ORNITORRINCO

ELEIÇÃO É FESTA POPULAR

“Eleição é festa popular, e a festa tem certos convidados inconvenientes” – esta foi a declaração do presidente do TRE (Tribunal Regional Eleitoral), Bernard Garcez ao avalizar a candidatura à deputado estadual do Rio de Janeiro com o nome de urna de “Barack Obama”. Sim, as eleições se aproximam no domingo próximo, dia 5 de outubro. Se fôssemos levar a sério tal afirmação dada no mês passado pelo presidente do Tribunal Regional Eleitoral, poderíamos até dizer que no Brasil todos somos meros convidados constrangidos a uma votação obrigatória.

Tão inaudita quanto esta afirmação talvez seja a atingida pela presidente da Petrobrás, a engenheira química Graça Foster, ao declarar ano passado à Folha de São Paulo que se sentia emocionada quando via um engarrafamento pois imaginava que mais pessoas estavam consumindo petróleo. – “Acho lindo engarrafamento pois o meu negócio é vender combustível. Acho lindo carro na rua, estou faturando.”…Bom, ao que tudo indica, aparentemente a senhorita Foster não deve ter lido o conto “A auto-estrada do sul” e nem assistido ao filme “Weekend” de Godard que tematizam o pesadelo urbano dos mega-congestionamentos provocados pelos excessos da indústria automobilística.

Vivemos realmente em um país tão chistoso e gracejante que a realidade não chega a esperar seus contornos ficcionais para nos pregar peças. É no mínimo curioso que a ficção não tenha esperado muito tempo para produzir a situação de termos uma presidente de estatal chamada Graça. Nem mesmo Campos de Carvalho a teria imaginado ao escrever o romance surrealista “O púcaro búlgaro” (1964), narrado por um personagem principal chamado Hilário (em referência indireta à Rua Hilário de Gouveia de Copacabana e ao famoso oftalmologista homônimo) sobre uma idiossincrática expedição para descobrir a Bulgária. Nem mesmo Campos de Carvalho imaginaria que um dia teríamos uma presidente em exercício de ascendência búlgara e pronta a ser reeleita.

Mais ficcional ainda parece ter sido a Copa do Mundo em solo brasileiro de Pindorama. Findada a “Copa das Copas”, ainda permanece um sentimento gerado por um misto de saudade e a impressão de que em “nosso” país o dinheiro que falta para organizar é o mesmo que sobra para desorganizar. Vivemos em um país tão abjeto quanto seus candidatos políticos. Sobram perguntas, faltam respostas. Ainda bem. Se fossemos um país de soluções e planejamentos já não teríamos paradoxalmente o lema positivista em nossa bandeira.

Não deixa de ser curioso o fato de que para o poeta Murilo Mendes o Brasil poder ser descrito como mais surrealista do que todos os surrealistas juntos. Aqui, tradição e modernidade convivem sem dicotomias extremas; aqui gostamos de modernizações conservadoras. Por tal chave, o brasileiro seria tão naturalmente anti-moderno em um momento quanto anti-tradicional em outro instante conseguinte. Isso sem falar na cordialidade recôndita de nossos homens públicos que, ao possuírem a patologia da alegria, também carregam a melancolia de quem não sabe lá muito bem diferenciar o público do privado, a casa da rua. Desde que Grande Otelo bradou macunaimicamente: “Ai, que preguiça!”, em filme de Joaquim Pedro de Andrade sobre a obra supracitada de Mário de Andrade, que vivemos sob a égide da lassidão. De preguiça em preguiça, caminhamos. Melhor a preguiça do que o tempo desenfreado dos progressos destrutivos. A desordem e o progresso nos cai melhor.

Seria ingênuo pensar que a macro-política brasileira não manifeste os “nossos” valores sociais representados em escala épica. Nosso estilo retórico é bacharelesco e barroco, repleto de circunvoluções e discursos empolados que quanto mais são proferidos, menos mudam; quanto mais mudam, mais permanecem igual. A arte retórica do bem dizer nos circunda, nossos políticos falam por abstrações. Só mesmo em um país como o Brasil poderia ter figuras políticas de escolas dramáticas tão surpreendentes que foram sintetizadas na figura glauberiana de Paulo Autran “Terra em Transe” (1967), o presidente de Eldorado que personificava um discurso tão eloquente quanto mais pretensamente magnânimo e laureado de ufanismos regozijantes.

Mais tautológicos do que lógicos, caminhamos. Nós e nossos políticos glauberianos. Sim, as eleições de 2014 se aproximam e para qualquer platéia que quiser o melhor dos anfiteatros circenses é só ligar a sua tele-ilusão com seu descontrole remoto em pleno horário eleitoral. Ainda restam alguns dias e talvez ainda haja segundo round. “Vamos esperar. As melancias ainda vão se assentar no caminhão. A realidade não é um mar de rosas, deve ter segundo turno” – opinou Aparecido Silva, secretário de comunicação do PT-SP antes de ir para outra jornada estafante rumo à Neverland do hibridismo.

Augusto Guimaraens Cavalcanti é romancista,  doutorando em Ciências Sociais e colunista do ORNITORRINCO. 

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Publicado em 01/10/2014 por em Augusto Guimaraens Cavalcanti.
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