ORNITORRINCO

O LUTO DE UM SUICÍDIO

É quase impossível que no decorrer de sua vida você não tenha que vivenciar o luto por alguém que morreu. Vivo agora o luto do suicídio do meu irmão, que se matou aos 35 anos há pouco mais de um mês atrás. Expor a minha história mais uma vez é uma forma de transformar minha vivência desse luto em aprendizado pra mim e espero talvez que, de alguma forma, ajude quem quer que tenha passado ou passe por isso.

Nesse último mês recebi centenas de mensagens que envolviam casos de suicídio ou das próprias pessoas que tentaram se matar. Muitas contando histórias, fazendo perguntas, agradecendo e falando dos próprios sentimentos. Tive muitas reflexões a partir de toda essa experiência.

A primeira é que falar sobre suicídio é particularmente desafiador não só pelo trauma e pela grande surpresa, mas também pelo grande tabu que envolve o tema. Parece que, semelhante a tantas outras situações de vulnerabilidade psicológica para as quais preferimos olhar apenas em secreto, manter o silêncio funciona somente como mais uma máscara que visa esconder uma realidade de profunda dor, misturada com sentimentos de vergonha e estigma social. Não quebrar esse tabu evitando tocar no assunto não ajuda em nada, pelo contrário, só torna tudo muito mais difícil.

No meu texto anterior falei da depressão, uma doença grave que culmina naturalmente no suicídio quando não levada a sério e tratada. No entanto, existem vários porquês possíveis para uma pessoa se matar, mas esse não é o ponto. O ponto é que vale perguntar o quanto quisermos, falar até a exaustão, investigar e tentar entender se acharmos necessário. Mas é burrice se entristecer ou ficar irritado e frustrado por não encontrar respostas satisfatórias ou não encontrar resposta alguma como ocorre tantas vezes. Te deixaria mais feliz se encontrasse uma carta da pessoa e soubesse que ela se matou porque estava cansada de ver sua cara? Ou porque ela estava com uma dívida secreta enorme? Os porquês mais íntimos são quase sempre impossíveis de saber e eles não trarão a pessoa de volta e nem preencherão a sua ausência. Buscar porquês é uma espécie de auto-flagelação. É quase sempre tentar se enganar e imaginar que poderia ter percebido mudanças ou feito algo para evitar uma tragédia.

Ouvindo vários relatos e conversando com especialistas ficou evidente: as mudanças são muito sutis e até médicos especializados nesse campo tem dificuldade de diagnosticar mudanças de comportamento que precedem o suicídio. E para dificultar ainda mais, a maioria das pessoas que decide se matar, raramente o faz num impulso, muitas planejam o momento, o método e o local e fazem de tudo para disfarçar, pois sabem que as pessoas que as rodeiam tentariam impedir. Ouvi um caso de uma pessoa que se matou a caminho de ser internada em uma clínica para tratar da depressão. Falou que ia em casa pegar uma roupa rapidinho e se enforcou. Num outro caso, o homem falou que ia viajar, arrumou a mala, e no primeiro momento que conseguiu ficar sozinho se enforcou no suporte da TV no quarto do casal com sua esposa lhe esperando na cozinha. Uma outra, já em tratamento e com a família de olho, falou que ia ao banheiro, se trancou e deu um tiro na cabeça. Mesmo assim, é extremamente recorrente se iludir e sofrer pensando que poderia ter feito algo. Não poderia. Afinal, se você realmente acreditasse que alguém que você conhece planejava se matar, você deixaria? E você saberia e acreditaria, de fato, que a pessoa fosse capaz de se suicidar antes do ocorrido?

O luto de um suicídio parece que dói mais que uma morte “natural”, porque uma outra tendência recorrente é imaginar que foi um coisa contra você. Em outras palavras, é como se a sua existência ou de outras pessoas importantes não fizessem diferença para quem se matou querer continuar vivo. Uma interpretação equivocada, porque no caso de depressão profunda o estado de sofrimento e a falta de vontade de viver são tão grandes que engolem qualquer outro desejo. Não tem nada a ver com o outro, é um sentimento solipsista, mas não egoísta porque não tem ego. É como uma ausência muito grande, não tem um “eu” que se conecta com nada, ganhar na loteria ou pegar sua mulher na cama com outro é indiferente. É um vazio avassalador. É bem difícil pra quem não sofre de depressão e tem a mente sadia conseguir vislumbrar o que alguém que se matou sentiu.

Bem mais intensamente que nas mortes “naturais” o suicídio pode causar muito sofrimento a todos remotamente conectados ao suicida pelos fatores que já mencionei. Ajuda a dar mais leveza pesquisar sobre o tema, quebrar o tabu, escrever, ler sobre, entender que há muitas visões diferentes em diversas culturas (e até só na nossa mesmo) sobre a morte e o suicídio. Só pra citar uma rapidamente, aprendi que em algumas tribos da Malásia o suicídio é uma prática admirada. Lá, os suicidas são chamados de “heróis” por sua coragem e são considerados “escolhidos”. Eles dizem que a atitude de sacrifício deles proporciona mais união, amor e vida para o seu povo.

Também pode ajudar a se sentir melhor conhecer pessoas que passaram por isso, relembrar que você não é o único a viver essa situação e atenuar um sentimento muito recorrente de enorme solidão que costuma surgir em quem perde alguém assim. Digo “pode ser que ” e “talvez” porque esse é o ponto central de um luto: cada um tem sua forma de sentir e lidar com a ausência. Muitas pessoas, aparentemente com boas intenções, te dizem como você tem que se sentir. Alguns te dizem para “esquecer”, outros te dizem que você tem que “seguir em frente”, outros te dizem que você tem que “sofrer”, mas pouquíssimos tem a sabedoria de te dizer o mais correto: você não “tem que” nada. Em especial quando você está bem e algumas pessoas insistem em cobrar que você sofra.

