ORNITORRINCO

SER FEIO NÃO É BONITO

Feiura.

Defeito genético? Castigo de Deus? Ou um baita de uma azar desgraçado mesmo?

Tem gente que vive do mercado da feiura, mas deve ser uma merda ser feio. Ser bonito é subjetivo, graças a Deus eu sou um dos caras mais lindos do Brasil, da America Latina e quiçá do mundo hoje. Mas já fui gordo. Gordo é quase sempre considerado feio, menos em Secretário.

Um bichinho que também não é reconhecido por ser um bonito é a lagosta. É conhecida como uma barata do mar, vermelha, cheia de pelinhos grotescos, antenas e com um exoesqueleto duro e cheio de calombos. É caríssima, é uma iguaria, tem que ser morta ao ser jogada viva dentro de água escaldante, mas é uma delícia mesmo assim.

Por outro lado, o coelho é reconhecido por ser um bicho muito bonitinho. Coelho é um bicho fofo né? Aqui em São Paulo tem um lugar incrível: o Le Lapin Tué. Restaurante francês especializado em coelho. Tem coelho frito, assado, recheado, estrogonofe de coelho, pizza de coelho, pastel de coelho, espetinho de coração de coelho e o famoso petit gateu de coelho. A coisa em comum de todas as receitas é que eles tem uma técnica para garantir a carne desmanchando na boca. Eles usam o mesmo processo da lagosta: pegam o coelho e jogam ele vivo na água escaldante, mas é uma delícia do mesmo jeito.

Esse restaurante não existe e a imagem do coelho vivo na água fervendo choca muito mais não só por fatores culturais, meus caros, mas por um fato elementar: o coelho é bonito. Lagosta é morta cruelmente, sem pena, e com rara reflexão sobre seu sofrimento porque ela é feia.

Mesmo que seja uma forma rudimentar e tosca de demonstrar sofrimento a lagosta sofre. Encoste o rabinho dela na água a 90 graus celcius e você vai ver que se ela fosse uma idiota que não sente nada e com sistema nervoso primitivo, como argumenta-se convenientemente, ela não iria desesperadamente tentar fugir e se agarrar nas bordas como faz. Um coelho gritaria e veríamos nos seus olhos seu sofrimento. Ainda assim: de onde vem a idéia de que uma forma primitiva e pouco articulada de sofrimento é menos digna de consideração do que uma forma “evouluida” de sofrimento? Existem algumas razões, mas vou me ater a meu ponto aqui: o sofrimento da lagosta é menos considerado porque a lagosta é feia.

Muita gente tem pena de comer coelho, mas rói até o ossinho da galinha, come espetos de coração desse ser que é feio pra cacete. Lógico que existem muitos fatores culturais, na culinária em especial, mas vou além da culinária e cultura. Tão certo quanto o fato que galinha não tem 3 corações, (como minha mãe uma vez me ludibriou quando bem pequeno concluí que cada coração vinha de uma galinha) os seres belos inspiram mais compaixão.

Basta ver por exemplo com que frequência você vê alguém matando e estraçalhando uma joaninha? Já um besouro cascudo e feio… Borboletas coloridas, lindas, “ah não mata tadinha!” Já uma mariposa acinzentada e peluda não é tão difícil de ser estraçalhada. Baratas são nojentas por várias razões, mas as vezes elas estão quietas, na delas. Mata, pisa nela! Mosquito? Mosca? Frita com raquetinha de choque. Feiura não inspira compaixão. Filho feio não tem pai. Nem mãe.

E o irônico é que diz-se hoje que nossos critérios de beleza dentre outros fatores, são baseados na simetria como li nessa matéria da NatGeo, simetria que por sua vez teria alguma conexão com genes mais interessantes para procriação e todo esse blablabla que já se falou. Mas o fato é que os padrões de beleza já foram outros como no renascimento e, na real, são bem relativos. Não precisamos ir até a China, só até Secretário já basta.

