ORNITORRINCO

O EU É UM OUTRO

O Outro que eu olho não sou eu, mas eu o reconheço como um semelhante. De todo modo, ele é um “estranho”, que, para Lacan, é irredutível. Está desassociado de quem o vê e se excede em relação a ele, invadindo-o e transbordando, em outras palavras, é como se o olhar do Outro se sobrepusesse ao meu, se impusesse de maneira perturbadora. 


Merleau Ponty, por outro lado, diz que posso ver e ser visto, e posso ser visto tanto pelo Outro quanto por mim mesmo, o que nos coloca no mesmo patamar, nos tornamos um “Ser” que experimenta a mesma “carnalidade” e se correlaciona com as demais coisas no mundo. Então eu, sujeito, não me reduzo a um mero espectador, e participo do olhar do Outro sobre mim, criando entre nós uma familiaridade, ainda que provisória. Mas, ao ver o Outro, e ao ser visto por ele, o que há além desse encontro de olhares senão a expectativa que traço a respeito dele e do seu olhar sobre mim? 
A partir da minha consciência de corpo tenho uma expectativa (“espera que repousa numa promessa ou probabilidade”) ampla em relação ao mundo, espero sempre que a chuva me molhe, e que um rádio toque música, e espero sempre que o Outro não seja um espelho que me reflete, mas um indivíduo à parte, que não está em mim. Então, diante do olhar do Outro, esforço-me em satisfazer minha expectativa a respeito dele. Se o desconheço, se não tenho a respeito dele nenhuma referência, resgato na minha experiência modelos anteriores (afinidades, preconceitos, idealizações) e as reciclo como alimento para esse fogo que não pode se extinguir sob o risco de deixar-me no escuro. E para além dessa expectativa ampla, desses modelos preestabelecidos, e que se aplicam a tudo com o que me relaciono, há uma expectativa dependente, que emerge da minha vontade de intuir o que não espero de algo ou alguém. 
Espero que um rádio toque música, mas o que não espero de um rádio? Do mesmo modo engendro intencionalmente expectativas a respeito do olhar do Outro, na tentativa insegura de decifrar o “enigma” desse olhar sobre meu corpo. 
Espero que ele me veja, mas o que não espero? Qual seria o resultado dessa espécie de reflexo em que meu olhar se move, indo em direção ao outro e voltando-se contra mim pelo fato de que também sou visto? Estou diante do “estranho”, do que não me é “familiar”, mas não espero, à princípio, que esse “estranho” seja a minha projeção no olhar do Outro.
Até o momento, não pensei que tudo o que se passa em mim e que é desencadeado pelo meu ver também se passa no olhar do Outro. Até agora, parafraseando Raul Seixas e Paulo Coelho, estou no Outro, mas ele não está em mim. Se isso ocorre, é mais fácil pensar como Lacan, ou como Sartre, e querer (algo impossível) “destruir o Outro” que me assola porque não passa de um “estranho” sobre o qual eu não tenho nenhum domínio. Contudo, se presumo estar no Outro, e creio que dele não tenho nenhum vestígio além do olhar, a quem verdadeiramente estou tentando destruir quando tento destruí-lo? 
Quando reconheço que o olhar do Outro também carrega inúmeras expectativas a respeito do mundo e do meu olhar, estabeleço então uma expectativa a respeito da expectativa do olhar do Outro, que pode ser ou não uma expectativa mútua. Assim torna-se mais fácil acreditar que eu e o Outro fazemos parte de um “Ser”, que estamos correlacionados, que existimos ou nos projetamos um no outro não como um espelho que me devolve a mim mesmo ou me perturba por me impedir de alcançar meu íntimo exterior, mas como um reflexo que me complementa. 
Posso reconsiderar a hipótese de sempre ter de me defender do Outro – que também pode fazer o mesmo –, e podemos bater um bom papo, trocar umas ideias bacanas, e cantar com Rimbaud: “O eu é um outro.”
Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
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Publicado em 19/09/2014 por em Danilo Diógenes.
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