ORNITORRINCO

TRÊS MANEIRAS DE FUGIR DA REALIDADE

A Literatura é um sinal luminoso na porta da realidade, é aquele “EXIT” piscando em verde, azul e vermelho, como nos filmes hollywoodianos em que acontece uma merda num local público e todo mundo corre desesperado na mesma direção e começa o empurra-empurra. É difícil sair dessa muvuca, mas com um pouquinho de esforço e determinação, dá pra chegar lá, mesmo correndo o risco de ser pisoteado.

A loucura, por outro lado, é mais acessível e menos perigosa que a Literatura, basta saber fingir um pouquinho e já dar pra ser um louco aceitável, mas se souber atuar um pouquinho e se entender de Freud um pouquinho, aí qualquer um pode ser completamente livre, leve e louco.

Robert Walser (1878-1956), um dos maiores escritores esquecidos do século XX, experimentou os dois caminhos. Primeiro escreveu sua obra, contos e romances que cativaram até mesmo o deus leteratum Franz J. Kafka, que queria escrever como ele.

Imagem: Troche

Em dado momento, sem mais nem menos, Robert Walser se internou em um sanatório e lá viveu por décadas, sem escrever uma linha, até morrer e ser coberto pela poeira – ou pela neve – do tempo.

Enquanto estava na casa de saúde, o escritor suíço recebeu algumas visitas, numa delas perguntaram por que ele havia deixado de escrever, já que não fazia mais nada e tinha tempo de sobra pra se dedicar inteiramente à escrita. Walser respondeu: “Eu não vim aqui para ser escritor, vim para ser louco.”

Já quem não tem coragem pra ser escritor, nem paciência pra ser louco, pode simplesmente tentar adivinhar o que o estranho ou o colega do lado está pensando enquanto vira os olhos e olha pro chão, pra janela, pro teto, enquanto coça o braço, coloca as pernas em uma posição esquisita, relaxa e quase se deita no banco, se esparrama, desliza, se dissolve, coloca os fones de ouvido e balança a cabeça igual um cachorrinho de para-brisas ou é abduzido pelo smartphone e se contorce num universo paralelo, espremido entre bits e pixels… Tudo isso causa uma espécie de delírio. Tentar adivinhar o que uma pessoa pensa é uma boa maneira de fugir da realidade em pequenas doses. Faço isso o tempo todo e garanto que funciona.

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Publicado em 14/11/2014 por em Danilo Diógenes.
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