ORNITORRINCO

JINGLES DE CAMPANHA – AQUELA MUSIQUINHA PRA TE CONQUISTAR (PARTE I)

Falta muito pouco para as eleições de 2014 e vemos, como ocorre em todos os anos, uma borbulhante fase de boca de urna, com pesquisas diárias inundando a imprensa tradicional, escândalos, dossiês e até mesmo algumas propostas políticas. No entanto, uma eleição começa muito antes dos programas eleitorais, nos subterrâneos e nas catacumbas dos partidos políticos, dentro e fora do governo.

A campanha política não é muito diferente da propaganda tradicional, pelo contrário, é uma espécie de organismo parasitário da democracia, peça crucial do jogo político, cuja função é colocar alguém no poder, não importa muito para quê. E, como toda campanha publicitária, a música ocupa um espaço importante para a conquista dos votos. Muitos jingles que marcaram nossa história política me vêm à mente, músicas que foram programadas justamente para grudar na cabeça como marchinhas de um carnaval do inferno.

Música e crônica cotidiana sempre estiveram intimamente ligadas, e, assim, a política entra no baile. As marchinhas de carnaval, desde os primórdios, falavam de questões políticas, muito mais para detratar o sujeito do que transformá-lo num líder vencedor. É de 1917 o Desabafo Carnavalesco de Freire Junior e Lourival de Carvalho na voz de Eduardo das Neves, que detonava o presidente Venceslau Brás:

“Meu milagroso São Brás
Não aperte tanto o nó
Pense o mal que nos faz
Do Zé Povo tenha dó”.

O Desabafo carnavalesco talvez tenha sido o primeiro samba sobre política gravado e lançado, embora o samba e as marchinhas viessem a construir ainda uma longa trajetória junto aos jingles políticos. Engraçado ver como o presidente já aparece, mesmo que ironicamente, como um santo milagroso que pode, sozinho, resolver as questões do país. Mostrando que é antiga a forma messiânica com a qual lidamos com a política no Brasil. Um jeito de votar que vem mais da emoção do que da razão. Aliás, George Orwell parecia até se inspirar na política brasileira ao escrever o seu célebre 1984:

“Os sentimentos elevados vencem sempre no final; os líderes que oferecem sangue, trabalho, lágrimas e suor conseguem sempre mais dos seus seguidores do que aqueles que oferecem segurança e diversão. Quando se chega a vias de facto, os seres humanos são heroicos.”

Estamos quase comemorando 100 anos do Desabafo carnavalesco (reparem que a música tem mais anos que a nossa democracia), mas pra mim o primeiro jingle político do mundo é a sangrenta e pulsante Marselhesa. Escrita em 1792 pelo oficial Claude Joseph Rouget de Lisle, da divisão de Estrasburgo, a canção revolucionária, que conclama os cidadãos à luta, se popularizou de tal forma que veio se tornar o hino da França alguns anos depois. Uma canção pra lá de poderosa, símbolo único daquele país, cantada fervorosamente até mesmo antes de jogos de Copa do Mundo, criando um verdadeiro Deus nos acuda (a seleção Brasileira que o diga).

Outra canção precursora, que é mais um hino do que um jingle, mas que já trazia em si, mais do que na Marselhesa, as propostas ideológicas e políticas do comunismo, é o Hino da Internacional Comunista (aqui em sua versão cubana). Escrita em 1871 por Eugène Pottier, a Internacional era pra ser cantada na melodia da Marselhesa, mas, em 1888, ganhou outra versão musical feita por Pierre de Geyter.

Nos EUA, país vendido como a máxima expressão da democracia racional do mundo, o primeiro jingle anotado para um político é de 1952. O I like Ike de Dwight Eseinhower ficou famoso. Além da rima fácil, era acompanhado por uma simpática animação. Em 1960, o jingle do então candidato John Kennedy acompanhou o sucesso do jingle de Ike usando a mesma técnica de repetir exaustivamente o nome do candidato, mas, agora, com uma estrutura musical mais rebuscada. Em 2012 circulou na internet uma paródia desse jingle tendo Barack Obama no lugar de Kennedy.

Mas os EUA não foram a vanguarda dos jingles presidenciais. Em 1950 aconteceu por aqui a primeira eleição com o direito a voto para todos os brasileiros maiores de 18 anos e de ambos os sexos (só não votavam os analfabetos, que, diga-se, não eram poucos naquele momento). Getúlio Vargas acaba por voltar ao poder nos braços do povo, embalado pelo samba Retrato do velho, um jingle anterior ao de Eisenhower, mas sem a firula da animação.

“Bota o retrato do velho outra vez
Bota no mesmo lugar
O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar.”

Vê-se que a ideia de “santo milagroso” está novamente presente, atrelada à imagem do velhinho fofo, de sorriso fácil, sempre vinculado à crença no trabalho como um poder supremo capaz de resolver todos os problemas da nação.

