ORNITORRINCO

QUANDO O DIA MUDA RÁPIDO

Quando o dia muda rápido, eu me assombro. Eu fui mesmo hoje à praia? Minha pele tomou sol? Não é possível, natureza, não é possível esse chumbo de agora, eu ainda estou quente. Não faz isso comigo. Fosse só a ventania, eu metaforizava e sentia mudança em minha vida. Quiçá romântica, mas céu chumbado, raio, trovão e chuva, eu vou querer ligar pra minha mãe de tanto medo. E ela não vai atender. Eu fui mesmo hoje à praia?

Quando o mar volta, eu de costas pra ele, é quase álcool. Mosaicos na areia, cadência repetitiva, colmeia. Eu não preciso de mais nada. Mas por que agora é além? Não podendo conquistar a água, eu encaro a areia, eu sou o próprio castelo, minha cor flerta com a da areia, preciso lembrar do protetor, mas tudo me parece longe agora, tudo que não é aqui, agora, na beira do mar, já é muito distante. Tenho curiosidade pra ver minha cara agora. Pupilonas? Maxilar? Tenho fome, mas não pode ser qualquer coisa.

Quando sozinha, ainda sinto medo, mas optei pela alucinação solitária dessa vez. Mais tarde devo ver um rapaz, e ainda não decidi se me declaro ou não. Ou se espero declaração alheia. Que periclitante se apaixonar. Volta pra areia, moça, volta pra areia. Com 43 anos, parecerei ter 47 por conta desse dia e da minha falta de chapéu, cremes, proteções. O rapaz me amará com 43 e corpo de 47? Quero arriscar que sim, mas para isso é preciso que ele saiba que ele existe desde já. Ocupa um espaço forte. A praia é minha, os ambulantes que passam podem até sacar, sou fina mas também não sou espantalho, disfarço até onde consigo, mas só por defesa, mas se quiserem rir de mim, adulta, rolando na areia, na beira, olhos arregalados no mundo, no próprio corpo, na miúdeza da vida, nos tatuís, podem rir, não fará diferença hoje.

Eu sou a água, eu sou a terra, eu sou o ar, eu sou o fogo. Sou o rapaz, sou o ambulante, sou minha mãe não atendendo. Que dia bonito. Que grande escolha a minha. Ousei e colhi.

18:42 árvores caindo pela cidade, apagão em mais de dez bairros. Operadoras de celular fora do ar. Não acredito que o dia ainda não virou, que ainda é o mesmo espaço dentro do calendário. Tomo banho, me assusto comigo no espelho da torneira. A falta de luz também ajuda para o susto. Não sei do rapaz, sem telefone, sem internet, não posso me declarar. Tampouco combinar local para declaração. Saio do banho e vejo no chão da sala, uma mísera quina de papel, abandonada no chão. Como pode tanto em tão pouco? Cogito enfrentar a tempestade com mais ou deixar as formigas da casa se banharem no delírio abissal lisérgico. Não tive tempo de decidir. Bateram na porta, e eu fui conferir. O rapaz.

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Publicado em 05/12/2014 por em Letícia Novaes.
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