ORNITORRINCO

SE VIRA NOS 30

Esse ano eu cheguei aos 30 anos e tinha certeza de que quando atingisse esta marca tão simbólica eu seria dominado por uma onda devastadora de depressão e que iria me sentir velho acabado e caquético. Mas não foi exatamente o que aconteceu. Tinha muito medo dos 30. Mas este medo que me acompanhou, mais ou menos a partir dos 25, simplesmente sumiu ou esqueceu-se de aparecer no dia do meu aniversário. Fechar o ciclo de mais uma década me trouxe algumas reflexões interessantes. Ficar velho faz parte. Envelhecer bem é uma arte.

Não falo simplesmente de aceitar os cabelos brancos ou de não se importar em ser chamado de “tio” pelos colegas de seu filho na escola. Essa é a parte fácil da brincadeira. Mais do que encarar esses “ritos de passagem” com naturalidade, acho que o grande lance é tentar entender seu próprio tempo.

Na matemática o número 30 é exato e representa 30 em qualquer equação (aqui a minha referência é a matemática básica que aprendi na escola para passar de ano). Mas na vida real, os meus 30 não se igualam a uma vida de três décadas no Nepal, de quem teve esta idade em 1968, de quem nascerá em 2020 ou até do meu vizinho, que pode até ter a mesma idade que eu, mas tem uma vida completamente diferente e provavelmente nunca lerá este texto para concordar ou discordar de mim.

Não considero, portanto, que meus 30 anos sirvam de exemplo para ninguém e não tenho qualquer ambição de produzir uma cartilha comportamental recomendando algo do tipo “como chegar bem aos 30” ou “o segredo por trás dos 30” ou “10 passos para ter sucesso aos 30”. Eu só quero aqui dividir minhas impressões sobre como é chegar num momento da vida em que muita gente projeta um horizonte de complicações, em que o peso da idade ameaça se impor ou que supostamente o mundo passa a cobrar mais de você. Quem nunca ouviu de alguém da família a frase “você já está com quase 30 anos”, acompanhada de uma melodia que quase te convence de que você está prestes a cometer um crime? E aquele comentário de um amigo ou de um tio mais velho em tom de deboche que te faz esquecer a frase que foi realmente dita e uma constatação do tipo “caralho, estou fodido” lhe invade por completo?

O lance, como já disse, é entender seu próprio tempo. Compreender que é possível viver 30 anos em uma semana. Há quem consiga permanecer com 16 anos por décadas. Tem gente que com 14 já superou, e muito, os 30. Mas também tem quem faça 60, sem nem ter chegado perto dos 25. O meu tempo me fez ponderar que “ter 30” é bem diferente de “saber que tem 30”. Ter 30 anos para mim é só uma questão de tempo. É o andar dos ponteiros. Arrancar folha de calendário. Soprar velinhas. Mudar de número num formulário qualquer.

Com base na minha experiência, é mais do que superar o fato de que não morri com 27. Ao invés de medo, é sorte. Por ser pai de uma criança incrível de 9 anos e por ainda ter vivos os meus 4 avós. É mais bicicleta do que carro. É mais dia do que noite. É mais leite e pão do que cerveja e pizza. É mais casa do que rua. É mais samba do que rock. É mais política do que esporte. É aprender a ser pai e melhorar como filho. É cuidar melhor de si por sentir-se responsável por outras pessoas. É reconhecer o adulto que você precisa se tornar sem deixar de respeitar a criança que há em você. É saber levar a sério toda essa brincadeira.

Mas essa é a minha fórmula. Não é menos e nem mais. Nem todo mundo anseia constituir uma família, plantar uma árvore ou escrever um livro. Muita gente demora de entender algo tão simples. E para uns não acho que seja realmente simples. Tem gente que vive sem descobrir. Ou morre sem saber. Tudo isso para dizer que independente do que seus pais pensam ou desejam, de quem são seus amigos, de toda a pressão social, do mercado de trabalho, do seu gerente no banco, do resultado do jogo, do final da novela, das contas no fim do mês, enfim… O segredo é você. Você decide se quer ou como quer chegar aos 30.

Estamos todos subindo a mesma montanha. Há caminhos em todas as direções e escolhas por toda parte. Neste inevitável percurso – chame de mágica ou como quiser – a palavra “trinta”, embora não pareça, é capaz de se esticar a ponto de tornar-se maior que o “infinito”. Basta querer. Queira você ou não. Sim. Queira. Você. Ou não.

Gabriel Camões é palhaço, ator, poeta, jornalista e colunista do ORNITORRINCO.


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Informação

Publicado em 17/09/2014 por em Gabriel Camões.
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