ORNITORRINCO

BOYHOOD – A VIDA É FILME

Se você ainda não assistiu o filme Boyhood, eu recomendo que você pare por aqui e não prossiga lendo esse texto. Vai ser desagradável pois não vou me conter em dar spoilers e contar trechos do seu roteiro. O melhor seria você fechar essa página agora e correr para os cinemas antes que o filme saia de cartaz. Depois, se achar necessário, pode voltar aqui. O que acha? Pronto? Vou aguardar você sair dessa página. Vai lá.

Oi pra você que viu o filme. Esse texto passa longe de ser uma crítica ou resenha do que você assistiu nas telas do cinema. Aquelas quase três horas sentado, acompanhando os anos passando na vida de uma família, talvez tenham feito você sair do cinema com a cabeça pesada. Isso é, se você teve a mesma experiência que eu tive e saiu irrigado pelos mesmos pensamentos. Quantas coisas você se lembra da época em que ainda era criança e morava com seus pais? Dessas lembranças, quais momentos cruciais passam pela sua cabeça?

Essa foi a faísca que surgiu na cabeça do diretor e roteirista, Richard Linklater, quando, aos 42 anos de idade, pensou em filmar uma história sobre o crescimento de um garoto, da sua infância à juventude. Então se perguntou por que não filmar doze anos seguidos com o mesmo elenco, acompanhando assim o envelhecimento dos atores, sem precisar substituí-los ou usar maquiagem para envelhecê-los?

Pois foi o que fez. Linklater passou os últimos 12 anos filmando a história do personagem Mason e da sua família e para realizar esse projeto ambicioso se juntou à pessoas que pudessem se unir como uma família, afinal de contas, passariam bastante tempo trabalhando juntas, mesmo que por curtos períodos – eles filmavam durante três ou quatro dias por ano.

O efeito que causa, ao vermos na nossa frente os atores ficando mais velhos a cada cena, é o de uma experiência única e extraordinária. Dentro deste conceito vemos a história banal de uma família atravessando situações comuns como em qualquer sociedade moderna ocidental. O filme começa nos seis anos de Mason (Ellar Coltrane), filho de pais separados (Patricia Arquette e Ethan Hawke) que mora com a mãe e com a irmã mais velha (Lorelei Linklater, filha do diretor). E vemos (e podemos dizer, vivemos) sua história até seus dezoito anos, tendo que lidar com a ausência do pai, com as idas e vindas das relações amorosas da mãe, as mudanças de cidades, suas próprias paixões, suas descobertas sexuais, ou seja, com a vida.

O diretor optou por não usar letreiros que marcassem a passagem do tempo, ao invés disso, a moda, a música, as novidades culturais, o avanço tecnológico, situam o espectador na época. Destaque óbvio para a trilha sonora, que começa com Coldplay (que surgiu no início dos anos 2000), passa por Britney Spears, Blink-182, Foo Fighters, Wilco, Lady Gaga e vai até o recente sucesso Get Lucky do Daft Punk.

ALÉM DO TEMPO

É pela audácia de realizar um projeto em 12 anos que o filme tem sido bastante comentado e levando muita gente aos cinemas. Você também tem que considerar que além do coeficiente tempo, outro desafio é conseguir financiar um projeto como esse. Que empresa, que estúdio, que fonte de grana vai bancar um trabalho nesses moldes? Num mundo regido pela quantidade de dinheiro que se pode pôr e tirar das coisas, muitos projetos incríveis nunca viram a luz do dia. “Não desanimei nem fiquei pessimista pois sabia que tudo poderia ir contra a minha ideia”, disse Richard Linklater numa coletiva pós exibição. “Eu que tinha que ser o maior motivador, tanto para as pessoas envolvidas como para mim mesmo.”

