ORNITORRINCO

OLHAR PARA OS LIVROS DE OUTRA PESSOA

Eu não deveria ter ficado sozinho na sala do seu apartamento, no início de noite duma aparentemente ordinária (e fria) quarta-feira, em São Paulo. Estou sentado na mesa laranja que você posicionou bem no centro da sua sala de estar, de frente para as sete estantes de livro que tentam (tentam) acomodar as centenas de livros que você acumula, até agora, em sua vida. Contemplar sua aspirante biblioteca me é: estranho, belo, sádico, doloroso, bonito, bonito, bonito. Minhas malas não chegaram, bendita viagem que terminou e me deixou preso no meio do caminho; não estou mais lá mas também ainda não estou exatamente aqui.

Na minha bolsa, tenho alguns papeis, um (UM!) livro (cuja leitura foi paralisada no ponto em que começou a mexer fundo aqui dentro), uma pífia troca de roupa (visto, agora, a blusa que você me emprestou, já em seu segundo dia de uso, não pude aceitar outra, seria demais, ou será que já me apeguei a esta aqui?), um computador, uma câmera (que, na verdade, não tem nenhum registro da viagem que acabou de ser encerrada), uma carteira com alguns trocados, um fone de ouvido, um passaporte.

Você tem uma casa inteira, uma mesa laranja bem no meio da sua sala, sete prateleiras de livros. Sento numa das quatro cadeiras da mesa, beberico um chá (peguei na cozinha, na sua cozinha), penso em fuxicar alguns de seus livros. Eu não posso. Eu nem deveria ter ficado sozinho aqui na sua casa. Como eu disse, é bonito, mas também é sádico. É dolorosamente belo ficar sozinho na sala da sua casa, encarando suas sete estantes, suas milhares de páginas lotadas de palavras escritas por gênios de todo tipo e origem – daqui do me lugar, vejo Bolaño, Faulkner, Barthes, Brecht, Gertrude, García-Marquez, putz, tantagentejunta.

Olhar seus livros é um peculiar exercício de contemplação: fico imaginando se você percorreu mesmo todas estas páginas, em quais delas você parou e teve um lampejo qualquer sobre determinado momento da sua vida, quais palavras ou frases você decidiu sublinhar, em que fase você escolheu se debruçar sobre cada um desses autores, quais desses livros já não fazem mais sentido algum para você, quais vão fazer sentido para sempre, quais você já pensou em doar ou vender para o sebo ali da esquina, quais você pretende levar pra dentro do seu caixão (desculpe a morbidez, mas, sim, me vem este pensamento), em quais você sequer tocou.

Eu estou, neste instante, sem páginas ou folhas, tentando apenas preencher, com as minhas ambíguas palavras, um retângulo branco que os pixels do meu computador conseguem produzir, através de uma centena de processos mecânico-digitais que estas bodegas de hoje em dia executam numa questão de segundos. Já você, acumula milhares de páginas (brancas, amarelas, amarelíssimas, em tipos diversos de papeis, offset, pólen, jornal, sulfite), nestas sete estantes, com uma combinação quase infinita de palavras.

Veja bem, eu não estou com inveja de você. Enquanto sento em sua mesa laranja – que combina perfeitamente com sua sala de estar e está tão despretensiosamente-no-lugar-exato-em-que-deveria-estar que quase cogito sentar no chão ou no sofá – tento traçar todas as trajetórias/efeitos/caminhos que estes livros todos podem ter despertado em você. Contemplar suas sete prateleiras é contemplar você, ou pelo menos uma imagem sua que percorre uma por uma das minhas sinapses nervosas, me entregando um raio-X seu. Estou te vendo através dos seus livros.

Fique tranquilo, eu não toquei em nenhum deles. Ainda que saiba que você não teria se importado com tal fato, a questão está toda em mim, eu é que não poderia tentar quebrar a cerca elétrica imaginária que estabeleci, na frente das suas sete estantes. Estes livros não são meus, estas histórias não são minhas, esta não é a minha trajetória, nenhum destes caminhos me pertence. Se eu quiser, eu que volte para a minha leitura paralisada, eu que tente retomá-la, ainda que muito provavelmente saiba que não terei sucesso nesta empreitada, mas em seus livros eu não tocarei. Anoiteceu completamente, o frio permaneceu, a mesa laranja continua no mesmo lugar. Eu não deveria ter ficado sozinho na sua sala do seu apartamento. É tão belo e é tão sádico.

Victor Gorgulho é estudante de artes plásticas.

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Publicado em 16/09/2014 por em Victor Gorgulho.
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