ORNITORRINCO

A DESOBEDIÊNCIA DO ESCRITOR

Eis mais uma vez o dilema. Estou no saguão do hotel preenchendo a maldita ficha de hospedagem, nome, endereço, nascimento, você sabe, até que então mais uma vez o fluxo é interrompido quando chego no campo que pergunta qual a minha profissão. Talvez seja simples pra você, mas para mim é quase como perguntar qual o sentido da vida. Para ser mais preciso, eu paro no nano segundo após escrever a letra E. O super ego surge com tudo e pergunta Será? O que vai ser dessa vez?

Fiz teatro e filmes, mas não me sinto mais confortável em ser chamado de ator, confesso que tenho até uma certa vergonha, constrangimento. Nem jornalista, embora volta e meia eu faça uns freelas, não me considero um jornalista formal, seria forçar demais me chamar assim. Veja bem, já foram os tempos em que eu preenchia ator, jornalista, designer, cineasta, e até poeta, o que eu queria mesmo, quer dizer, neste momento o que sinto de coração que deveria colocar é Escritor. Mas serei eu um escritor?

O que eu fiz? Em 2010 publiquei o meu primeiro e único livro. Um livro que, digamos, não é romance, nem conto, nem novela, nem crônica. Chama-se Carnavália e foi escrito pelo ator, pelo jornalista, pelo designer, pelo cineasta e pelo poeta, mas sobretudo pela minha cabeça de escritor. Um livro que os prosadores chamam de poesia e os poetas chamam de prosa. Conclusão: não sou considerado escritor nem por um nem pelo outro.

Neste momento estou preparando a publicação do meu próximo livro, que vai se chamar Canibal Vegetariano, uma compilação dos meus desenhos – que são frases e textos – , que também pode ser entendido como uma compilação dos meus textos – escritos à mão, como num desenho. Um livro que os desenhistas irão chamar de poesia e os poetas irão chamar de desenho. Conclusão: novamente não sou um escritor.

Para completar, sou editor, escritor e fundador do site ORNITORRINCO, onde publicamos textos de colunistas e colaboradores sobre questões atuais, tentando refletir e comentar notícias por um olhar particular – o próprio. No site publicamos apenas não-ficção, e a literatura está presente seja como assunto ou como estilo de escrita de cada autor. Não diferencio um texto publicado ali de um texto publicado num livro, revista ou jornal. Mas os editores literários ainda não se interessam por esse material, muito menos os organizadores de feiras e festas literárias, então mais uma vez, não sou um escritor para essa gente.

Então que audácia é essa e que permissão eu tenho para me considerar um escritor? Posso usar como desculpa o fato de que estou há três meses escrevendo um romance, e que tenho conseguido evoluir com dignidade, escrevendo todos os dias. Mas quais as chances desse rascunho ser publicado? E após publicado, comprado? E após publicado e comprado, o que me faz pensar que ele um dia será lido? É mais fácil acreditar que ninguém está minimamente interessado no que tenho a dizer, e considerando o país onde vivemos, com sua baixíssima taxa de leitores, qual a razão para continuar a escrever e querer ser um escritor?

Em termos práticos, só serei considerado escritor após escrever um livro, certo? Só pertencerei ao grupo dos escritores e participarei desse restrito grupo se for publicado. E só serei convidado pelos organizadores de bienais e feiras literárias após meu romance ter vendido bem.

Mas claro que existem outros motivos – e melhores – , que me fazem continuar a escrevê-lo. São motivos mais íntimos e particulares, bem mais fortes que as questões acima, e é por isso que não vou parar. Entretanto, pensar que no final de todo o trabalho e de toda dificuldade – porque escrever é um trabalho árduo, ser publicado é difícil – terei escrito páginas e páginas de algo que ninguém vai ler. Isso é desanimador pra caramba.

Todas as vezes que vejo um personagem escritor em filmes e séries americanas, retratado em sua carreira de sucesso, muitos livros publicados, com as contas pagas, roupas limpas, escritório organizado, eu penso Onde e Quando e Como isso é possível de acontecer com um escritor brasileiro? Você pode citar uns cinco aí, mas o mais normal é o que acontece comigo: para escrever eu tenho que deixar de escrever. Porque preciso fazer uns freelas, pegar uns trabalhos que me tomam tempo e paciência e energia para que um dia eu possa enfim escrever. Assim é possível ir adiando a escrita até o infinito.

A melhor analogia para o trabalho do escritor não a toa vem de um livro. Em Moby Dick o capitão Ahab persegue por anos e anos a baleia que lhe arrancou a perna, com uma obstinação que tanto pode ser vista como corajosa e cheia de bravura, assim como insólita e tola. Independente de quais valores você emprega à atividade, o que importa mesmo é a sua inteira dedicação a ela.

Pois vamos dizer que eu consiga. Que eu termine o livro e que ele seja um dia publicado. Há outro momento na vida de um escritor que precisa ser encarado. A sua exposição e relação com os leitores e o mercado.

Nessas feiras literárias, com gente andando pra lá e pra cá, stands de livrarias com suas promoções, festinhas de editoras e filas para lançamentos e autógrafos, as atrações principais são os debates com escritores. Pois bem, na minha observação esses debates se dividem em três grupos.

O primeiro é o grupo dos escritores internacionais, sejam best sellers ou não, eles conseguem lotar as salas com um público curioso para ouvi-los falar. O segundo é o grupo formado pelos escritores que também fazem sucesso em alguma outra atividade na mídia, seja como ator, cantor, apresentador, jornalista. O terceiro é o grupo dos escritores nacionais que se dedicam inteiramente em cumprir a fatigosa função que é escrever. Cada grupo move um determinado público, que varia de tamanho e interesse literário. Vamos ver.

