ORNITORRINCO

JONAS SÁ E A NUDEZ CENSURADA

Censuras, proibições, impedimentos em qualquer instância, contra qualquer tema – mas principalmente contra produções artísticas – costumam possuir a mesma função: tentar transformar certo aspecto do mundo real em algo inexistente que convêm ao censor. As possibilidades de censuras são muitas, da autocensura à censura econômica, e crer que elas um dia possam deixar de existir seria pura ingenuidade.

Há alguns casos, no entanto, que não revelam nada além da maneira infantil com que nos tratamos – e nos permitimos ser controlados pela politicagem mera que traveste certos moralismos de estimação. Recentemente, o compositor carioca Jonas Sá teve a capa de seu disco impedida, de maneira indireta porém mais eficiente e orquestrada do que se fosse proibida pelo Dops. E o motivo é tão banal que assusta: a nudez.

A história é simples. Jonas havia finalizado o seu segundo disco, Blam! Blam!, estava com o show de lançamento marcado, contrato assinado, esperando a arte final da capa e do libreto para mandar o disco para a fábrica. E a capa veio, exatamente como ele desejara: frondosamente estampando a anatomia de uma mulher nua – negra, diga-se de passagem – com tudo que se tem direito: coxas, umbigo, púbis e pêlos. Não é de hoje que a temática erótica permeia a obra de Jonas, e Blam! Blam! pretende justamente penetrar esse universo ainda mais. Daí, portanto, a razão de ser da capa que, no mundo real, não precisaria de justificativa alguma. É bonita, não ofende ninguém, e é exatamente o que o artista quis. Ponto.

Mas as fábricas de disco pensam diferente. Um a um, todos os representantes procurados pela gravadora negaram-se a imprimir o disco, pelo mesmíssimo motivo: não podem sequer pensar em desagradar os evangélicos e católicos, seus principais clientes – que poderiam deixar de utilizar os serviços de uma fábrica que imprimisse qualquer coisa que se assemelhasse com aquilo que consideram impuro, imoral ou pecaminoso. Imaginem se, sem querer, enviamos uma caixa do Blam! Blam! ao Padre Marcelo, justificou um dos fabricantes. Respondo: faria um bem danado ao padre.

O libreto do CD também é ilustrado por imagens eróticas que, segundo os tais fabricantes, poderiam ofender os religiosos que os sustentam, como os últimos clientes a venderem milhões de discos no país. Basta olhar pra ver que a capa, assim como o disco, é linda, em nada ofensiva, agressiva ou escandalosa – isso, é claro, para quem vive no mundo real, e não sob a égide de uma mitologia infantil, paranóica e autoritária. Quem teria medo ou aversão a algo tão maravilhoso quanto um corpo nu? E pior ainda é saber que não se trata nem ao menos de uma questão moral verdadeira, que poderia valer o debate, mas sim, de um posicionamento meramente financeiro – a mais eficiente das proibições. Como se não bastassem os diversos problemas que envolvem hoje a indústria fonográfica, agora é preciso discutir religião e política com os fabricantes.

De todas as contraindicações fabricadas pela igreja a fim de fazer a manutenção de seu poder e influência, a rejeição ao sexo e à sexualidade me parece a mais intrigante. Para além do fato de só haver vida através do sexo, tais proibições revelam nada além da própria obsessão dessas instituições com o que enxergam de perverso no tema – e que, através de seu poder de manipulação, é passado aos fiéis. Como explicou Freud, quando a igreja fala de sexo, sabemos mais sobre a Igreja do que sobre sexo. Enquanto as religiões representam o medo, a morte, a contração e a proibição, o sexo é de fato o outro lado da moeda: vida, desejo, prazer.

Naquele passado longínquo em que música importava, e que cada novo disco abria uma possibilidade de transformação, não foram poucos os artistas que tiveram suas capas censuradas – e, quase todos, pelo mesmo motivo que foi o disco do Jonas.

Hendrix teve a belíssima capa de seu terceiro disco, Electric Ladyland, de 1968, censurada por estampar mais de uma dezena de mulheres nuas, de todas as cores, tipos e tamanhos. No mesmo ano, John Lennon e Yoko Ono foram obrigados a lançar seu Two Virgins com um envelope marrom cobrindo a nudez de ambos. Gal Costa passou por algo semelhante com Índia, de 1973, lançado com um plástico azul que cobria a anatomia da cantora – o que, em ambos os casos, só aumentou a curiosidade e a vendagem dos discos.

Efeito similar aconteceu com Yesterday & Today, dos Beatles, que, em sua primeira versão, trazia na capa a banda coberta de carnes cruas e bonecas desmembradas. O disco foi recolhido e, os poucos que ainda possuem uma cópia original, conseguem vende-la hoje por até 40 mil dólares. A capa de Gal – de autoria de Waly Salomão – foi praticamente copiada pela banda americana Black Crowes, no disco Amorica, de 1994. E copiada também foi a reação dos censores, que não gostaram de ver um diminuto biquíni estampado com a bandeira americana revelando pelos pubianos na capa de um disco.

A lista segue: Beggar’s Banquet, dos Stones, também de 1968 – que ano! – foi banido por trazer um banheiro imundo como capa. Diamond Dogs, do Bowie, em 1974 teve a arte refeita, para que o homem-cachorro em que o cantor se transforma não mostrasse nada que se parecesse com um pênis.

E não para por aí: em 1991 o Nirvana teve de apagar o piruzinho do bebê nadador da icônica capa de seu Nevermind para que o disco pudesse ser vendido nas redes de lojas Wal-Mart e K-Mart (a nudez de um bebê ser potencialmente ofensiva é algo que assombra). Até o Strokes, já em 2001, terminou mudando a linda capa de seu disco de estreia, Is This It, nos EUA, pela forte conotação sexual que trazia. A lista poderia seguir por mais páginas e páginas.

Jonas deu seu jeito, encontrando enfim uma fábrica laica, e Blam! Blam! sairá em breve, para deleite de nossos ouvidos e olhos. Porém, para isso, quase perdeu seu contrato, precisou atrasar seu lançamento em meses – e, consequentemente, se viu impedido de trabalhar. Já era hora de entendermos que quando um discurso tenta proibir algo tão real e natural quanto a nudez ou o sexo para manter sua pureza e contundência, é necessariamente sinal de que ele não é tão puro ou contundente assim. A sexualidade e, principalmente, nossos corpos, são elementos maravilhosos da vida, e necessariamente não ofendem ninguém. O discurso que aplicamos sobre esses corpos é que é a questão. Porém, se música boa ofende, a resposta só pode estar nos anos e anos de porcaria – tanto musical quanto filosófica – a que tais censores insistem em se submeter.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.



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Publicado em 12/09/2014 por em Vitor Paiva.
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