ORNITORRINCO

TROCO LIKES, SIGO DE VOLTA

Tenho poucos assuntos. Me interesso, leio, tento me ampliar, mas no final volto para o meu resumo. E desconfio que vocês também. Amor, cocô (perdão – ou não), sexo, morte, infância. Perceba a universalidade. Perceba-me comum. Comunzona.

Passei quase 15 dias na Bahia filmando a sequência do filme “Qualquer gato vira lata”. Faço Paula, amiga da Tati, persona da Cleo Pires. O filme está sendo feito em Imbassaí, mas é pra parecer Cancun. Cinema é magia. E eu ter feito esse “spoiler” não significa nada, façam me o favor. As filmagens são num resort, mas o elenco ficou hospedado numa eco pousada. Sem wi fi e telefone no quarto. A Bahia já tem um tempo particular, sem os acessos rápidos ao mundo exterior, isso aumentou. (A vivo diz que tenho 3G ilimitado, mas depois de uns dias de uso intenso, ficou tão lenta que desisti).

Vez ou outra na vida, temos alguns encontros anímicos. Consiste sorte, luz, destino. Name it. Acho que tem a ver com saúde também. Saúde de brinde. Álamo, Dudu e eu brindamos. É sabido que sou quase um moleque. A pose, o pescoço, as maquiagens do show não disfarçam meus anos de caçula de dois irmãos e vários primos. Sou praticamente um moleque vez ou outra. E também extremamente feminina-nista, enfim. Criamos um lugar, um trio, um grupinho. E como fazer cinema é saber esperar, esperamos juntos, e rimos e gargalhamos.

Mas esse texto não é sobre isso, e sim o seguinte: tive convívio com seres humanos, que são atores, e adquiriram popularidade, e com isso, um número infinito de seguidores nas redes sociais. Isso porque não quis escrever “tive convívio com famosos”. O instagram é uma rede prática, ainda mais no mundo de hoje, onde escrever mais de 5 linhas é quase agressivo. No instagram, põe se uma foto e pronto. Um ou outro, legenda. Ou taca uma carinha engraçada, o tal do emoji, antigo emoticon. Daí as pessoas curtem. Uns ou outros comentam, a maioria só curte. E tudo bem. Apesar d’eu ser do tempo do fotolog, onde até para dizer que você havia curtido uma foto ou uma poesia, era necessário escrever “eu curti”, pois não havia botão para apenas isso. Bons tempos, fotolog. Pode rir. Quem viveu, viveu.

Daí que vendo o instagram dos meus amigos atores que fazem novelas e são populares, comecei a perceber mais e mais o tal do comentário carente:

“troco likes”
“quem me seguir, sigo de volta”
“sdv” (sigo de volta)
“like na última”

Demorei um tempo a entender tal fenômeno. Quase como que não acreditando. É sério isso? Estamos falando de gente que se expõe e não tem vergonha disso, que está pedindo, medingando curtidas em posts/fotos? Sim. Vocês não fazem idéia, é uma chuva de comentários carentes do tipo.

Tenho instagram, sou do tipo que têm todas as redes, mas quando entrei no instagram, saí do twitter, pois não posso administrar tantas redes assim. E se eu entrar em alguma outra, com certeza sairei de alguma. Sigo a lei das compensações.

Esses jovens (a maioria é bem novinho) que imploram, pedem likes alheios, me constrangem num grau que não sei dizer. Só fui mexer na internet com quase 20 anos. Era um clima chat do uol ainda, e ninguém queria aparecer, pelo contrário, todos estavam ali, conversando no privado (poucos batiam papo publicamente). A internet cresceu, ficou mocinha e quis aparecer. Pessoas sem nenhuma profundidade em assunto algum, juram ser experts. E tome-lhe notícias falsas, e tome-lhe um raso passeio sobre qualquer assunto. Por mais doente mental que pareça, ter muitas curtidas ou ter muitos amigos, seguidores, pode significar algum status. A página da minha banda não tem tantos, nem por isso fico implorando, nem por isso mando mensagem para os amigos que nunca curtiram, sem querer, por seqüela, talvez.

Outro dia, pela primeira vez, no meu instagram, que sou a “exótica misteriosa” do filme, rolou o tal comentário: quem me seguir, sigo de volta. Sim, sou a “exótica misteriosa”. Pense: estou com Dudu, Cleo, Álamo, Rita e Malvino, Brasil. Já bati fotos com pessoas, que quase perguntei “quem sou eu?”, mas deixo a pergunta cruel e cretina para auto-análise. A hierarquia da fama é porrada. E observando de perto tudo isso, refleti que dá medo, dá medo pra caralho de embarcar nisso tudo. Dudu, Álamo e eu criamos um núcleo, eu sou a mãe, ou eles são meus irmãos, ou nós estamos na sétima série, sei lá, coisas do gênero. E é papo de estarmos comendo, comida na boca e surgem meninas querendo fotos dos meninos, e se você diz não, (com toda simpatia e amor que esses meninos têm) você é FILHO DA PUTA, ESCROTO, e capaz daqueles colunistas fofoqueiros falarem que você é um estúpido agressivo. Loucura, mundo, loucura.

Volto para a questão: quando um famoso posta uma foto, seja do filho, do cachorro, da nova novela, do brinco que está pagando por isso, não importa, trocentas pessoas comentam implorando por uma relação de espelho. “Olha, eu vou te curtir, mas só se você me curtir”. Ok, equilíbrio é lindo, mas quando ele é adquirido, conquistado. Todo mundo deseja uma relação de igualdade forte, seja amorosa, trabalhística, familiar. Ninguém gosta de sentir que doou mais do que recebeu (ok, alguns sim, claro – sempre!) Mas isso tem que vir de forma espontânea, e não num pedido deplorável e quase triste.

Ao invés de perder seu PRECIOSO tempo *nunca se esqueça*, em escrever “troco likes” em várias páginas de artistas, utilize seu tempo em ser bom em alguma coisa. Seja no que for. Seja em arrumar a casa. Parece chato, né? Mas sei lá, faz um instagram de possíveis estilos de arrumar sua casa, sei lá, MALUCO, sei lá. Seja criativo, que aí sim você arruma likes. Ao invés de postar seu bico trocentas vezes e implorar por 10 likes. Narcisístico e fraco, você só vai arrumar semelhantes, narcisísticos (portanto, não vai receber atenção) e igualmente fracos. Fico com pena e enojada demais com esses jovens. Estilo débeis mentais. E olha que conheço pessoas débeis mesmo – diagnosticadas, que são infinitamente mais inteligentes que esse jovens que mendigam seguidores. O tempo é precioso, nunca me esqueço. Sendo capricorniana, sendo regida por saturno, o deus do tempo, percebo a cada segundo, sofro, choro, me impressiono, me arregalo, me maravilho.

Vocês vão curtir esse texto, vou ficar feliz, vou achar normal, ou achar sei lá. Mas prefiro os comentários. E não quero endeusamento, não que que me chamem de foda, eu sou vocês, eu sou o outro você. In lak’ech. Eu quero um bom dia, eu quero um boa sorte. Não quero seguidores, quero acompanhadores, quero a troca.

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Informação

Publicado em 27/11/2014 por em Letícia Novaes.
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