ORNITORRINCO

EM BUSCA DO LEITOR PERDIDO

“Um quarto dos alunos do 5° e do 9° do ensino fundamental público está no nível mais baixo na avaliação nacional de português”, diz uma reportagem da Folha de S. Paulo. Os dados publicados recentemente (5 de dezembro), são baseados na Prova Brasil, avaliação nacional aplicada pelo Mec a cada dois anos e que teve sua última edição realizada no ano de 2013.

As habilidades e competências avaliadas na prova nacional de português, vale lembrar, não têm a ver com gramática, apenas a capacidade de leitura e compreensão dos alunos é testada na avaliação, eles precisam, entre outras coisas, “identificar o efeito do uso de aspas” (!), e essa competência não tem sido alcançada por alunos do 9° ano, o último do ensino fundamental. Outras habilidades como “distinguir o sentido metafórico do literal de uma expressão” não são alcançados por alunos do 5° ano.

Essas habilidades não alcançadas, aparentemente banais, denunciam o profundo equívoco que a educação brasileira cometeu ao longo da sua história. O ensino maciço de gramática, a pouca importância dada à leitura e à interpretação de textos, o trabalho ínfimo com o reconhecimento de gêneros, o mal uso do ensino de técnicas de redação, que muitas vezes se resume a pedir que o aluno escreva um texto com “três parágrafos e dez linhas em cada parágrafo, para que seja um texto equilibrado, com introdução, desenvolvimento e conclusão”, todos esses absurdos contribuíram e contribuem ainda para os resultados que temos hoje.

Felizmente, aos poucos, as coisas vêm mudando, e com aval do Ministério da Educação, muitos dos livros didáticos atuais não trazem o ensino de gramática ou dão pouca ênfase a essa parte do aprendizado, e focam na leitura e produção de textos em língua materna, para que os alunos desenvolvam sua capacidade crítica e de compreensão, além da sua criatividade e raciocínio, afinal de contas, de que vale para um aluno do 9° encontrar o Sujeito de uma oração e não entender em um texto “o tema a partir de características que tratam dos sentimentos do personagem principal”.

É claro que é importante saber gramática, e ela deve sim ser ensinada, desde que da forma adequada, reconhecendo que ela não é a protagonista nessa história, muito menos os gramáticos, a quem a sociedade entrega o estandarte de donos da Flor do Lácio. A gramática deve ser uma ferramenta de auxílio e não pode ser mais importante para um aluno do que o seu prazer de ler uma história e compreendê-la, ou a sua capacidade de escrever e contar uma história de maneira agradável.

Os leitores parisienses receberão em breve, no Salão do Livro de Paris, uma comitiva de autores brasileiros selecionados pelo Minc, alguns deles respeitáveis, outros nem tanto, mas a dúvida que fica é: quando teremos tantos leitores quanto o destino próximo dos “representantes da nossa literatura”? Quando teremos tantas livrarias, tantas bibliotecas, tantas editoras e tantos leitores quanto a França, para onde vão os “representantes da nossa literatura”?

Recentemente, em uma palestra dada na ECO (Escola de Comunicação) da UFRJ, Paulo Roberto Pires, escritor, jornalista, editor e professor da ECO, disse que no Brasil há um grande público frequentador de feiras/festas literárias e bienais, disse que esses eventos têm crescido ao longos dos anos, mas que esse público que os frequenta não se reflete no número de leitores e no número de vendas de livros. “Muita gente vai ouvir o escritor falar, mas pouca gente leu o livro do escritor”, disse Paulo Roberto Pires, que deu a declaração baseando-se em sua longa carreira no mercado editorial e nos anos em que trabalhou na organização da Festa Literária Internacional de Paraty e outros eventos, para ele, o novo e maior desafio do mercado editorial é transformar o público que vai às feiras e bienais em consumidores de literatura, em todos os sentidos.

O desafio de formar leitores, no entanto, começa bem antes das festas/feiras e bienais, começa nas escolas e nas bibliotecas comunitárias, se é que elas ainda existem. Tudo começa em saber “distinguir o sentido metafórico do literal de uma expressão”, em outras palavras, tudo começa com o simples ato de abrir um livro e percorrer suas linhas com os olhos, com a imaginação e com o espírito, sem se preocupar com o Sujeito, com o Objeto e outros intrometidos que não foram convidados para a festa/feira ou para o que quer que seja.

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Publicado em 15/12/2014 por em Danilo Diógenes.
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