ORNITORRINCO

MEUS HERÓIS MORRERAM DE INTERNET

Na trilha sonora, Cazuza me fala que “seus heróis morreram de overdose”. Alguns dos meus também, mas na tela, eu assisto os meus morrendo, pouco a pouco, de internet. Não que suas vidas estejam em perigo, no sentido biológico eles continuam bem – ainda bem – e alguns até seguem postando atualizações bastante frequentes de bem estar físico e moral. Mas suas capas de heróis é que vão aos poucos morrendo, pela estranha convivência superficial-intrusiva desses tempos de redes sociais.

Dia desses foi uma professora do primário, que, de alguma forma encontrei e mantive na minha lista de amigos como uma doce lembrança daquela que foi uma dos meus primeiros exemplos para “ser quando crescer”. O problema foi quando ela migrou da passividade da minha lista de amigos para o protagonismo de compartilhamentos lamentáveis na minha linha do tempo. Quem dera fosse só a efervescência desses dias que beiram as eleições num país e fazem certas visões se baterem. Triste é acompanhar um desfile diário de frases feitas, frutinhos venenosos de sensos comuns e ideias disseminadas preguiçosamente. Logo vindos de quem me levou a refletir tantas vezes nas carteiras da escola.

Outra vez, foi um artista, desses que não economizam poesia e palavras sábias para eu anotar no rodapé das minhas páginas quando elas sofrem por excesso de realidade. Lá estava ele, destilando banalidades e piadas dignas daquele tio no almoço de domingo depois de algumas cervejas.

Não espero que meus heróis sejam sagrados, integralmente admiráveis, não tenham senso de humor ou tampouco concordem comigo em tudo. Talvez, porém, seja bom, apenas de vez em quando, apenas com algumas pessoas, não ver tantas facetas. É como o filho que sabe como foi concebido, mas prefere não imaginar o que se passa no quarto dos pais durante a noite. Ou como a criança que desconfia que o Papai Noel esconde alguns segredos embaixo da barba, mas se mantém obediente e ainda escreve sua carta.

O fato é que está em curso uma grande mudança no processo de conhecer as pessoas. É como se a era de curtir e compartilhar invertesse a ordem das coisas. Natural é conhecermos as pessoas aos poucos, ver-lhes as características mais claras e depois ir desvendando as camadas, deflagrando as piores piadas e os pedacinhos de preconceitos quase subconscientes.

E agora, de repente, sabemos das intimidades mais sem importância e, claro, julgamos sem saber dos detalhes mais básicos. O herói passa de exemplo de vida a catálogo de impulsividades. Estamos tão desesperados para conhecer uns aos outros que acabamos nos conhecendo muito pouco. Logo, o assunto do momento muda, a rede social também, alguns amigos se perdem nessas transições, e a música segue tocando. Cada vez mais, vão surgindo novas formas de nos matar de overdose, e menos ideologias para se viver.

Amanda Moura é jornalista e professora de Literatura.
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Publicado em 17/09/2014 por em Amanda Moura.
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