ORNITORRINCO

O VOTO NO LEGISLATIVO E OS RANKINGS CAPENGAS

Como é sabido esta e outras eleições não decidem apenas quem vai ocupar posições no poder executivo, que implementa e administra políticas públicas, no caso desta os cargos de presidente e governador. Decide também quem irá ocupar cargos que legislam, fiscalizam o executivo e criam e modificam leis: senadores, deputados federais e deputados estaduais.

Nesse sentido cumpre destacar que por mais que o discurso de alguns candidatos ao executivo federal estejam alinhados com ideias como descriminalização do aborto ou reforma política, por exemplo, estes alinhamentos servem apenas como indicativo do que pretende alcançar um presidente eleito. Mas para atingir tais metas é preciso que os projetos sejam aprovados pelo legislativo.

Assim, para os que estão especialmente interessados na alteração e produção de novas leis é muito importante focar no voto que se dirige a deputados e senadores. Sobre o que pensam estes candidatos e que tipo de posições estão empenhados em defender sobre tantos temas desconexos daqueles mais evidentes que servem de mote a suas campanhas.

No entanto e contudo, se alguém está firmemente convencido que quer ver, por exemplo, a legalização da maconha com mais ênfase na pauta do dia, fica evidente que não deve focar no voto para presidente para aplacar estes anseios. Deve antes priorizar essa luta na arena dos candidatos a deputado federal e senador (aqui de nada vale as demais esferas de poder, já que o tema concerne a lei nacional) que façam desta causa um das forças motoras de sua mobilização.

Este preâmbulo, no entanto, é para discutir as enormes limitações da maioria dos guias que se dispõem a estabelecer rankings políticos, onde supostamente todos encontrariam a solução para o problema de em quem votar para os cargos do legislativo. A título de exemplo eu gostaria de citar dois, embora outros mais existam. O Ranking Político e o Atlas Político.

Estes dois sites se propõe a estabelecer uma hierarquia sobre a qualidade do desempenho dos deputados e senadores. Mas isto é na melhor das hipóteses apenas uma meia verdade. A questão é que ambos precisam estabelecer critérios, muitas vezes genéricos, para daí iniciar suas hierarquias.

Para ser útil, o público que utiliza estes guias precisa antes concordar com os critérios adotados por estes para fazer a avaliação, mas quantos chegam a esta seção?

Ora, acontece que entre os critérios adotados pelo Ranking Político, por exemplo, não conta pontos para o deputado suas posições e combates em relação a temas como o aborto, casamento gay e legalização das drogas. Assim, isto faz com que um deputado atuante e combativo nestes temas como Jean Wyllys (PSOL-RJ) esteja atrás de Jair Bolsonaro (PP-RJ) que não perde pontos por empreender cruzada contra os diretos das minorias e ganha por que defende o livre mercado, este sim critério que adiciona pontos segundo a metodologia do site no item qualidade legislativa; fator que, neste caso, pesa em favor da melhor posição de Bolsonaro na comparação com Wyllys.

Já o Atlas Político é mais neutro em sua metodologia. Este leva em conta temas como representatividade do deputado, ou seja, a votação que de fato ele ou ela recebeu para estar ali; a produção legislativa do parlamentar sem entrar no mérito dos projetos; a qualidade dos gastos da campanha (ótimo critério num cenário de campanhas corrompidas no berço), entre outros.

Aqui também, para manter a comparação anterior, Bolsonaro fica a frente de Wyllys. Neste site porque o Wyllys perde muitos pontos no item representatividade já que foi eleito com os votos do quociente eleitoral de Chico Alencar (Tiririca elegeu alguns deputados baseado na sua histórica votação, mas a questão do quociente eleitoral também se reflete em outras candidatos a deputado eleitos). Wyllys também fica atrás no item debate parlamentar, talvez porque não se envolva em tantos bate bocas como Bolsonaro.

Ambos os sites oferecem ainda pistas sobre os candidatos nestas eleições. O que é positivo porque há muitos candidatos novos ou nunca eleitos e como vamos avaliar suas capacidades de integrar o parlamento? Aqui mais uma vez o Atlas Político é mais neutro e competente, além de ser mais completo. Fornece informações técnicas sobre todos os candidatos, com destaque para o custo da campanha, em todos os cargos, mas neste caso não cria hierarquia. Já o Ranking Político, tem como um dos critérios pontuar os candidatos de acordo com a performance deste na mídia. Como se a imprensa não pintasse com tintas leves certos nomes e carregadas outros, sem contar aqueles que sequer tem espaço na mídia e o fato de em tantas partes a imprensa ser apenas um braço de certas oligarquias.

Mas não importa, tanto o Ranking Político como o Atlas Político e demais sites do gênero são iniciativas capengas que não devem definir o voto de ninguém, uma vez que há muitas outras variáveis em questão. Só mesmo um acompanhamento da atividade de parlamentares e aspirantes, assim como a equação pessoal de nossos critérios e interesses no que concerne a agenda política, deve nos guiar nesta decisão pessoal, embora de consequências coletivas.

No mais, tampouco será a atividade parlamentar no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas de todo o Brasil o principal vetor das mudanças que tantos anseiam. Ou as pessoas passam a pressionar constantemente os poderes, por meio das mais variadas formas de pressão e participação popular ou o mais provável é que o quadro não melhore. Isso segundo ”meus” critérios de melhora, há quem pense esta mesma noção no viés de direitos sociais e humanos regressivos. A política é atividade que ocupa a própria convivência e não há saída para sua via institucional por meio de beatificados em sites que estabelecem, mesmo quando imbuídos da melhor boa fé, listas que não contam toda a história.

Júlio Reis é poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 02/10/2014 por em Júlio Fisherman.
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