ORNITORRINCO

EM BUSCA DE PINA BAUSCH: DIÁRIO DE FÉRIAS EM WUPPERTAL

Nelken, peça de Pina Bausch – Wuppertal, novembro de 2013.

Os elefantes, de acordo com os estudiosos do assunto, são 

criaturas extremamente sensíveis, mesmo nas grossas patas.
— Clarice Lispector em “A legião estrangeira”.

“Julia, quando fui pra lá vi uma placa de boas-vindas indicando que a cidade tinha 3 McDonald’s. É menos do que existe no Barra Shopping!” – com esse argumento, e não que fosse a primeira tentativa de persuasão, Lucas me impediu de confirmar minha reserva de 5 dias no hotel Ibis de Wuppertal, cidade alemã que não figura em guias de viagem. Tente o Lonely Planet, o Guia Visual da Folha ou qualquer outra publicação da seção de turismo: Wuppertal não está lá.

Tente a Wikipedia brasileira e você vai descobrir 3 filhos ilustres de Wuppertal: a aspirina, Engels e o Hans Donner. Se o braço nacional da enciclopédia precisa de 31 linhas para descrever o cenário, a Wikipedia de língua inglesa revela-se bem mais prolixa: 49 linhas e 34 colunáveis. Ambos os endereços jogam luz sobre o Schwebebahn, o monotrilho (ou monorail) que há 110 anos transporta os habitantes, os visitantes e, eventualmente, um elefante pela cidade de Wuppertal. Tente o site oficial da municipalidade: há um relato insólito que narra a curta viagem de Tuffi, garota-propaganda do circo Althoff, no trem suspenso. Pouco após ser colocada em um dos vagões, a filhote de elefante saltou para a liberdade e para a fama mundial entre aqueles que se deparam com Wuppertal em seus caminhos.

Ainda que Wuppertal já ostente 9 McDonald’s, segui os conselhos do Lucas e reservei um quarto em Colônia: a previsão era de um novembro de trens, chuva e duas peças da Tanztheater de Wuppertal, companhia de dança que durante quase 40 anos esteve sob a direção de Pina Bausch, o que justifica o itinerário que eu nunca pensara em escolher para as minhas férias.

Tudo começou bem antes, quando me sentei na poltrona 33, fila H, balcão nobre do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Era 7 de abril de 2011: as cortinas abertas revelavam um rabo de baleia à direita do palco, o público tomava seus assentos, eu enrolava e desenrolava meu ingresso nos dedos enquanto esperava os primeiros movimentos de Ten Chi, peça de 2004, fruto de uma residência da companhia no Japão. Até o final da performance cerca de 3 horas teriam sido transcorridas; 8 pessoas teriam aproveitado o intervalo para abandonar seus lugares na fila G à minha frente; uma torrente de neve – ou de flor de cerejeira – teria forrado de branco o palco do Municipal, encobrindo bailarinos, vestidos e cabelos, estes adquirindo vida própria e executando uma coreografia paralela àquela dos corpos em cena.

Saí do Theatro num choro tão físico, de soluços e arquejos, segurando-me pelo corrimão escada abaixo: Ten Chi penetra os alicerces do corpo, alterando principalmente as capacidades musculares e gástricas. Tivesse uma epígrafe, a do meu pranto seria aquela de Barthes que diz que “a leitura seria o lugar onde a estrutura se descontrola”.

Esse descontrole: uma invasão de afetos não catalogados; gatilho de lágrimas e de uma paralisia momentânea; o choque de reconhecer no corpo alguma coisa tão primária e ao mesmo tempo tão complicada de dimensionar; motor de ideias e de gestos que substituem a fala quando você tenta, inutilmente, explicar para alguém – braços e mãos que se dobram e se projetam da direção do abdome para a frente, como se pudessem tirar do estômago alguma tradução diante dessa dança. Esse descontrole: convém persegui-lo.

E ele está ali, 3 de novembro de 2013, 10 euros de taxi da Hauptbahnhof até a Opernhaus de Wuppertal, nos meus olhos que se inundam quando reconheço Lutz Förster no foyer do teatro, na minha boca que não fecha ao olhar os pôsteres espalhados pelas paredes, no meu riso que escapa quando vislumbro o tapete de cravos cor de rosa que cobre o palco, nos primeiros acordes de uma versão da década de 1920 de “The man I love” com aquele homem de terno, sozinho no meio das flores, fazendo sua linguagem de sinais, nos meus pés ritmados e o cantarolar baixinho das Pastorinhas que eu não esperava na trilha, na minha tentativa frustrada de roubar um cravo pisoteado do cenário quando Nelken se encerra e as pessoas já deixam a plateia.

Encaixotando cravos, vigiados por seguranças ferozes que impedem o roubo de flores.
E também: 5 dias depois, 8 de novembro, no palco uma espécie de gramado vertical ou um pedaço de um penhasco – uma parede de superfície irregular coberta de folhagens e plantas -, do verde cai uma goteira ininterrupta, como se poucas horas antes tivesse chovido uma tempestade e nós víssemos, então, o depois: cheios de vontade de abrir a boca e beber da água que escorre, como fazíamos quando éramos crianças.

Uma das bailarinas, usando camisola fina e branca, caminha em direção ao fundo da cena. Agachada próxima ao penhasco, ela se banha com a ajuda de um balde e fica ali numa calma inabalável, indiferente à entrada de uma música e de um bailarino. Ele veste calça e camisa social, entra correndo no palco e em algum ponto tenho a impressão de que desliza seus pés descalços pelo chão até frear e iniciar uma sequência de movimentos: o corpo todo participa e os braços constantemente se voltam para os céus, assim como a cabeça, e tudo parece sair bem do meio do seu tronco para as extremidades, como se lançasse raios de si mesmo ao redor. Ele se reveza com outros bailarinos que se alternam nessa sequência de corrida, deslize, freio: braços e cabeças para além (quando entrarem para os agradecimentos vou perceber que eles são muito menores do que parecem) e há uma urgência nessa escala – o palco não pode ficar sozinho, nós, sentados ali na frente, não podemos e não queremos ficar sozinhos, e de repente os homens entram e saem velozes, enchendo a cena em contraste com ela: lenta, brincando com seus cabelos, roupa agarrada na pele.

Eles dançam e dançam e dançam enquanto ela se encharca e nem percebo quando ou como desaparece. Tudo isso acontece embalado por uma música que fala de Angola e que cantarei ininterruptamente na minha cabeça nos dias seguintes, e tudo isso perfura coisas em mim, órgãos em mim, e à saída do teatro meu guarda-chuva esbarra no de Dominique Mercy.

Agradecimentos ao final de Wiesenland e fim da linha em Wuppertal.

Não quero esquecer esses dias e no trajeto de trem Wuppertal-Colônia vou de olhas fechados, como se assim fosse mais garantido que tudo vá ficar salvo em alguma parte.

*** 

Escreva sobre suas vivências em Wuppertal, me aconselharam. Mas como dizer? Como contar de elefantes que se aventuram por entre as janelas de um trem suspenso? E de bailarinos que se lançam numa reinvenção de seus corpos e de si mesmos, e de nós mesmos – um só existindo às custas do outro, todos bambos à procura de um eixo quando os aplausos cessam? Como falar das viagens de trem depois de assistir peças que me colocavam em marcha diferente daquela dos outros viajantes? Como escrever sobre o que se passa nessa cidade insólita que nem sequer existe?

No prólogo de seu Movimento total, José Gil traz uma fala de Merce Cunningham que é um alento às minhas perguntas e, possivelmente, às inquietações de Tuffi*: “Perante o vazio, [o bailarino] está só, de uma solidão que o arranca para fora de si. Está só e fora de si. O seu gesto vai na direção dos outros corpos. Como dançar esse gesto? Como fazer? ‘Fazendo-o’, diz Cunningham.”

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* De acordo com o site oficial da cidade de Wuppertal, o salto de Tuffi lhe rendeu um bumbum machucado.

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Informação

Publicado em 13/11/2014 por em Julia Wähmann.
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