ORNITORRINCO

TRABALHO DE VAGAR

Eu estou tão cansada. O trabalho nunca foi tão intenso, nem a necessidade de rotina tão marcante. Então eu bato ponto em um freela mára e também tento cuidar do entorno doméstico com amor e afinco. Acordo para fazer meus 6 exercícios de yoga para a tireóide e parto para umas boas horas de labor. Volto pra casa para cozinhar, arrumar, ler um pouco, ver um pouco de tv, namorar um pouco, dormir um pouco (no entanto, tenho bebido muito). No outro dia está tudo igual. E na quarta-feira eu já quero o final de semana. Deveria ser uma coisa boa. Todo mundo ao meu lado está vivendo algo parecido e repetindo o mantra que o trabalho dignifica. Até concordo com isso. O problema não é a teoria, é o formato.

Me ensinaram durante a vida toda que minha mania de preguiça, de gostar de ficar sem fazer nada, de fazer as coisas devagar, de olhar o tempo, de passear era errado. E eu até acreditei que sim. E que saco que é arrastar essa corrente, viu? Porque se tem uma coisa que não tem como mudar é quem se é. Muda não. A gente melhora, a gente desenvolve métodos de sobrevivência, a gente ultrapassa defeitos, mas mudar a raiz misteriosa da nossa individualidade não tem jeito, não tem ciência que explique. E tentar ir contra isso é sofrimento puro, na sua mais elaborada forma.

Outro dia li uma moça que dizia que a gente vive a época dos escritores sem livros publicados, de cineastas sem filmes e, um pouco pela carapuça muito bem vestida, achei um tanto cruel. Por que ainda tem quem precise apontar o dedo para a direção que eu (tu, eles) devo tomar? E daí se preciso do crachá antes da obra? Se tudo é fantasia, e acredito cada vez mais nisso, só interessa a mim qual é aquela que vou vestir quando sair de casa. Decidi que sou escritora, o que casa perfeitamente com aquilo que falei lá no começo do texto; meu gosto por contemplar. Mas aí, quando escrevi pela primeira vez isso, no cadastro de um site de compras (ha), a sensação de pertencimento deu lugar a um certo incômodo. Eu não esperava que sair do armário fosse o começo e o fim. Dá para entender?

Como Belchior fala na sua Alucinação ”eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia nem no algo mais. Amar e mudar as coisas me interessam mais”. Penso cada vez mais que arte começa mudando o artista. E quem é o artista? Eu, você, qualquer pessoa que esteja querendo transformar é artista. E o que é a obra? Por que a obra precisa ser um objeto? Viver já não é isso? Moldar quem somos já não é o projeto de uma vida inteira? Eu vivo, amigos. Já não é suficiente? Cada pessoa tem um caminho a seguir e sempre que tento me encaixar em um formato concluo que somos como crianças que crescem e perdem as roupas. Então, quem eu quero e preciso agradar?

Nesse processo por afirmação, decidi que deveria passar meus textos de mão e mão e uma amiga muito estimada, depois de avaliar, me respondeu que achou tudo muito feminino, me sugeriu leituras com as quais eu não me identifiquei nada. Já estava quase ali, nas profundezas da insegurança que eu pensei: porque minha poesia não pode ser feminina? Só consigo escrever sobre o que conheço. Isso me faz uma poeta menor? Quem determina a escala das coisas? Ou seja, minha busca por identidade não estava no escritório ou na rotina ou no plano de carreira; estava na arte e também me aprisionava.

Você ainda acredita que somos os únicos seres do mundo? Eu não. Se não somos todas as possibilidades existentes, porque essa mania de rotular? Já fui tudo e mais um pouco. Já desagradei muito, já agradei um tanto. Já enchi o saco. Já recomecei mil vezes. Agora tenho um freela mára. Eu pego ônibus. Pago as contas. Escrevo poesia. Eu sou isso e aquilo. Faço como um monte de gente. Mas só porque agora entendi que posso praticar outras construções para me situar no mundo, eu me sinto verdadeiramente livre. Eu bato ponto, sou escritora, mas no fundo, gosto mesmo é de olhar pela janela.

Marília Valengo é redatora.
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Publicado em 19/09/2014 por em Marília Valengo.
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