A) Os escritores internacionais lotam as salas com pessoas que estão ali para ouvi-los falar sobre seus livros, do porque escrevem, de como ganham dinheiro escrevendo, de como vivem de literatura. Uma parte do público leu os livros, outra parte não, mas está bastante interessada, principalmente em vê-los (afinal, quando terão a oportunidade de ver e dizer que viu o “escritor famoso”?).

B) Os escritores que também fazem sucesso em outra atividade são muito requisitados pela mídia – principalmente por aquelas na qual eles trabalham – e pelos seus fãs que antes de ler o que escrevem já os acompanham na televisão, nos jornais, na internet. Esse grupo também costuma encher debates e lançamentos, e quanto maior o carisma em frente às câmeras, melhor. Filas enormes de fãs querem seus autógrafos, com uma boa parte do público que leu os livros, já outra parte está ali para ver de perto “o brilho, o cheiro e a forma dos famosos”.

C) Os escritores nacionais que são escritores de dia, de tarde e de noite, têm a menor quantidade de público entre os três grupos. Alguns são queridinhos das grandes editoras, alguns já ganharam prêmios de literatura, vez ou outra colaboram para a imprensa e seus livros são quase sempre bem resenhados e recomendados. Os poucos desse grupo que não são muito conhecidos, são apostas de mercado. A menor parcela do público dessas feiras conhecem esses autores (em sua maioria são também escritores). Alguns já leram ou dizem que querem muito ler, mas muitos nunca lerão porque antes vão ler os livros dos dois grupos acima.

OBS) A ironia é que alguns dos que formam o grupo A pertencem ao grupo C em seus países de origem. Funcionaria da mesma forma se fosse o movimento inverso?

Em qual dos três grupos está a melhor literatura? Em qual está a pior? Essas respostas não existem. Há do melhor e do pior nas três, claro. Para mim, todos são escritores e o que importa não é de onde eles vieram, nem onde eles estão, mas sim os livros que escreveram. Entretanto não funciona assim para todo mundo. Se na programação tiver três debates diferentes de cada grupo acontecendo ao mesmo tempo, o grupo A e o grupo B teriam a maior fila enquanto que o grupo C provavelmente estaria com sobras de cadeiras vazias.

E. B. White escrevendo em seu barco

Para dar um exemplo, se você enxerga melhor com exemplo: se o Fiuk escrever um livro – que até onde eu sei nunca escreveu nada – e seu debate acontecer no mesmo horário que o de um jovem escritor gringo e o de um outro jovem escritor brasileiro, (cada um em seu primeiro livro) qual teriam mais leitores?

Mas é claro que não estou falando com você que lê e conhece os lançamentos literários e sabe muito bem diferenciar o que é bom e ruim entre tudo isso – se você está lendo isso daqui é porque o assunto lhe interessa e se lhe interessa é porque você sabe escolher o que vai ler. O que acontece é que isso tudo acaba pesando na hora de continuar a escrever um romance, mesmo que as melhores e maiores e mais verdadeiras razões para fazê-lo não chega nem aos pés de toda essa digressão aqui.

O grupo do qual eu faço parte é o grupo D, que com sorte poderá chegar ao grupo C – isso se não estiver fazendo outra coisa –, mas nunca ao grupo A. Enquanto integrante do grupo D, tenho que me ver face a face com esse desafio. É por isso que muitas vezes quando sento para escrever é como se eu estivesse dizendo para mim mesmo (e para meus pais, meus irmãos, meus amigos): Desculpa, mas eu vou escrever, eu tenho que.

Então chega o momento em que penso qual é o sentido de escrever no mundo de hoje. Escrever, principalmente para nós do grupo D, é buscar um diagnóstico para a lógica apresentada nos parágrafos acima. O mundo está definido pelo cálculo comercial, pela competição profissional, pela separação em grupos (sic) e pela linguagem do entretenimento acima de todas as coisas. O escritor deve criar um contraponto à isso. Permitir a descoberta de novas razões para ler e para viver que não são essas que hoje são promovidas como as mais interessantes e desejáveis, respectivamente.

Escrever e ler é uma ferramenta desse contraponto, ao defender a possibilidade de que a literatura oferece ao leitor explorar uma outra relação com o mundo em si, com as outras pessoas e consigo mesmo. A leitura tem o poder de ativar um estado de consciência distinto do normal, privilegiando a concentração ao invés da dispersão; a reflexão ao invés da busca por estímulos; a introspecção ao invés da exposição narcisista. Escrever e ler é proporcionar um intervalo da excitação superficial para que possamos nos reencontrar.

No saguão do hotel entrego o formulário, recebo as chaves do quarto e subo pelo elevador. Sento na cadeira de frente para uma mesa, ligo o computador e ainda embalado por tudo o que pensei, escrevo fácil umas cinco páginas do livro. Ainda falta muito, queria aproveitar que estou me sentindo bem com o que venho produzindo mas tenho que largar de lado e tomar um banho pois logo mais devo ir ao lançamento de um amigo. Prometo para mim mesmo que depois não vou sair para beber. Não vou. Preciso voltar pro hotel. Preciso voltar.

Gabriel Pardal
Escritor Fantasma

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Leia também

– O ESCRITOR E SEU NOVO ROMANCE
– UM E-MAIL PARA REGINALDO PUJOL FILHO

– OS TEXTOS QUE EU NÃO ESCREVO
AGRURAS DE UM VAGABUNDO ESCRITOR
– RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM SUSTENTADO PELOS PAIS

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 25/11/2014 por em Gabriel Pardal.
%d blogueiros gostam disto: