ORNITORRINCO

ELEIÇÕES 2014: ENTRE A HISTÓRIA E O AGORA

Chegou o ano eleitoral. É o momento de elegermos o novo presidente do Brasil. Ainda que os rumos da política institucional brasileira não seja uma das pautas mais “atrativas” para se debruçar em nosso cotidiano, eis que o momento eleitoral nos convoca a pensar sobre ela. Enquanto muitos brasileiros passam a acompanhar mais de perto os noticiários e os enredos dos debates eleitorais, ao mesmo tempo coexistem muitos outros cidadãos que, pelo “dissabor” da pauta em questão, não demonstram maior interesse em parar um instante para refletir sobre os rumos políticos do país.

Os indivíduos que se propõem a acompanhar – na medida do possível – os acontecimentos da corrida eleitoral, geralmente se saciam com as informações situacionais do agora publicados nos portais de notícias dos mais variados, inclusive, os duvidosos. Em boa medida, será desse conjunto de informações que esses indivíduos reafirmam a sua intenção de voto ou a repensam, para o bem ou para o mal. Aqui cabe uma observação. Se por um lado encontrar indivíduos buscando informações sobre a cena política brasileira é algo que nos soe admirável, por outro é o incomodo ao se perceber que eles apenas se bastam com o que encontram nos noticiários do aqui e agora para endossarem as suas intenções de voto.

Atenuar o peso do imediatismo midiático sobre as decisões que tomaremos em relação aos rumos políticos de nosso país requer, primeiro, que olhemos as notícias atuais também pela lente da história recente do Brasil. Vale lembrar que não é de agora que o nosso país tem vivenciado grandes processos de mudança. Por exemplo, nos anos de 1950 – período em que a maior parte demográfica brasileira ainda se constituía de uma população atuante no meio rural – o governo brasileiro instituiu um plano desenvolvimentista alicerçado no processo de industrialização do país. Em pouco tempo, essa estratégia desembocou na forte presença de empresas multinacionais atuantes em território nacional. Diante da volumosa oferta de empregos que começou a surgir nas grandes cidades, o mercado de trabalho brasileiro vivenciou uma mudança de comportamento até então sem precedentes: amplos contingentes da população rural brasileira migraram para as grandes cidades em busca de trabalho. A decisiva alteração do perfil demográfico do país acabou por acelerar o processo de urbanização das metrópoles brasileiras. Sem muita surpresa, esse processo, iniciado em meados dos anos de 1950, constituiu a raiz da favelização e da violência urbana que presenciamos nos dias de hoje em nosso cotidiano.

Mas a perspectiva de uma vida próspera em um Brasil sob intenso processo de desenvolvimento não se mostrou completamente factível. Entre o período de 1960 e 1995, o país vivenciou uma realidade econômica pouco animadora. Nesse período, o país foi conhecido como o detentor do maior índice de inflação do mundo. Conter a inflação passou a ser uma prioridade do Brasil a partir de meados dos anos de 1980. Dentre as alternativas utilizadas, foram implementados sucessivos pacotes macroeconômicos e três planos econômicos, a saber: o Plano Cruzado implementado em 1986; quatro anos mais tarde, em 1990, entrou em vigor o Plano Collor; por fim, em 1994, teve início o Plano Real, o qual, dentre todas as tentativas anteriores, foi o único a obter êxito no controle da inflação.

Poucos se lembram, mas o Plano Real começou a ganhar forma no governo Itamar Franco. Contudo, só ganhou robustez ao ser mantido e aprofundado no governo FHC por meio de alternativas como controle fiscal e programas de privatização, sendo sob esses últimos, pelos quais este governo foi acusado de práticas corruptas. O fato é que o Plano Real conseguiu realizar um melhor controle da inflação no Brasil trazendo estabilidade à renda aos brasileiros. Uma vez controlada a questão da inflação, a partir de 1995, a principal fonte de potenciais impactos e instabilidades econômicas no cenário brasileiro, surgiria de crises financeiras externas.

O fraco desempenho da economia brasileira na década de 1980, já se mostrava como resquício de crises internacionais ocorridas no período. Em meio às tentativas de retomar o rumo desenvolvimentista, o Brasil passou pela experimentação de sucessivas alternativas econômicas, as quais em sua totalidade se mostraram fracassadas. Se por um lado, em meados de 1950, o país presenciou amplos contingentes da população rural brasileira migrando para as grandes cidades em busca de trabalho, diante da crise econômica da nomeada década perdida, o Brasil viu-se perante a uma emigração massiva dos trabalhadores brasileiros rumo a países que lhes apresentassem condições mais prósperas de trabalho e para a vida em sociedade.

É razoável crer que o governo Collor, iniciado em 1990, acabou estimulando ainda mais o processo emigratório dos trabalhadores brasileiros. O estímulo a esse comportamento não se originou de uma declarada medida política, mas foi reflexo do fracasso institucional das medidas tomadas por esse governo. Com o objetivo do controle imediato da inflação, o presidente Collor lançou mão de um choque econômico brutal que, dentre outras medidas, congelou a poupança da população brasileira. Esta medida provocou um trauma sem precedentes no país, de modo que houve a quebra de quaisquer resquícios de confiança da população no governo em questão.

A partir de 2003, o governo Lula conseguiu expandir os programas sociais, alçar a economia do país a novos ares e quitar a dívida externa brasileira com o Fundo Monetário Internacional (FMI), dívida essa que assombrou o país por décadas. Mesmo enfrentando acusações de corrupção em financiamentos de campanha, o governo Lula chegou em 2010 apresentando um quadro de prosperidade econômica e otimismo sobre as mudanças ocorridas no país.

Desse cenário, o governo Dilma, iniciado em 2011, passou a imprimir um ritmo mais técnico que político ao governo, dando sequência, em boa medida, às principais linhas do governo anterior. A primeira mulher presidente do Brasil chegou a contar, no início de seu mandato, com bons índices de popularidade e aprovação dos brasileiros.

Atualmente, a economia brasileira começou a indicar um crescimento abaixo do esperado, ao mesmo tempo em que as taxas de inflação se movimentam – ainda que discretamente – em direção oposta. Ainda assim, a atual realidade econômica brasileira não refletiu no aumento do desemprego no país ou no medo de se reviver um choque inflacionário tal como o drasticamente experimentado durante o governo Collor. O ponto aqui é o seguinte: ainda parece existir a sensação de que o Brasil vive uma fase de consolidação de sua economia e de reconhecimento externo como um dos países emergentes mais promissores da econômica mundial.

Por mais que essa atual situação brasileira possa ofuscar questões internas e minimizar a importância dos problemas sociais do país, há de se reconhecer que a atual posição de destaque do Brasil não foi um mero episódio do acaso. Durante décadas o país procurou alternativas para as suas intensas crises financeiras e, com isso, a população brasileira amargou a vivência de grandes sacrifícios. Mas, ao que parece, o cenário atual sugere que a vida dos brasileiros está melhor do que já foi no passado.

Ao nos atentarmos em conhecer um pouco da história recente do Brasil, poderemos fazer uma leitura menos imediatista e visionária sobre as informações políticas que no agora nos transmitem e, em contrapartida, daremos espaço para um olhar mais pragmático e objetivo sobre os rumos políticos em nosso país. Se em junho de 2013 fomos capazes de manifestar a nossa insatisfação com o Brasil – construído ao longo de toda a sua história – que não nos satisfaçamos apenas com as “histórias” do agora para construirmos a nossa visão sobre o país.

Levar em conta o passado recente do Brasil para reafirmar ou refutar as nossas intenções de voto em 05 de outubro de 2014, não é apenas uma forma de expandirmos a nossa capacidade de refletir sobre os rumos políticos de nosso país. Mas também uma maneira de percebermos que o passado de um país está inscrito em seu presente. E que desse presente, possamos testemunhar a construção do futuro que desejamos para o Brasil de agora.

André Silva é doutorando em Administração de Empresas pela FGV/EAESP.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 17/09/2014 por em André Silva.
%d blogueiros gostam disto: