ORNITORRINCO

UM TEXTO SOBRE A TIMIDEZ

Quando Clarisse se viu vestida de noiva, faltando poucos minutos para entrar na igreja e ser observada por toda família e amigos, apenas disse em frente ao espelho:

— Que vergonha.
Clarisse é minha prima e sempre foi tímida. Ser noiva ou estar no centro das atenções requer estômago e nem todo mundo tem ou deseja ter. Enquanto muitas noivas se miram nos segundos finais da solteirice e se amam maquiadas, cabelos esculpidos, vestido escolhido em cinco visitas e parcelado em treze vezes, minha prima soltou essa pérola que guardei com ternura. 
Por incrível que pareça sou tímida para alguns aspectos e solta para outros. Acredito que a maioria dos seres humanos seja assim. Tirando a Narcisa Tamborindeguy, que muito me surpreenderia se ficasse tímida para ir ao ginecologista. Vai que.
Não gosto da timidez que se guarda por se dar muita importância. Há tímidos que não falam pois acham que toda a sala vai parar e analisar milimetricamente a sentença que foi dita. Alto lá! Baixa a bola, mizifio. Quanto mais naturalizamos o dizer, o pensamento espontâneo, menos timidez sentiremos. E nem todos estão prestando tanta atenção assim na gente, sabe? Têm muitas outras pessoas no mundo. Risos.
Sempre tive muita vergonha de perguntar o preço das roupas nas lojas. Sempre. Não sei porquê. Talvez porque eu soubesse que não teria dinheiro suficiente. E com essa lua em touro, sempre desejei coisas boas. Mas não podia tê-las sempre. Sempre fui tímida também na presença de playboys. Até hoje em dia sou. Sei que adquiri corpo, cabelo, porte, sei que posso ser vista como mulherão, mas não adianta, passam dois playboys na rua e viro tímida em segundos, só para não ser percebida. E se algum deles me paquera, não acredito e acho que tinha alface no meu dente, por isso que olharam tanto. Só pode.
Não sei se vivo em redoma de vidro protegida com adesivos coloridos e perfumados, mas tenho sentido meu núcleo mais entregue, baixando a guarda. Fico feliz e torço. Aos poucos vamos ganhando idade e percebendo que os dias em que não conseguimos falar o que queríamos, causam uma dorzinha de alfinete espetando de leve o coração. O famoso “e se” dói mais que a timidez itself.

A timidez pode até ter lá seu charme, mas se ela te domina, é um tanto quanto lamentável que você se veja numa situação agradável, moçoila bonita doando condição clara de aproximação e você com o limão na boca entalado. Só porque tem medo. E de quê, cara-pálida? De tomar um não? De ser ignorado, de ser reduzido?

Mas isso também acontece com a gente, os sem vergonhas. E acontece um balde de vezes. Mas pelo menos tentamos, ousamos. Você não precisa ser a jogada All-In do poker, porque o kamikasismo também é muito periclitante. Mas que você pode arriscar um passinho aqui y una poca de gracia y otra cosita, ay, arriba, ay, arriba, você pode. Tudo bem se você tiver que se utilizar de álcool, só cuidado para o superego não assustar. Fodam-se os outros, estou falando de você mesmo. Te assustar. Comece como precisar começar. Entre na loja cara e pergunte o preço. Diga “obrigada” e saia – estou falando isso pra mim também, mas podemos fazer juntos. Tome uma cerveja com amigos. Amigos ajudam na hora da timidez. E faça exatamente o que você tem vontade. Você quer dançar só com os braços? Dança. Você quer ir com um penteado esquisito que você viu num filme e que você acha que tem tudo a ver com a sua cabeça? Vai, faz. Tá tudo bem. Sabe, as pessoas reparam, as pessoas dizem coisas, as pessoas invejam, as pessoas elogiam, as pessoas, as pessoas. Mas e o quico? 

Da próxima vez que seu colo ficar vermelho e sua voz embargar, não precisa pensar que tá todo mundo nu pra te acalmar não. Só não se dê tanta importância. Não que você não seja especial/querido/incrível. Mas fala sua frase como se fosse “quero beber água”, algo assim, normal, corriqueiro. Só cuidado para não chegar na moçoila bonita que bem tá te olhando e ao invés de falar “Opa, beleza?”, mandar um “Quero beber água”.

Letícia Novaes é cantora, compositora e colunista do ORNITORRINCO.

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Publicado em 25/09/2014 por em Letícia Novaes.
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