Isso me lembra a história do livro “O Estrangeiro”, do escritor francês Albert Camus (1913-1960), em que o protagonista é julgado e culpado por um crime pelo fato de não ter chorado no velório da mãe. Se sua vida não está acabada porque o seu irmão se matou, então a interpretação é que você não gostava dele de verdade. Se você já está conseguindo sorrir é porque a ficha não caiu. Algumas pessoas que vivenciaram situações parecidas cravam: “ah, você ainda vai sofrer muito pelos dois ou três primeiros anos”. Entendo que é quase que um conselho, como para que você esteja preparado, mas isso é totalmente sem sentido. A partir de que dia exatamente o sofrimento acaba e você pode começar a sorrir? Quais as demonstrações de sofrimento que temos que dar para que a dor seja “verdadeira” e “correta”? É quase dizer “olha, esse luto pelo irmão que se matou dura no mínimo 2 anos, 3 meses, 17 dias e 12 horas, e você tem que chorar 17 litros, tá bom?”.

As pessoas te cobram e até a gente mesmo se cobra este sofrimento como uma obrigação, se não prestarmos atenção. Só que o sofrimento não beneficia e nem glorifica ninguém. Nem o morto e nem a nós mesmos. Independente de sua fé ou da falta dela, existe alguma possibilidade da alma de quem se foi se sentir feliz, orgulhosa e honrada pelo fato de você estar na lama e miseravelmente triste?

Se tivesse que dizer a única coisa que alguém “tem que” nesses momentos, eu diria que “temos que” sentir. Vivenciar o luto que, como todos os sentimentos, está sujeito às idiossincrasias de indivíduos singulares que todos nós somos. Não tem receita. Nem certo ou errado. Pode ser que você sinta raiva, ódio, saudade, compaixão, vazio, tristeza, amor, perplexidade… Pode ser que sinta por uma semana, por 10 anos ou para sempre. Até morrer. Nesse pouco mais de um mês eu senti tudo isso e muitos outros lugares em mim mesmo que nem sei como descrever.

A morte, antes de assustadora ou incompreensível, significa a ausência física que a pessoa que se vai bruscamente deixa. É impreenchível porque só aquela pessoa, com todas as suas idiossincrasias, mesmo as ruins, pode ocupar aquele lugar. No ato de existir, todos somos insubstituíveis. Diante da aceitação deste fato, a nossa mente nos leva a vários destinos.

Alguns caminhos mentais são mais tortuosos. Outros são mais fáceis. Parece bem fácil morrer junto, mesmo sem se matar, mas a real é a mesma de quem decidiu se matar: você é quem escolhe. A gente só não tem escolha diante do nosso livre-arbítrio de ter que escolher como lidamos com a ausência de uma pessoa. A dor e o sofrimento que vem de uma perda podem ser grandes vilões capazes de destruir nossas vidas… Ou grandes professores que te fazem desenvolver recursos ou criar forças para lidar com as durezas da vida. O que você escolhe?

A saudade é inevitável. É um sentimento curioso e inerente ao luto, mas ela pode ser vivida com alegria ou com dor. Ela é um ponto de vista sobre o passado. Você pode ver como algo positivo: “que bom que eu vivi esse momento com essa pessoa para poder sentir saudade”. Ou vê-la como algo horrível: “que merda que nunca mais vou viver isso com essa pessoa”. É sempre um gatilho ou uma faísca que pode ser uma situação, objeto, palavra, som, cheiro que te fazem lembrar da pessoa que não está mais ali. A gente chora e sofre mais pelo apego às memórias que vivemos com quem se foi do que pela pessoa em si. Por outro lado, a dor pela certeza de um futuro que não virá diante desta ausência é só uma ilusão ou um caminho mental que nos causa ainda mais dor. Não existem garantias de que esse “futuro” realmente chegaria. Fato: a saudade nunca é nossa mente no presente.

Por último, uma das grandes dificuldades de passar por um luto deste tipo é que custamos a perceber e depois relutamos em aceitar o luto por nós mesmos. Mudanças tão bruscas como essas nos tornam outras pessoas, o “eu” antigo morre. E o não reconhecimento desse novo “eu” pode ser no mínimo estranho ou até muito doloroso. Você pode sair mais forte, pode sair derrotado, pode sair revoltado, enfim… O fato é: não tem como entrar e sair “neutro” da experiência de um luto.

Finalmente, tenho que admitir que é verdade e que não há muito o que alguém possa dizer para nos consolar em momentos como esse. Mas se for para dizer algo como “conta comigo”, por favor, não diga isso de forma piegas e nem leviana. Porque num momento de extrema fragilidade é muito decepcionante alguém te falar isso e quando você realmente pede ajuda, a pessoa não comparecer. Nos dias de luto em que fraquejamos, a gente não precisa de textos e nem de palavras lindas. Muito menos de alguém que nos diga como a gente deve se sentir. Nessa hora, a gente só precisa sentir a verdade ao ouvir “conta comigo, estou aqui”.

O que não nos mata nos fortalece e o kanji de crise = perigo + oportunidade. E desta forma eu penso nessa experiência de luto como uma grande oportunidade de onde podemos sair mais fortes e mais vivos. Uma oportunidade para sorrir de novo. Um sorriso que pode demorar a vir, mas que quando vem, nasce com força redobrada.

Franco Fanti é roteirista, dramaturgo e colunista do ORNITORRINCO.

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Informação

Publicado em 18/09/2014 por em Franco Fanti.
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