ORNITORRINCO

QUINZE NOTAS (E MEIA) PARA UMA CANÇÃO

1. Chris Cohen e Nedelle Torrisi eram um casal e um dia, na década passada, formaram um banda na Califórnia chamada Cryptacize. A primeira canção do grupo que ganhou um vídeo para o YouTube tinha um refrão com os versos que servem de epígrafe para esse texto: “every note is an unfinished song / we’re all in a cosmic sing-a-long”.

2. Esse texto é dedicado pro Negro Leo.

3. O Negro Leo falou dia desses duas frases libertadoras: “Cultura é desordem. História é organização”. Pra quem ficou 12 anos na academia, como eu, fazendo uso da visão histórica da literatura, essa máxima tira um peso enorme pra continuar esse texto. Esse texto, portanto, se pretende cultura e não história.

4. O Morton Feldman, gênio da música norte-americana do século passado, amigo do John Cage, do Frank O’Hara, do Jackson Pollock, do Mark Rothko e de toda essa gente brilhante dos Estados Unidos, escreveu um texto chamado “The Anxiety of Art”, em 1965. Lá ele afirma que durante 10 anos ele fez música, com outras pessoas brilhantes, num ambiente livre do ranço acadêmico, nem um pouco preocupados com o futuro ou com o passado, ou seja, destituídos do peso da tradição.

5. Nesse texto o Morton Feldman diz uma coisa bonita: “o que fizemos não foi um protesto contra o passado. Se rebelar contra a história é fazer parte dela. Estávamos simplesmente não interessados com os processos históricos. Estávamos preocupados com o som em si. E o som não entende nada de história.”

5.1. Repetindo: “O som não entende nada de história”.

6. E foi isso que o Negro Leo falou outro dia numa palestra, sem mencionar o Feldman, mas, sem saber, concordando com ele: “Eu não penso muito em tradição porque são valores organizados hierarquicamente”. A necessidade de um tipo hegemônico de música, surge de acordo com a demanda que, depois de assimilada pelo mercado, não demora muito para ser diluída.

7. No dia da palestra do Negro Leo, usamos o exemplo do funk diluído da Annita (mas sem destituir o valor social e cultural que ela e todos os outros antecessores do funk diluído, como Claudinho e Buchecha, um dia tiveram). O que eu disse para o Negro Leo (citando uma colocação do Vitor Paiva) foi que podemos ficar horas tentando domar o funk dentro do nosso curralzinho cultural branquelo zona sul, pós-esquerda anos 60 carioca, que o funk vai continuar a existir lá fora, muito maior, muito mais poderoso do que todos nós juntos. É como os Estados Unidos com medo da China. Como diria o meu primo diplomata, os norte-americanos sabem que se os chineses, todos ao mesmo tempo, resolvessem fazer xixi no território dos EUA, toda a população morreria afogada. É uma força natural, política e social gigantesca, tanto a China quanto o funk, e nós, os “ocidentais”, jamais teremos controle sobre isso.

8. Mas voltando ao Morton Feldman, ele disse naquele mesmo texto que a música do início do século XX, na seara em que ele trabalhava, era muito patrulhada pelas forças germânicas de Schöenberg, Boulez (que é um francês muito diferente do Debussy ou do Satie) e até mesmo de Stockhausen. Havia um autoritarismo e uma pressão vindos da tradição musical do velho continente. Tudo feito fora daquela esfera nascida com o dodecafonismo não seria considerado arte com selo de qualidade e pedigree. Charles Ives, Varèse e Cage, segundo o Feldman, foram chamados de “iconoclastas”, que é um eufemismo, para a escola germânica, para compositores “não-profissionais”. Abrindo mais aspas de Morton: “Na música, quando você faz uma coisa nova, original, você é um amador. Os seus futuros imitadores, esses sim são os profissionais”. Fato.

9. E aí chegamos a maldição da tradição. A tradição, a evolução da música popular, pensada pelos brancos heterossexuais, é feita dessa camada espessa de replicação de um determinado gênero. Da faixa da MPB nascida do cancioneiro de todos os sub-Chico Buarques que conhecemos, por exemplo.

10. Aqui, parênteses. É uma receita conhecida replicar um Chico Buarque inteiro: junte um mínimo de beleza física, um mínimo de conhecimento da história do samba e um mínimo de saídas harmônicas modernosas e frases espertamente rimadas (não precisa chegar aos pés do Chico letrista, só o devir-Chico já está valendo). Cabe até uma transa desse ser replicante com a literatura, com o futebol e até com um discurso político bem articulado. Não à toa, todo jovem compositor quer ser de esquerda, tocar um bom violão, jogar futebol e ser o bonitão avistado na praia. A utópica felicidade da heteronormatividade artística do século XX.

11. Agora, replicar o Caetano é difícil porque exige mais leitura dos sub-Caetanos. E mais leituras para jovens compositores é um outro assunto que merece um outro texto. Fecha parênteses.

12. A tradição é um inchamento de um determinado estilo feito por seguidores profissionais que acabam inscrevendo determinado momento musical, ou tipo de composição, na história. Concordo mais uma vez, e sempre, com o Negro Leo que disse que as manifestações musicais incontornáveis populares – o funk recentemente, o samba anteriormente – transbordam dos seus limites originais e, por conta dessa demanda, acabam tornando-se “populista hegemônico”.

13. Quando a “tradição” e o “populista hegemônico” se fundem, ótimo! Aí todos ficam felizes, os compositores, os donos das gravadoras, o público, a TV e a academia. A conta fecha, tanto monetariamente quanto canonicamente. Mas isso é um objetivo ultrapassado.

14. Não se pode mais partir dessas premissas. É necessário desarticular esse tipo de pensamento porque ele é muito velho, muito século XX, mais velho que o Chico Buarque. A cultura é desordem. É necessário respeitar não a “evolução” musical – em outras palavras, o “maria vai com as outras” na música – mas sim as próprias verdades estéticas, que vem de lugares muito distintos dessa evolução caduca.

15. É necessário leitura e ouvidos. É necessário procurar outros processos. É necessário dar a atenção devida ao ruído. É necessário não mais procurar o lucro, porque ele quase já não existe. É necessário ser coerente com suas próprias vivências. É necessário um outro texto.

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Publicado em 24/11/2014 por em Mariano Marovatto.
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