dinheiro. O décimo terceiro paga antigas dívidas, e novas podem ser contraídas. Num domingo próximo o comércio estará aberto e, se for um dia ensolarado, as praias irão ficar lotadas, e vai ter arrastão. A polícia está preparada, como todos os anos, para esta eventualidade. A surpresa fica por conta das condições meteorológicas.

Ano passado, estava em Copacabana, tranquila tomando uma caipirinha no Bar Mônaco, pensava em não sei o quê quando a atmosfera começou a ficar pesada. A primeira coisa que notei foi uma senhora abraçada a sua bolsa como se estivessem com uma arma apontada para sua cabeça. Olhei para os lados e não vi nada nem ninguém que pudesse causar tamanho pânico. Mas ela continuava no meio da rua paralisada pelo terror. Olhei de novo para todos os lados, nenhuma ameaça. Mas o segurança do bar correu em seu auxílio, a ajudou atravessar a rua, e colocou-a num taxi. A senhora chorou lagrimas de gratidão, o segurança havia lhe salvado a vida. Daquele momento em diante, o segurança não teve mais sossego. 

Feliz de poder exercer sua função, como se fosse um policial em divisa, defendia com unhas e dentes os dois quarteirões que estavam sob seus cuidados. Ele expulsava, sem nenhuma razão, meninos que se aproximavam da padaria em frente ao bar. Relatava a violência que havia tomado conta do bairro. Dizia, para quem quisesse ouvir, que um policial tinha parado um moleque que, palavras dele, tremia igual passarinho quando cai do ninho de tão franzino que era: o policial não teve pena, baixou o cacete. Fiquei incomodada com o sorriso que ele exibia ao contar suas histórias e decidi ir embora. O segurança, solícito, se ofereceu para chamar um taxi. Não agradeci, paguei a conta e sai caminhando. 
Na avenida Nossa Senhora de Copacabana, um espetáculo que nunca imaginei ver estava em pleno andamento: na rua deserta, apenas meninos, a maioria negros, sentados na calçada com policiais que os ameaçavam enquanto esperavam a chegada dos camburões. As lojas estavam fechadas: os vendedores, barricados atrás das grades, deram abrigo a pedestres que temiam se aventurar pelas ruas: a Princesinha do Mar tinha sido sequestrada. Taxi não passava, lembrei-me com raiva do segurança do bar, pra ele não faltava taxi. Só me restava continuar a caminhar por Copacabana como uma inglesa em Johanesburgo antes do fim do apartheid.

A cena se repetia a cada esquina. Adolescentes sentados nas calçadas sendo ameaçados por policiais. Mas são assaltantes, disse-me um porteiro quando tentei impedir uma criança de levar um safanão. Olhei para o menino e vi somente medo em seu rosto. O que teria ele roubado em um arrastão? Uma toalha? Brasileiro é descolado, não leva grana pra praia.

A molecada tinha caído numa armadilha. Todas saídas do metrô estavam sendo vigiadas e os pontos de ônibus também. Impedidos de voltar a casa, foram obrigados a se espalhar pelas ruas do bairro. Aqui e ali, grupos de adolescentes negros caminhavam pelas ruas aterrorizados e causavam pânico.

Já que a tática orquestrada pela polícia para caçar negros adolescentes num dia de sol em Copacabana provocou o fechamento do comércio, é provável que este ano modifiquem o método para assegurar o direito sagrado ao consumo. Mas, com certeza, se domingo amanhecer com o sol a brilhar, vai ter arrastão.

Branca de Camargo é atriz e formada em Letras e colaborou com este texto para o ORNITORRINCO.
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Publicado em 17/12/2014 por em Branca de Camargo.
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