ORNITORRINCO

ESCREVA UMA SENTENÇA VERDADEIRA E SIMPLES

“Escreva uma sentença verdadeira e simples”. Era o que Ernest Hemingway dizia para si quando sentava para escrever. Quem escreve sabe que começar é difícil. Na verdade, quem começa qualquer coisa sabe que é difícil. Nas manhãs que passava no Closerie de Lilas, restaurante onde gostava de sentar para trabalhar quando morou em Paris, nos anos 20, Hemingway se propunha a escrever uma história sobre cada coisa que soubesse. Não que tenha completado o feito – me parece impossível saber quais são todas as coisas que se sabe. Mas em “A moveable feast” (ou “Paris é uma festa”, na tradução em português), ele conta algumas: a especialização em avalanches, por exemplo. E faz com que o leitor exercite olhar para a própria vida e para o mundo.

Todo acontecimento carrega história para ser escrita. E estar fora de casa ajuda a enxergar os fatos com deslumbramento necessário. Talvez por isso Hemingway tenha se mudado tantas vezes ao longo da vida: para deslumbrar-se. Esses dias na França, de onde escrevo, recebi uma mensagem de uma amiga que dizia estar de saída para uma ilha em Marseille, a cidade onde ela está, em companhia de amigos que iriam pescar. Me comoveu pensar que:

1 – tem quem pesque;
2 – é possível, em 2014, ir a uma ilha pescar;
3 – em um canto do mundo, mais precisamente no mar Mediterrâneo, numa quarta-feira, tem quem saia para pescar o jantar.

Achei que eu deveria colecionar feitos como esse.

Ou como o impacto de andar de bicicleta na madrugada em Paris: ver as pedras da arquitetura da cidade saltarem sob a iluminação amarela, o fundo preto e o silêncio da falta de gente é algo que deve ser vivido. Bem como reparar o tempo impresso nessas paredes e nas escadas de madeira.

A experiência da comida, aqui, funciona para mim como outro catalisador de comoção. O ritual entrada, prato e sobremesa, o delírio dos franceses com a farinha, o leite e o açúcar, a figura do açougueiro e o respeito à carne são imponentes. Se nutrir, de todas as formas, até mesmo com o cigarro, que tem na França um bastião, é o savoir-faire deles. E o atrevimento do savoir-vivre: saber viver.

Apesar do apetite voraz e da paixão por comida, Hemingway dizia que só se escreve com fome. E talvez ele tenha razão. Ele tinha certeza de que as pinturas de Cézanne, Manet e Monet que via diariamente no Jardim de Luxemburgo eram obras de barrigas vazias, prática de que fez uso, às vezes sem escolha, depois que abandonou o jornalismo para se dedicar a escrever o que desse na telha. O café com leite, a manhã fria no Closerie de Lilás e sorte, que ele trazia num pé de coelho guardado no bolso da calça, era o que bastava para sentar e, se tudo fluísse como deveria ser, escrever.

Ele conta que certa vez, durante o ritual matinal, um desgraçado o interrompeu logo antes de começar a por tinta no papel: “Hem, você está tentando escrever?”. E assim ia embora qualquer expectativa de trabalho naquele dia. 

Para além da concentração, a escrita é um estado de espírito. Escrever o melhor que você conseguir é também estar no seu melhor. Não se escreve de mau-humor. E os franceses têm um remédio para ativar o deslumbramento, diminuir o mau-humor que lhes é endêmico e inflar o tempo, um elixir que é um verbo: flanar. Andar sem rumo, ver a vida acontecer e fazer dela histórias.


Clara Cavour é documentarista e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 10/09/2014 por em Clara Cavour.
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