Diretor e roteirista Richard Linklater

Acontece que Linklater não é um diretor desses que passam a vida ganhando dinheiro para poder fazer dois ou três trabalhos de que realmente gosta. Se você viu “Slacker”, “Dazed and Confuzed”, “Waking Life”, “A Scanner Darkly” e a trilogia “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr do Sol” e “Antes da Meia Noite”, sabe que ele é rebento do cinema independente do seu país, e está comprometido em dirigir seus próprios filmes, do jeito que acredita e como quer.

Além do desafio de ter sido filmado ao longo de doze anos, Boyhood é também uma obra prima pelo seu conteúdo. A trajetória de Mason, da escola até a admissão na faculdade, trata de questões da infância, da juventude, da família, da amizade e do amor, do medo do futuro, das marcas do passado… é um filme sobre o passar do tempo e em como viver é simplesmente fazer esse tempo passar. Tudo isso sem apelar para o melodrama, para a trilha incidental que costuma conduzir as emoções dos espectadores, Linklater aborda sua história de maneira simples, nos fazendo acompanhar esses personagens por cenas que parecem nos fazer ver um álbum de fotografias. A história é contada pelo uso acumulativo de experiências que parecem banais, necessárias, corriqueiras, urgentes, normais, e é isso que dá a Boyhood a sua riqueza e o seu status de obra prima. “Eu queria mostrar os momentos de amadurecimento que vemos nos filmes, mas numa produção só. Queria capturar como lembramos da vida, como o tempo passa. Não queria uma história dramática, às vezes há momentos dramáticos no filme, como acontece em nossas vidas, mas não é assim na maior parte do tempo. Tentamos ser o mais próximos possível da realidade”, afirmou o diretor.

Indo contra as manobras do cinema moderno, sua sensibilidade vem de um refinamento menos virtuoso com a câmera, e mais com o que pode ser criado pelos atores na frente dela. “Quase todos os diretores com que eu trabalhei se escondem por trás dos monitores, e adoram passar mais tempo com os diretores de fotografia, conversando sobre posicionamento de câmera, luz e plano”, diz Ethan Hawke em uma entrevista pra revista The New Yorker. “Diretores estão preocupados e pedindo para virarmos o nariz mais pra esquerda ou pra direita para pegar uma luz mais bonita. Richard é capaz de brigar se alguém disser algo desse tipo no seu set, gritando ‘O que você pensa que está fazendo? Um comercial? Estamos com seres humanos aqui'”.

Trata-se de um filme que evoca a beleza do ordinário, das situações mais simples. Personagens comuns em situações comuns cercado por gente comum. Seu objetivo é captar as transformações desses personagens durante a vida, o amadurecimento. Por isso me lembrou um pouco La vie d’Adèle (“Azul É a Cor Mais Quente”), filme do diretor Abdellatif Kechiche que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013, que conta a história de uma adolescente eu seu amadurecimento emocional.

Acontece que em Boyhood os personagens não apenas envelhecem na narrativa, como também fisicamente. Nunca veremos um filme com o ator Ellar Coltrane jovem. Não é como Haley Joel Osment ou Macaulay Culkin, que fizeram uma dezena de filmes. O garotinho que vemos nesse filme não será mais visto em outro.

Boyhood é um filme que entra de fora pra dentro e me deixou com vontade de seguir acompanhando os personagens por outros anos. O que acontecerá com Mason após concluir a faculdade, procurando trabalho? E Samantha vai se casar? O que aconteceria com os dois até o funeral dos pais? E como seriam ao terem filhos, que pais seriam para eles?

Há alguns anos que eu venho me afastando das obras de ficção, justamente por considerá-la muito longe da vida. Tanto na Literatura como no Cinema, tenho lido e visto mais trabalhos de não-ficção. Boyhood me deu uma injeção de ânimo, me fez ter um outro olhar sobre esse gênero, me gerou novas ideias. Afinal, quem nunca pensou que a sua vida não daria um livro, ou quem nunca olhou para o seu próprio passado como se tudo não tivesse passado como um filme? Quase que como um paradoxo, Boyhood é um filme de ficção que mostra novamente que nada é maior do que a vida.

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Informação

Publicado em 14/11/2014 por em Gabriel Pardal.
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