ORNITORRINCO

JINGLES DE CAMPANHA – AQUELA MUSIQUINHA PRA TE CONQUISTAR (PARTE II)

Em 1989, acompanhei ainda criança a primeira eleição para presidente do Brasil em quase 30 anos. E, de todas que me lembro, a de 1989 é mesmo imbatível. Seja pelos folclóricos candidatos nanicos, como Marronzinho (Ele vai falar!) ou o tresloucado Enéas, que a cada programa fazia um jingle-rap raivoso nos seus quinze segundos. Ulysses Guimarães, o Sr. Diretas Já, tinha uma musiquinha ao estilo Varre, varre vassourinha. Bote fé no velhinho acabava com a molecagem que tinha por aí, unindo o país do Oiapoque ao Chuí. Brizola, que sempre dizia, num inesquecível tom de pilhéria gaúcha, que o primeiro ato do seu governo seria acabar com a Rede Globo de televisão, tinha um jingle meio deprê mas impossível de tirar da cabeça. A surreal campanha de Silvio Santos, que entrou no lugar de um candidato que “milagrosamente” desistira, não tinha nem o nome na cédula eleitoral e acabou impedido de concorrer, teve um jingle genial bem ao estilo Baú da Felicidade. Assistir à então TVS ou o programa eleitoral era a mesma coisa.

A união das forças, as mãos jungidas, as mesmas que trabalham e constroem o futuro são o tom de muitas campanhas. Ainda em 1989, Guilherme Afif apostou nisso. O clip do jingle só tinha mãozadas. A música era bizarra: juntos chegaremos lá / à sombra das palmeiras / onde canta o sabiá. Citar a Canção do exílio de Gonçalves Dias depois dos anos de ditadura poderia até fazer sentido, mas a anistia completava 10 anos e considerar esses versos como os do Brasil brasileiro que se queria construir era anacrônico demais até mesmo pra 1989. O sujeito passou batido pela Semana de 1922, não viu entendeu nada nem viu coisa nenhuma sobre o modernismo brasileiro.

Uma eleição pra presidente é como um campeonato de futebol: muita gente começa a disputa, mas, em algum momento, se configura um mano a mano final. A disputa Kennedy vs. Nixon, da qual falei no último post, teve no Brasil um paralelo semelhante: Lula vs. Collor nas eleições de 1989. Enquanto o candidato do PT era chamado de sapo barbudo pelos adversários e fazia questão de se manter apegado às suas origens, usando a barba como um símbolo próprio, o candidato do desconhecido PRN mostrava-se atlético, jovial, aditivado, desfilando com sua futura primeira dama que, apesar de vestir roupas mais espalhafatosas que elegantes, era jovem, loura e bela. No famoso debate de 1989, Lula e Collor se confrontaram. A voz rouca do líder sindical, seu mau jeito dentro do terno e sua vasta e desgrenhada barba contrastaram com a cara lavada e bronzeada de Collor, seu terno bem cortado e seu porte de menino de boa família. Além disso, a tendenciosa edição feita pelo Jornal Nacional contribuiu enormemente para que as elites, e até o povão (que poderia se identificar com Lula), acreditassem na piada de mau gosto que era Fernando Collor de Melo.

Os jingles desses dois presidentes mostram bem a diferença das campanhas. O Collorir de novo não era uma boa música, pouca gente lembra, mas acabou colando. Se a campanha de Collor não ficou lembrada pelo jingle, ficou tatuada na memória pelo slogan: o caçador de Marajás apareceu como aquele velho salvador da pátria que buscamos desde Dom Sebastião em Portugal. Com um espanador na mão, Collor dizia que faria uma limpeza no Brasil, acabando com os marajás que maltratavam o povo. Essa ideia de limpeza da sujeira política que atrapalha o país não é nova e foi requentada de outra campanha vencedora, a de Jânio Quadros em 1961. O Varre, varre, vassourinha prometia varrer a bandalheira e moralizar o país. As trajetórias meteórica de ambos no poder também foram parecidas, embora com enredos diferentes: enquanto Jânio renunciou forçado por “forças ocultas”, Collor sofreu impeachment ao vivo e a cores em plena TV Globo, sua aliada de outrora…

Mas e o jingle do Lula? Ah! Esse é inesquecível. Com um massivo apoio da classe artística, a música de Lula contou com um coro de gente famosa de fazer inveja aos concorrentes. Lula lá era emoção pura, meu primeiro voto, valeu a espera, um Brasil criança, esperança, felicidade genuína que chegaria como chega um abraço na hora mais necessária. Porém, ao posar de homem do povo, perdeu as eleições para o recorrente “santo milagreiro” e não foi dessa vez que o Lula colocou a faixa no peito.

Lula Lá, porém, lembrava outra canção, vinda do Chile um anos antes. La alegria ya viene foi composta para ser o tema da oposição no plebiscito que, em 1988, escolheria pela continuidade, ou não, da ditadura do General Pinochet. Dizer NO era dar um basta à ditadura e apostar num outro futuro. A campanha inicialmente montada pela esquerda chilena era baseada nas torturas, no terror dos tempos de chumbo, mas um publicitário radicado há anos nos EUA convenceu o pessoal que soava melhor “vender” a idéia de uma felicidade futura do que o medo da continuidade do passado recente. Os chilenos acabaram por “comprar” a felicidade e o NO, com uma boa ajuda Norte Americana que não se interessava mais pelo ditador, ganhou de lavada do SI do Pinochet.

Se por um lado a alegria é uma estratégia muito usada, o medo é igualmente muito explorado. Regina Duarte ficou famosa na campanha de 2002 aparecendo no programa do PSDB com a famosa frase “eu tenho medo”. Medo de perder o poder é um medo legítimo, quem não teria? As pesquisas apontavam a primeira vitória de um “repaginado” Lula, agora com a barba e ternos bem cortados, começava ali a longa trajetória do Serra como segundo colocado. E, quando confirmada a vitória da esquerda, os marketeiros de plantão já tinham em mãos a camisa com a provocação pronta: “A esperança venceu o medo”.

Nos EUA, o medo imperou nas campanhas durante a Guerra Fria. Não era bem um jingle, mas o spot televisivo conhecido como Daisy ficou super famoso. Uma linda menininha contava pétalas de uma flor até um zoom no seu rosto assustado começar uma contagem regressiva e terminar com uma explosão atômica e uma flor radioativa subindo pelos ares. O voto nos EUA não é obrigatório e a campanha pedia para que os americanos saíssem no dia 3 de novembro para votar em Lyndon Johnson: os riscos eram altos demais pra você ficar em casa.

Voltando ao Brasil de hoje, podemos perceber como as eleições de 1989 foram uma espécie de laboratório da democracia brasileira e que quem votou ali era cobaia de uma experiência nova depois dos 25 anos de ditadura militar. A democracia contemporânea, tal como conhecemos hoje, começa na eleição de 1994. Só nos últimos 20 anos temos voto universal, presidentes que cumprem todo o mandato com reeleição ou sucessão pacífica e democrática. Estamos engatinhando nesse lance de democracia. Na eleição que inaugura essa nova era da política brasileira vence a ideia das mãos. Mãos como união, como metonímia do poder do corpo, a mão dos acordos fechados num aperto. Usando a imagem dos cinco dedos e resgatando as cinco metas de Juscelino, Fernando Henrique Cardoso, apoiado pelo sucesso do plano Real, chega à presidência na voz de Dominguinhos no ano do tetra da seleção brasileira. Tá na sua mão / na minha mão / na mão da gente / fazer de Fernando Henrique o nosso presidente.

Além do Dominguinhos, outros grandes nomes da nossa música entraram nessa jogada e fizeram jingles importantes. Recentemente, lembro da eleição pra prefeito do Rio de Janeiro em 2012 e Caetano Veloso fechando com Freixo. Breno Goes e Gustavo Levy também são autores da música. Eu gostava da música, da ideia, do conceito, mas o sambão safado Somos um Rio acompanhou Eduardo Paes até a acachapante vitória. Preto Jóia, Diogo Nogueira, Dudu Nobre, Fundo de Quintal, Almir Guineto, Molejo, Mc Anitta, Buchecha e mais uma pá de gente apoiou o Dudinha. Agora em 2014, Jorge Ben entrou na roda e não apostou na força das mãos. Meteu os pés pelas mãos e fez o jingle de Pezão. “O véio dançô”! Mas do jeito que tá a concorrência pra governador, nem foi a pior escolha possível a do Jorge. (Fã é foda, sempre defendendo o ídolo.)

Outro mega-star que entrou sem querer na campanha de 2014 foi o Rei Roberto Carlos. Todo horário eleitoral parece um misto de piada com delírio, mas o palhaço Tiririca levou isso a sério e assim foi o deputado mais votado da história nas eleições em 2010! Agora em 2014, ele não fez por menos, criando uma paródia da música O portão e misturando com a polêmica que foi a aparição do Rei na campanha da Friboi pra vender carne sendo ele vegetariano. Não sei se o Rei endossa a campanha do palhaço, mas a coisa tá descontrolada! “Vote no Tiririca: pior do que tá não fica”.

Perto disso só mesmo a memória auditiva de Pedro Rocha e Amora Pera, que me contaram um clássico do interior do Piauí pra ser cantado na melodia da marchinha: Taí eu fiz tudo pra você gostar de mim. A pérola máxima dos jingles universais é: “Piracuruca, todo mundo vai votar SeuAntônioJesus / Pois foi ele que trouxe pra nós a água e a luz / todo mundo, todo mundo / vai votar Seuantôniojesus”. Assim mesmo, com a métrica exprimida estilo Bob Dylan em SeuAntônioJesus.

No fim das contas, as estratégias de música, clipes de imagem, maquiagem e discurso são muito parecidas entre todos os partidos no mundo todo. Os marqueteiros dominam. Marcelo Adnet, comediante mestre em criar jingles de improviso, fez um clip de campanha política escrutinando toda a verdade sobre as técnicas publicitárias para conquistar o eleitor.

Metáforas bonitas com a natureza, imagens de muita prosperidade e desenvolvimento, comunhão e todos são iguais não param de ser produzidas. Assim é o jingle da FRELIMO, a Frente de Libertação de Moçambique, que já lutou guerra sangrenta pela independência do país seguida de uma guerra civil pela manutenção do poder. Hoje a FRELIMO é puro marketing e chama todos para a escolher a melhor governação. A Jamaica fica cheia de swing no spot de rádio do People Nacional Party. A Índia, a maior democracia do planeta, também tem seus jingles, esse é do Congress Party United Progressive Alliance. Embora eu não tenha entendido nada do que diz, acho que vale a citação, pois, ouvindo o som e vendo as imagens, ao estilo Bollywood, você já entende tudo.

Nessas eleições presidenciais de 2014 no Brasil o único jingle que destoa da mesmice é o de Eduardo, o Jorge. O discurso de Eduardo e sua música apostam em propostas mais concretas. Ideias que muitos consideram delirantes, mas que eu acho apenas o mínimo do bom senso. Claro que parte de seu defesa aberta sobre a legalização de todas as drogas psicoativas vem da impossibilidade política de que sua campanha saia vencedora. Mas é muito bom ver um candidato aproveitando esse tempo nobre que lhe é ofertado no horário político não apenas para fazer seu nome, mas defendendo uma causa importante.

Fora isso segue o marketing político crescendo e varrendo as questões importantes pra debaixo do tapete. Enquanto o Tiririca, mesmo com toda a sua genialidade de palhaço, for o deputado mais votado (ele, hoje, lidera as pesquisas mesmo sem jamais ter feito um único discurso na Câmara ao longo de seu primeiro mandato), a coisa tende, sim, a ficar pior. Ainda assim, sigo sendo a favor do voto. Gosto desse exercício democrático, mesmo achando difícil votar naquela urninha eletrônica e achar que algo vai realmente mudar. Lembrando sempre que o voto é só um pedacinho da prática democrática e que nossa luta diária, cobrando dos representantes que elegemos e agindo localmente, são fundamentais para mudarmos o mundo.

Que o marketing político não apague nossos sonhos, não derrote nossos ideais. Sigamos sonhando, por exemplo, na batida do Uruguai, aquela fazenda modelo ao sul da América do Sul. Vamos Pepe, Pepe con la gente!, Rock Uruguaio e Mujica neles em 2009 pra terminar sonhando com a legalização universal da maconha, do aborto, do casamento gay e de um mundo melhor para todos.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Esse texto contou com a colaboração de Pedro Birman
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Publicado em 29/09/2014 por em Domingos Guimaraens.
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