ORNITORRINCO

AS MINORIAS, AFINAL, SÃO AS MAIORIAS?

A última novela a que assisti foi A favorita, de João Emanuel Carneiro, em 2008, ano em que a Madonna aportou por aqui com sua Sticky and Sweet Tour. O show foi no dia seguinte da morte do Gonçalo e não foi fácil conciliar os dois eventos. Sim, eu adoro a Madonna, mesmo achando que ela já passou do ponto faz tempo. De lá pra cá eu vivi um intervalo que só foi quebrado no fim do ano passado com a minha voluntária exclusão social que começou junto com o primeiro episódio de Breaking Bad.

Pensei em pedir demissão em meados de dezembro de 2013, entendi que o Netflix não tinha qualquer relação com a NET em meados de janeiro de 2014 e resolvi dar uma festa no Carnaval só porque queria me fantasiar de Walter White (camisa verde, cueca, botinhas e revólver da SAARA) sem ter que encarar o suor, a fadiga e a falta de dignidade pra fazer xixi dos blocos do Rio de Janeiro. Demorei para apertar o play em Mad Men, afinal foi bom retomar o controle dos meus dias sem uma série para me abduzir e me obcecar com tudo o que surge ao seu redor (verdade que nunca deixei The Mary Tyler Moore Show de lado, o que de alguma forma é possível administrar sem descontrole).

E o que veio junto com Mad Men, na verdade, já vinha vindo, mas engordou com uma série de reportagens, vídeos e livros de maneira que esse texto poderia virar uma compilação de links que me levam para um mesmo tema, que me parece, inclusive, difícil de categorizar ou resumir em uma só palavra.

O primeiro clique foi numa matéria que fala sobre uma coluna americana de aconselhamento matrimonial dos anos 1950. “Can this marriage be saved?”, publicada na Ladie’s Home Journal, dava espaço para uma esposa e seu marido relatarem seus problemas. A palavra final ficava a cargo de um conselheiro, que não hesitava em responsabilizar a mulher por qualquer tipo de entrave à felicidade a dois. Da solidão à violência (física e/ou verbal), a solução do conselheiro para o casal era, invariavelmente, a mulher subjugada a seu homem. Apesar da pequena abertura ao feminismo no começo dos anos 1960, a coluna seguiu seu curso misógino – exceto pelo número em que um levante ativista na redação da revista alterou o título da coluna para “Should this marriage be saved?”, possivelmente chocando leitoras que encontraram em meio aos conselhos palavra “divórcio”. Ao longo dos anos o tom muda, sem no entanto tirar da mulher a responsabilidade pelo sucesso do casamento. Não seria de espantar se, 60 anos decorridos com ao menos 3 ondas feministas, esses conselheiros apontassem como culpadas por estupros e violência sexual as próprias mulheres que os sofreram.

Elenco feminino da série americana Mad Men.
Série dos anos 70,
The Mary Tyler Moore Show

O segundo clique informava o reconhecimento legal da primeira pessoa de gênero neutro no Ocidente. Norrie desafia diversas línguas e agora se encaixa na categoria de alguém non-specific*. Sua fala tangencia o recente discurso de Emma Watson na ONU, à medida em que é contra as definições sócio-culturais que o gênero impõe, e portanto reticente quando à oposição constante entre as ideias de mulher e homem. Outra matéria, da Folha de São Paulo, também evoca o texto de Emma Watson, ao expor a baixa adesão de mulheres a um feminismo sexista de ódio ao gênero masculino ou a um ativismo que julga as que escolhem o lar como atividade principal. Algumas já se declaram antifeministas, mas logo se posicionam como anti os extremismos de determinadas bandeiras. Se há uma lucidez em tudo isso, logo a boçalidade aparece, na forma de ameaças a Emma Watson, que pode ter fotos íntimas jogadas na internet por hackers que intimidam com instrumentos que nunca parecem sair de moda.

Outra Emma, estudante de artes de Columbia, chama a atenção com algo que se distancia da raiva: desde o começo de setembro carrega consigo um colchão enorme toda vez que precisa se deslocar pelo campus da Universidade. “Carry that weight” é a performance-protesto que Emma elaborou contra a decisão da instituição de manter no campus o seu estuprador, também estudante, acusado de abuso por mais duas outras meninas. “I never give you my pillow”, diz um outro verso da mesma canção, me fazendo lembrar que o mundo é esse lugar onde constantemente o nosso alívio frente a alguma lucidez é logo interrompido por uma descrença pesada.

***

As minorias, afinal, são as maiorias – foram mais ou menos essas as palavras que Silviano Santiago usou em certo momento da mesa que compôs na última Flip e que tratava de questões homoafetivas. Sou uma diletante no assunto, perdoem-me se não uso os termos corretos. A falta de credencial é também o que me fez hesitar, alguns parágrafos acima, a escolher uma única palavra que abrigasse esse pequeno histórico das notícias dos últimos dias, porque algo me diz que a abordagem tão repercutida de Emma Watson é um outro lado do mesmo olhar de Silviano e de Norrie, e que vai além de um único modelo de feminismo.

Atriz Emma Watson faz discurso na ONU por igualdade de direitos

A cada episódio de Mad Men, e ainda estou engatinhando na primeira temporada, torço fervorosamente para que aquela vitrine de mulheres desconcertantemente bonitas e impecáveis – sem excluir a esquisita Peggy deste rol – comece a queimar sutiãs na cara de Don Draper. Fico ansiosa, também, pelo real empoderamento dos publicitários, e me pergunto qual será o primeiro a se insurgir contra um clubinho fadado a morrer de câncer no pulmão ou alcoolismo. É claro, não dá pra ser simplória assim, ainda mais em se tratando de personagens que vão revelando camadas e mais camadas de reivindicações possíveis, tanto pessoais quanto coletivas.

Faz alguns dias que não saio do sofá, seja pelos dvds e essa nova temporada frente à TV ou por mais dois ou três livros que, na esteira do meu novo vício, furaram a fila das prioridades, entre eles as colunas femininas que Clarice Lispector escreveu sob pseudônimos nas décadas de 1950 e 60. Tal qual os conselhos matrimoniais machistas, a maioria das dicas, receitas e sugestões hoje soam como atrocidades e rio de nervoso como quando Draper telefona para o analista de Betty, ou como quando as pessoas não se conformam com o fato de que Mary Tyler Moore passou dos 30 e não se casou. O travesseiro acena quando dou de cara com a receita de Clarice para matar baratas: misture farinha, gesso e açúcar em proporções iguais, espalhe pelos cantos de casa e espere o dia seguinte para ter uma coleção de pequenas estátuas do bicho pelo chão. Me parece tão impactante quanto carregar sua cruz a olhos públicos, e mais eficaz que odiar os homens.

____________
* Desculpem-me, além de gostar da Madonna eu tenho certa dificuldade em adotar o X onde deveria, por isso optei pelo termo em inglês.

Julia Wähmann é editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 26/09/2014 por em Julia Wähmann.
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