Se o Brasil pode ter lançado jingles políticos antes dos EUA, a campanha de Kennedy à presidência mostrou algo que nunca ninguém havia visto e que mudou para sempre a maneira de fazer política: a força da televisão. Ser bonito, carismático, aparentar confiança, piscar e hesitar pouco diante da câmera se tornam características tão ou mais importantes do que ter um plano de governo. Foi assim que Kennedy venceu Nixon em 1960, depois do debate transmitido em rede nacional. Ali, numa disputa um contra um, como num ringue de boxe, todos estavam mais interessados em quem sairia vencedor, dependendo muito pouco do que propunham e valendo muito mais como isso era feito.

Juscelino Kubitschek é uma espécie de Kennedy brasileiro. Não só pelas iniciais, JK, mas pelo perfil. Um homem bonito, íntegro, com grandes projetos para uma nação. Cercava-se da alta intelectualidade brasileira para governar e ganhou as eleições de 1955 com um projeto desenvolvimentista. O slogan da campanha pegou rápido: 50 anos em 5. Já o jingle oficial era uma enorme música, meio marcha militar, confusa, que misturava citações do hino nacional e não acabava nunca. Mas o que realmente embalou a campanha vencedora foi a música Peixe Vivo na voz de Inezita Barroso. O Nonô da música era Juscelino, o Seu Nonô como era conhecido. O refrão “como pode peixe vivo viver fora d’água fria / como poderei viver sem a sua companhia” recebia o futuro presidente onde quer que ele fosse. Assim JK do PSD atropelou os adversários Juarez Távola da UDN e Adhemar de Barros do PSP.

O Brasil é um país curioso e, nos anos 1950 e 60, votava-se separadamente para presidente e vice. Não havia reeleição para presidente, mas o vice podia se candidatar de novo. João Goulart, o Jango, foi vice de JK em 1955 e ganhou de novo a vice-presidência em 1960. Nessa segunda vez, sua campanha contou com um jingle curtinho, mas cantado por grandes nomes do rádio brasileiro de todos os cantos do país:

“Na hora de votar o meu Rio Grande vai jangar
é Jango é Jango é o Jango Goulart
pra vice-presidente a minha gente vai jangar
é Jango é Jango é o Jango Goulart.”

A versão acima era dos gaúchos, já a do Rio era com escolas de samba e dizia “Na hora de votar a minha escola vai jangar…” e assim por diante. Segundo o animador do Show do Voto Livre, disquinho que continha todas as versões, “jangar é mais do que votar”.

Em 1964, o Brasil sofre um corte brutal na sua história democrática. O golpe militar acaba com as eleições diretas para presidente. Como eram os milicos quem escolhiam o governante, ninguém precisava de musiquinha pra chegar ao poder. Era na porrada mesmo. Ainda assim os militares se aproveitaram muito das músicas para vender a ideia de um país em crescimento. Pra frente Brasil era o jingle da seleção Brasileira em 1970. Amplamente divulgada, a música embalava o time, a torcida, mas também servia para desviar a atenção das atrocidades cometidas por um governo violento, reacionário e repressor. Ou seja, ao invés de a música ser utilizada com meio para se chegar ao poder, tornou-se ela instrumento para perpetuação do mesmo.

Nessa época sangrenta, vivíamos um forte embate entre canções de protestos e aquelas que, desconectadas da realidade dos grandes centros, exaltavam, ainda que indiretamente, o regime e serviam pra limpar a barra dos milicos.

Ainda nos anos 1970, enquanto Chico Buarque compunha Apesar de você e Jorge Maravilha, Marcos Valle compunha Flamengo até morrer, musiquinha fofa sobre o maior clube do país, mas com versos pra lá de fantasiosos como:

“Até o presidente é Flamengo até morrer e
E o resto é pau, é pedra, águas de março ou de abril,
Mas tudo é paz nesse País, nesse Brasil.
Brincadeira tem hora Marcos!”

O ano de 1984 foi um ano marcante na batalha pelo retorno da democracia no país. Embora a brochada da derrota da campanha das Diretas Já tenha sido gigante, pela primeira vez o pessoal conseguia ir para as ruas sem levar pancada. A luta pelas eleições diretas é outro caso à parte, falei um pouco sobre isso num texto sobre a Democracia Corinthiana. Mas a questão aqui é música e, embora a campanha não tenha tido um jingle específico, contou com muitas canções dos anos 60 e 70. Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, que já tinha sido um hino de libertação contra o AI-5 em 1968, pôde ser cantada a plenos pulmões em praças públicas. Era tempo de fazer a hora, embora esta infelizmente tenha se atrasado. Esta luta bonita, porém, só foi vencida cinco anos mais tarde, nas eleições diretas de 1989, um ano riquíssimo em jingles políticos.

Na próxima semana, darei sequência a essa história, partindo da lendária eleição de 1989, o primeiro voto da maioria dos eleitores daquele ano, até os dias de hoje. Quem viver ouvirá!

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Esse texto contou com a colaboração de Pedro Birman



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Publicado em 21/09/2014 por em Domingos Guimaraens.
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