Secretário, que deve ficar só a umas 2 horas de distância do Rio, é onde minha família tinha um sítio. Eu era gordo até meus 16, 17 anos e gordo não é frequentemente visto como exemplo de beleza nos padrões de hoje, em Secretário é. Lá no sítio em especial eu não curtia mesmo ser gordo. Não só porque era difícil pacas sair da piscina por onde não tinha escada, não só porque uma coxa roçava na outra quando eu jogava futebol e eu ficava assado, mas em especial por ser um gordo adolescente, e por causa da caseira do sítio, a Beatriz. Toda vez que ela me via enchia a boca achando que estava sendo lisonjeira: “Nossa olha que menino bonito! Olha esses “braço” roliço! Essas “bochecha” gorda, esse barrigão gordo!”. Como ela tinha 16 filhos, a comida era muito racionada e os filhos delas eram bem magros, logo, ela via a gordura como beleza. Eu ficava muito puto com a Beatriz, mas desde esses anos comecei a refletir sobre isso do que é considerado belo, feio e as suas consequências.

Essa beleza que é uma benção, é como uma moeda de troca, é ostentada, valorizada e vangloriada, quando não há mérito nenhum nela, seja presente de Deus ou dos genes, beleza é uma característica inata e pré-determinada tanto quanto a feiura. E então porque se valoriza tanto ser bonito?

Essa loucura de valorizar a beleza como qualidade e vantagem chega a exagerismos exacerbados. Um estudo da Universidade do Estado de Michigan, Why Beauty Matters, concluiu que os profissionais vistos como feios são tratados de forma muito pior pelos colegas, quando comparados com aqueles considerados bonitos, mesmo após serem levados em consideração outros fatores como gênero, idade e tempo de trabalho na empresa. Em outro teste, a produtividade dos considerados bonitos foi a mesma que dos “comuns”, mas os bonitões mostraram muito mais confiança, pela constante validação e aprovação das suas belezas. E ainda em um outro parte do estudo, quando os empregadores avaliaram apenas o currículo dos candidatos, a aparência física não influenciou a estimativa. Mas, quando fizeram entrevistas cara-a-cara e conversas telefônicas, resultados positivos para os mais belos, obviamente.

A beleza exerce um poder de empatia, de coerção e de encantamento que fica acima do nosso raciocínio lógico. Dificilmente alguém olharia para um bonitão de terno e pensaria: “Vou atravessar pra outra calçada que esse cara vai me assaltar”, quando esse raciocínio não tem nenhum sentido.

A beleza também não tem relação alguma com ser burro nem inteligente, mas ela emburrece a gente através do encantamento que pode exercer. Como naquele caso dos prefeitos idiotas que me marcou, justo pelo uso da beleza que encanta emburrecendo.

Eu mesmo que me considero minimamente inteligente quantas vezes fiquei burro, sem discernimento nem clareza de raciocínio diante da beleza. Lembro de uma vez aos meus 16, 17 anos que uma vendedora linda, estilo top model, de olhos azuis muito claros, decote com peito grande e firme em destaque, sorriso fácil e cabelo encaracolado loiro de Gisele, apelou dizendo que eu estava “muito gato” com uma calça. Eu até percebi qual era a dela, mas fiquei quase que retardado com aquelas palavras vindas de uma deusa daquelas, eu sorria e acreditava, mesmo sabendo que era uma técnica de venda descarada. Levei uma calça de R$250 que mal entrava nas minhas pernas gordas assadas.

Saí da loja, ainda gordo e feio, MAS feliz. Veja que até na comunicação e na linguagem fica evidente nossa super valorização da beleza. Eu escrevi esse texto. Suponhamos que você leu e achou que eu escrevo bem. Você olha minha foto, me acha bonito: Ele é bonito E escreve bem. Você olha minha foto, me acha feio: Nossa! Ele é feio, ele é gordo, MAS escreve bem.

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Informação

Publicado em 13/11/2014 por em Franco Fanti.
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