ORNITORRINCO

NEVER ALONE – COISAS BOAS ACONTECEM

Em 2014 uma nova geração de consoles (videogames) se consolidou, mas as versões atualizadas de clássicos do passado (remakes) fizeram tanto sucesso quanto os lançamentos ultrarrealistas das grandes franquias. No universo independente, propostas interessantes apareceram, no entanto, muitos projetos ficaram pelo caminho ou ainda esperam por doações no Kickstarter. Num desses projetos, “Americana Dawn”, os criadores inspiram-se no escritor Mark Twain e exploram o folclore e a história americana a fim de contá-los em um jogo que nos lança de volta aos anos 1990, a era de ouro do RPG eletrônico.

Outro projeto ainda em desenvolvimento chamou atenção nesse ano, trata-se de “Inside”, da produtora Playdead, responsável pela criação de “Limbo”. A julgar pelo trailer no site do jogo, “Inside” será tão original e surpreendente quanto seu antecessor. A Playdead, ao que parece, continuará apostando na sensibilidade e na inteligência do jogador para criar suas narrativas expressionistas e contundentes.

Com esses e tantos outros bons projetos ainda no forno, parecia que o ano se encaminhava pra um final sem grandes acontecimentos no cenário independente dos videogames. Mas, felizmente, coisas boas acontecem e “Never Alone” é uma delas. O game surgiu de uma proposta da Cook Inlet Tribal Council (uma instituição de auxílio a tribos nativas do Alasca) ao produtor da E-Line Media, Alan Gershenfeld.

Durante dois anos e meio, professores, desenhistas, caçadores, artistas, anciãos, contadores de histórias, todos membros da Alaska Native Community, participaram intensamente da produção do jogo, com o objetivo de assegurar que sua cultura, seus valores e suas histórias estivessem bem representadas no enredo que conta a história de Nuna, uma menina que recebe ajuda de uma raposa do ártico e de espíritos ancestrais para conter uma terrível nevasca que assola sua aldeia. A narração do jogo é feita por nativos que falam a língua Iñupiaq, mas há legendas inclusive em português.

A paisagem do Alasca é inóspita e pouco colorida, mas os cenários e as ambientações de “Never Alone” dispensam qualquer adjetivo. O jogo também conta com um modo cooperativo, nele um dos jogadores é responsável pelos movimentos de Nuna e o outro pelos movimentos da companheira raposa. Isso torna a experiência do jogo muito mais interessante, afinal de contas, esse é o principal valor passado pelos Iñupiaq, a cooperação, o sentimento de união e coletividade.

Apesar disso, joguei “Never Alone” completamente sozinho, talvez por isso tenha tido mais facilmente a impressão que a raposa era um elo entre Nuna e o ambiente em que ela vivia, um elo entre a menina e os antigos espíritos. Cheguei a me perguntar se a própria raposa não seria um espírito e por isso o título do jogo seria “Kisima Inŋitchuŋa” (Eu não estou sozinho) em iñupiaq, mas ela recebe outros tipos de ajuda durante sua aventura, o que não vou contar, obviamente, para não estragar as surpresas.

Nenhuma análise dos elementos mecânicos do jogo pode ser feita diante de tanta coisa infinitamente mais importante: valores universais, sabedorias anciãs, documentos da história e das lendas de um povo. “Never Alone” fez 2014 valer a pena e acenou a bandeira da esperança em meio a um universo gamer que apodrece a cada dia, reproduzindo preconceitos e estereótipos.

Enquanto criadoras feministas digladiam na internet contra o público misógino e criam personagens superpoderosas e supermachonas para combater o sexismo destruindo tropas colossais de inimigos, “Never Alone” conta a história de uma indiazinha e de uma raposa do ártico que querem proteger sua aldeia, valendo-se para isso da concentração, do trabalho em equipe e da beleza de ser qualquer um: menina ou raposa, ancião ou espírito, confrontando as forças imprevisíveis da natureza, que não têm cor, etnia, nem sexo.

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Publicado em 22/11/2014 por em Danilo Diógenes.
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