ORNITORRINCO

O PARAÍSO PERDIDO

Desfragmentando minuciosamente o mito da criação do mundo bíblico e também do homem, John Milton, mesmo hoje, ressignifica muito do que é tido como verdade. O Paraíso Perdido foi publicado em 1667, em versos sem rimas e vai desde a batalha entre Satã e sua legião contra Deus e as falanges angelicais pela posse do Paraíso. Anjo caído do Céu, como todos sabem, Satã quer entrar no Éden e por lá reinar. Deus não permite e impede os planos maléficos do tinhoso.

Após imensa batalha, Satã, cujas asas se assemelham as de um morcego nos magníficos desenhos de Gustav Doré, planeja vingança após ter sido condenado a viver na escuridão do inferno por toda a eternidade. Os anjos, esse sim, com asas de penas, mais apolíneos, passam a orientar moralmente a obra derradeira de Deus para o usufruto de tanta maravilha natural, Adão e Eva.

O casal derradeiro, como todos sabem, são o amplo amor ingênuo. Sem maldades, nus, desfrutam das belezas dos jardins do Éden. Parece óbvio, mas a condição submissa de Eva, criada a partir de uma das costelas de Adão, incomoda ainda mais quando lido hoje. De acordo com Deus, Eva deve ser sempre servil a seu homem que deve protegê-la a qualquer custo, pois seu amor é maior que tudo. No livro, Milton não diz nada sobre Lilith, primeira mulher de Adão, que não aceitando a condição de submissa, foi condenada a viver a eternidade no lado mais escuro da lua ao lado de demônios terríveis.

Milton, o tempo todo, tira o leitor do ambiente bucólico e bíblico, fazendo cruzamentos com a mitologia grega, romana e mesmo a egípcia. Quisera o livro sagrado fizesse referência aos seus antecedentes, mas, no papiro, não cabe rodapé. Também não é necessário dizer que John Milton, junto com John Donne, são considerados os maiores poetas líricos de língua inglesa, com respaldo de outras grandes figuras que os sucederam, porém, é preciso ver pra crer.

Satã resolve então visitar o Éden escondido e tem uma ideia brilhante: Entrar no corpo de uma serpente e persuadir a “fraca” Eva a comer o fruto da árvore proibida, que John Milton chama brilhantemente de Árvore da Ciência, única condição de permanência de Adão e Eva ao lado de tantas maravilhas criadas pelo Divino. Lá pelo oitavo canto, há uma passagem interessante entre Adão e o arcanjo Rafael, quando este explica ao puro como o mundo havia sido criado em sete dias por Deus. Adão questiona o arcanjo sobre os outros planetas que circundam o sistema solar, como funcionam, quem gira em torno do quê, e o anjo simplesmente tergiversa de maneira a fazer Adão entender que não importa muito o que há lá fora, o que importa é o que ele explica.

Mais adiante vem a história notória. Satã convence Eva a comer o fruto que, entusiasmada com os efeitos, leva para Adão e sugere que experimente. Adão, já carregando toda a culpa do mundo ao saber que Eva havia quebrado a regra primeva, comete a hamartia (palavra grega usada nas tragédias que designa a tomada de decisão do personagem que desencadeará efetivamente em seu destino trágico, por exemplo, a hamartia de Édipo foi ter insistido em saber sobre seu passado, o resto é história). Adão, inclusive, sabendo da possibilidade de tudo ruir por causa do fruto, tal uma Julieta, come-o também para ficar junto de seu amor e assim caminharem para o castigo eterno.

Milton nos dá um grande momento quando descreve Adão e Eva sob o efeito da maçã, embriagados pelo saber, embebidos em volúpia, amando-se como nunca sobre os jardins do Éden de todas as formas possíveis, e após longo sono cansado, acordam na pior ressaca moral de suas vidas, ou, a primeira da humanidade.

Deus, irado com a entrada de Satã no Éden, culpa os anjos pelo estrago e manda seu filho para falar com Adão e Eva. Arrependidos, pedem perdão, são perdoados, porém, não tem jeito, terão que sair do Paraíso.

No penúltimo canto, o arcanjo Miguel, antes de conduzir Adão para fora do Paraíso, leva-o a uma colina e mostra como será a vida dali em diante, as consequências de seu pecado para todos os seus filhos, a humanidade. Entra em uma descrição que vai desde o Velho Testamento até as pestes, navegações, sempre lembrando que o pecado maior fora o dele. Mostra como a vida mortal se tornará perecível, suscetível a doenças, condena a homossexualidade, e diz que a humanidade estará fadada a passar por danações horripilantes como luxúria, fome, velhice e alerta sobre a desonra do sexo, que gerou o canto, a perversão e (sic) a dança.

Sair da proteção eterna do Paraíso sob a sombra do Onipotente é a própria relação com a vida e todos os seus percalços. Adão e Eva ficaram juntos tanto na inocência quanto na danação ignominiosa. Na cena final, ambos caminham lentamente para uma vida mortal com o mundo inteiro a ser explorado que o poeta nos relata da seguinte forma:

De pena algumas lágrimas verteram,
Mas resignados logo as enxugaram.
Diante deles estava inteiro o Mundo
Para a seu gosto habitação tomarem,
E tinham por seu guia a Providência
Dando-se as mãos os pais da humana prole,
Vagarosos lá vão com passo errante
Afastando-se do Éden solitários.

Pedro Lago é poeta.

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Publicado em 23/09/2014 por em Pedro Lago.
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