ORNITORRINCO

FRONTEIRAS POLÍTICAS SÃO DESENHOS DE UMA CRIANÇA PERVERSA NA SUPERFÍCIE IMAGINÁRIA DO PLANETA

Quando um avião atravessa mais de 18.000 quilômetros do Rio de Janeiro até Taiwan você fica imaginando quantas fronteiras cruzou. E se isso fosse uma rodovia, quantos pedágios teríamos que pagar? A Emirates tem a fama de ser a melhor companhia aérea do mundo, mas isso só se aplica da classe executiva pra cima. Voar de econômica é como voar de Webjet em qualquer lugar do mundo. No banco duro da viação São Geraldo atravessei: Brasil, águas internacionais, Nigéria, Chade, Sudão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Paquistão, Índia, Nepal, China, Butão, Bangladesh, Myanmar, China de novo e por fim Taiwan. Tudo isso estilingado a 940km/h e 11.000 metros de altitude.

Lá de cima tudo é muito abstrato, a terra parece um desenho colorido de criança, um rabisco de cores num papel do tamanho do mundo. Mas esse desenho bonito é cortado por linhas talhadas a régua e fogo, desenhos perversos que dividem povos por descuidos geográficos.

Durante o vôo encontrei uma chinesa que voltava do Brasil para Beijing. Professora de geografia ela foi conhecer universidades públicas e privadas, adorou a viagem. Disse pra ela que estava indo para Taiwan. Ela abriu um sorriso: “Oh! You are going to China, so.” E eu disse: “Tem certeza? Taiwan é China, mas não é, né?” E aí a aula mais louca que já tive de geografia começou. Pra ela não há dúvida, Taiwan não é outro país, Taiwan é China! O Tibet não sofre ocupação chinesa, o Tibet é China. Para ela essas fronteiras simplesmente não existem.

Bonito derrubar fronteiras, acabar com os muros e grades, mas não quando você faz isso querendo dominar política e culturalmente um lugar. Ao chegar em Taiwan, um lugar de muretinhas baixas e uma enorme permeabilidade entre espaço público e privado, conversei com um Taiwanês sobre o acontecido. Ele riu. Vendo que eu tinha na mala uma camisa com a bandeira de Taiwan disse que eu deveria vesti-la em Beijing pra perguntar pelas ruas de que país eram aquelas cores. A tensão entre os dois países é muito forte e Dean-e Mei, um artista taiwanês definiu ela muito bem num delicado e potente trabalho colocando um zíper entre a bandeira da China e de Taiwan.

Trabalho do artista taiwanês Dean-e Mei

Minha professora de geografia chinesa talvez não soubesse, assim como não sabia quem é Ai WeiWei, um artista plástico chinês bombado no mundo todo e que critica duramente o governo da China. WeiWei tem alguns trabalhos sobre mapas e fronteiras. World Map é um deles, um enorme quebra cabeça de um mapa mundi construído com milhares de camadas de tecido cortado. O resultado final é um enorme mapa preenchendo uma galeria, mas o processo de montagem, exposto mesmo quando se olha o trabalho pronto, fala sobre o duro caminho de construção das nações e da dificuldade de se colocar junto e de forma precisa peças tão diferentes entre si.

“World Map” de Ai WeiWei

Gosto desse trabalho de WeiWei, tirando o fato de que ele usa o distorcido mapa mundi de sempre, aquele que mostra o hemisfério norte proporcionalmente maior do que o sul e é norte orientado nas fotos. Quando o pólo sul fica pra cima achamos que o mapa está de cabeça pra baixo, mas isso é apenas uma convenção. A Terra vista do espaço não tem pra cima nem pra baixo. A famosa foto Blue Marble, tirada pela Apollo 17, tinha o pólo sul pra cima e a ilha de Madagascar a esquerda da África no centro do globo, mas a NASA inverteu a imagem no photoshop dos anos 70. Coitado do Torres Garcia, o artista Uruguaio que sempre desenhou um mapa sul orientado repetindo os versos de Mario Benedeti: Nuestro norte es el sur.

Blue Marble – Apollo 17

Olhando o mapa físico, sem fronteiras políticas é impossível não traçar com os olhos as fronteiras que conhecemos e acreditamos existirem. Ao mesmo tempo vários pontos do globo são extremamente nebulosos, não dá pra saber que país existe ali, onde começa um e acaba o outro. Cada vez mais essa é a questão do mundo. Desde sempre foi assim, mas no turbilhão acelerado que vivemos hoje, numa época na qual é possível cruzar o planeta em 27h, estamos sempre levando e trazendo pedacinhos pra lá e pra cá, criando trilhas de formiguinhas que vão alterando a forma física e subjetiva da Terra.

O sujeito que para mim definiu essa imagem das formigas de forma mais genial chama-se Yukinori Yanagi, um japonês que criou o The world flag ant farm, uma linda instalação composta por bandeiras feitas de areia colorida em caixas de acrílico conectadas por tubos. Yanagi introduz na fazendinha formigas vivas que começam seu trabalho de escavação. Com a criação de túneis entre as bandeiras as formigas realizam um trabalho de desintegração dos símbolos pictóricos dos Estados Nacionais e, melhor que isso, misturam as cores das bandeiras criando um mundo simbolicamente mixado e com fronteiras mais permeáveis.

“The world flag ant farm”de Yukinori Yanagi

Yanagi diz que o trabalho são as fronteiras que ele teve de cruzar ou barreiras que teve de se confrontar na tentativa de se definir como japonês. Não posso imaginar o quão diferente deve ser a tentativa de se definir como japonês sendo brasileiro. As duas tarefas são tão difíceis quanto, mas um conta com milênios de história registrada enquanto outra com apenas 500 anos dessas invenções. Nossa história indígena, esquecida, era formada por outras fronteiras e barreiras que sobraram de forma apenas marginal em nossa sociedade. As demarcações de terras indígenas são hoje uma forte questão no país. Você consegue desenhar alguma fronteira de terra indígena em um mapa imaginário? Eu não. Mas sei muito bem onde fica Brasília, incrustada no meio de Goiás como o Vaticano é em Roma.

Fronteiras, barreiras, pedágios, vistos, acompanham os viajantes que saem do seu território nacional. Acreditamos que essas linhas desenhadas nos mapas são verdadeiras e obedecemos essa divisão. Fronteiras são uma crença fundamentalista, ninguém as nega e o pessoal morre por elas como se fossem um dogma divino. Mas há quem resista e, num trabalho de formiguinha, vá levando e trazendo grãozinhos de um canto para o outro. Num trabalho sub-reptício vamos tentando, pixel por pixel, redesenhar o mapa político da Terra. O sonho de um mundo sem fronteiras é algo que mantenho vivo no meu coração, desenhemos um mundo sem linhas que nos separem, um mundo de pontes afetivas que nos unam.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 16/09/2014 por em Domingos Guimaraens.
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