ORNITORRINCO

O LEMA DO ARQUITETO

Uma carroça está presa no engarrafamento, seu condutor limpa o suor da testa com a manga da camisa. Passo por ela e entro no ônibus da linha 778 (Pavuna-Cascadura) na esquina da Rua Sargento de Milícias com a Rua Cícero, sento-me do lado direito, à janela. Em seguida embarca uma moça acompanhada por duas crianças, a moça carrega uma melancia e dá ordens à menina e ao menino: “Ali, senta logo ali,” ela berra, e sua voz se sobrepõe aos motores e buzinas. Do outro lado do corredor, na janela oposta à minha, senta-se uma senhora com um lenço branco na cabeça, o lenço cobre os cabelos brancos, os cabelos brancos cobrem a cabeça negra. Ela mira a paisagem – as bases de um viaduto – e é como se um feitiço a imobilizasse, ficará assim um bom tempo, sem olhar para nenhuma outra direção.

O engarrafamento persiste e o motorista, com seus óculos enormes de lentes escuras, resmunga, pragueja. Vão-se quase vinte minutos para que um percurso de trezentos ou quatrocentos metros seja percorrido. No primeiro ponto após o entrave provocado pela passagem de um candidato, uma pequena multidão entra e lota o micro-ônibus. Alguns se queixam do calor – é quase meio-dia –, outros demonizam o motorista anterior, que “passou direto, e deixou geral a pé.” Senta-se do meu lado um senhor com uma sacola de mercado: “É aqui que eu vou ficar,” ele diz, disposto a defender até a morte o lugar arduamente conquistado no meio do empurra-empurra. “Não amassa a melancia,” grita a moça um pouco mais atrás. E as crianças com ela fazem barulhos com a boca imitando o movimento do ônibus que ainda está parado, recolhendo os passageiros. Todos a bordo, bem ou mal acomodados, e la nave va.

No ponto seguinte, outra dezena de desamparados. “Ele deixou tudo pra mim,” diz o motorista, ao ouvir as novas queixas nada amigáveis contra seu colega de trabalho. “Ninguém merece,” uma voz lamenta, a moça da melancia grita para uma das crianças: “Cala a boca! Fica quieta!” O motorista ouve uma piada e mostra os dentes de carranca: “Litrão, eu quero é litrão,” ele diz, pisando no acelerador. O próximo ponto é logo ali.

“Mais uma galera aí, motorista!” diz um grito que vem do meio do tumulto. Estamos em Costa Barros, alguns tantos descem pela porta dos fundos; pela da frente, o primeiro a subir é um senhor de mais ou menos setenta anos, vestindo roupas sociais e um capacete de construção civil. “O senhor é engenheiro?” Pergunta o motorista. A resposta vem carregada por um forte sotaque pernambucano: “Eu sou arquiteto. Faço casa, colégio, igreja. Eu trabalho com paz e amor.” O motorista ri: “Tá certo,” ele diz. “Vou arranjar um chapeuzinho desses pra mim.” Ele ri outra vez, e acelera.

O arquiteto senta-se ao lado da senhora com o lenço branco na cabeça. “Eu trabalho com paz e amor,” ele diz. “Tá construindo o que ali?” Pergunta o motorista. “Me deixa perto do poste, motorista!” Ordena a moça com as crianças. “Programa de moradia,” o arquiteto responde. “Apartamento pra quatro pessoas.” Ele faz o número quatro com os dedos e chacoalha a mão no ar. “Perto desse poste aí!” diz a moça. O ônibus para. “Pega a melancia!” ela ordena, as crianças obedecem. Os três e mais alguns desembarcam. “Aí tinha que construir é um cemitério,” diz o motorista, pisando no acelerador. E o arquiteto responde que não constrói cemitérios: “Em cemitério ninguém vive,” ele diz. “Minha área é outra. Faço casa, colégio, igreja. Eu trabalho com paz e amor.” O motorista fica em silêncio. O arquiteto fica em silêncio. O ônibus inteiro se cala e a viagem segue corriqueiramente até que o senhor ao meu lado resolve perguntar ao arquiteto: “Vai construir casa aqui também?”

A resposta não tarda: “Minha área é outra. Eu trabalho com paz e amor. Na Pernambuco fiz açude, barragem, poço artesiano.” A senhora com o lenço branco na cabeça olha pela janela e contempla a praça de Rocha Miranda. O senhor ao meu lado também diz ser nordestino. “Nasci em Natal, mas vim pro Rio com um ano de nascido.” O arquiteto ressalta: “Natal é Rio Grande do Norte, vou te mostrar,” ele abre a agenda de capa preta e mostra o mapa político do Brasil, viaja pelo nordeste com o dedo indicador, parando sobre a capital potiguar. “Rio Grande do Norte,” ele constata, e o senhor ao meu lado diz ter vindo de navio, ainda bebê, em plena Segunda Guerra Mundial. Os dois falam de Hitler, do Holocausto, das tropas brasileiras na Itália, de navios afundados por submarinos. Mais à frente o senhor ao meu lado se despede do arquiteto e desembarca. O motorista nos leva até o tradicional engarrafamento do Mercadão de Madureira. Ainda estamos em Setembro, mas a senhora com o lenço branco na cabeça se indaga: “Será que vou passar o Natal aqui nessa porra?” Ela mira com olhos tristes os carros e ônibus parados, ouve com tristeza as buzinas, enche o peito murcho com as fumaças dos escapamentos.

“É muito automóvel!” diz o arquiteto. “A indústria de automóvel no Brasil cresceu muito! Começou em cinquenta, com JK. Já tinha automóvel no Brasil, desde 30, mas vinha de fora.” A senhora com o lenço branco na cabeça vira o rosto: “Já vem com conversa,” ela diz. “Me deixa em paz.” O arquiteto se cala, cabisbaixo.

Dez minutos depois a senhora se levanta. “Caramba! Pensei que ia passar o Natal aqui nessa porra!” ela diz, caminhando até a porta de saída com uma das mãos apoiada na coluna. O arquiteto passa para o lugar vago à janela, cruza as pernas, fala das Casas Bahia. “Isso é um grupo!” ele diz, e o motorista concorda. Fala de quando plantava feijão em Pernambuco. “Com sessenta dias eu tava colhendo.” A dois pontos da última parada, em Cascadura, o arquiteto põe-se de pé. “Lá se vai nosso arquiteto,” ele diz, e salta com sua agenda e seu capacete. Desço no ponto seguinte e seu lema me acompanha. “Eu trabalho com paz e amor,” repito em pensamento, e dou um sorriso bobo, vendo o ônibus sumir, após virar uma esquina.

Danilo Diógenes é estudante de Literatura e colunista do ORNITORRINCO. 
Facebook
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 10/09/2014 por em Danilo Diógenes.
%d blogueiros gostam disto: