ORNITORRINCO

NOSSO ABRAÇO DE PORCO-ESPINHO

Por que o durar parece mais importante do que a intensidade momentânea de uma experiência? É difícil aceitar o fim de alguma coisa boa: as férias, um pote de nutella, um romance. É aquela velha sabedoria popular de que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. O saldo bancário diminui, o ponteiro da balança dá um salto, o coração se retalha. E o fim acaba sendo o limite que possibilita que a gente continue a viver e a experimentar.

Falando dessa forma, parece fácil, mas nem tudo daquilo que vivemos é possível contar, explicar, entender. Existem coisas que estão além da experiência e da possibilidade da narrativa, da compreensão.

Não é muito complicado planejar novas férias, comprar uma Nutellinha de 30g e ter uma dose controlada de prazer, mas na relação amorosa acredito que seja um pouco mais complexo, já que ninguém escapa impunemente do encontro com o outro. A gente nunca sabe no que vai dar essa experiência e por isso mesmo é tão emocionante.

Há sempre alguma dor quando se encontra o outro. Em um relacionamento, o que mais me deixa angustiada é achar que não sou compreendida. Fico pensando que tudo tem que ter um sentido, um motivo. Assim, tenho a sensação de estar sempre pisando em ovos. E quanto mais eu faço cálculos e meço as palavras, mais ovos eu quebro.

Isso por pensar que teria um caminho “certo” a seguir, o qual eu deliberadamente ignoro e faço errado. Dentro desse dualismo eu esbarro com o real, e sofro justamente por classificar as experiências [amorosas] em fracassos e sucessos, quando só existem encontros, reencontros e desencontros.

Há três meses eu conheci e me apaixonei por um francês. E posso dizer que ele representava muito do que eu desejo para minha vida. Livre, corajoso, tranquilo. Viajando pelas Américas há quase um ano, ele parou na minha cidade e nós nos encontramos, reencontramos e desencontramos.

Meu primeiro contato com o estrangeiro foi arrebatador, como os bons encontros devem ser. Eu que andava às voltas para dar um sentido ao meu (des)encontro anterior, deixei-me levar no mar da sedução francesa. C’est ma vie: sou apaixonada pela França. Je ne sais pas pourquoi. Eu nunca estive lá, mas ele trouxe-a até mim.

Talvez seja a cultura, as revoluções [confesso que sempre gostei dos jacobinos e as cabeças cortadas na guilhotina. Quanta emoção!]. Ou ainda os filmes que amo, a literatura, a música, os vinhos, a manteiga…Há também o encantamento pela sonoridade da língua: Bonjour, ça va, princesse, jolie coeur, bonner nouit, fais de beaux rêves… tudo isso ao pé do ouvido, somado ao toque dele na minha pele, a suavidade de seu beijo, o calor de seu corpo no meu. Bom, como não sentir falta?

Como canta o poeta “a dor é minha em mim doeu/ A culpa é sua o samba é meu” . Pois sim, eu fiquei muito aborrecida com o fim do meu affair. E não, a saudade ainda não fez um samba em seu lugar.

Eu continuo nos porquês. Por que acabou? Foi por causa do meu corpo, daqueles cinco quilos que ganhei nos dois meses que fiquei sentada escrevendo minha monografia e que deixaram minhas pernas com celulite, barriga flácida o rosto redondo. Ah! E também porque tenho seios pequenos, quase inexistentes. Com certeza foi por isso, mas não só! Foi também culpa do meu perfume importado que acabou e eu não comprei um novo! Foi porque eu estava um pouco doente e cansada… foi porque… a lista dos porquês é infinita. Eu vou fazendo um check list de buracos a cobrir numa exigência de que não haja falhas, como se a perfeição fosse medida de felicidade.

Planejar uma viagem à França, ler e reler as 2 mil linhas de nossas conversas, ver nossas fotos, nossos vídeos, foram algumas das formas que encontrei para continuar a viver essa relação, ainda que agora só houvesse dor. Tinha que durar mais um pouco. Tinha que raspar o pote da nutella até cortar o dedo. O que eu queria evitar? O fim.

Acabou. C’est fini. Nem todo término dá pra aceitar assim sem demora. E às vezes a gente fica lá, como dois porcos-espinho que tentam se abraçar. Cada vez mais forte. Cada vez mais dor.

Gabriela Paulo é advogada.
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Publicado em 12/09/2014 por em Gabriela Paulo.
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