ORNITORRINCO

QUANDO HÁ INVEJA

Uma boa parte do meu tempo é dedicada à inveja, esta, direcionada às tardes de Itapuã, às ladeiras do Jardim Paulista e à beleza do Arpoador.

Não sou, nunca fui e me parece que nunca serei uma dessas pessoas que possuem álbuns de fotografias, que guardam, com carinho, artigos de jornais, glórias de outrora ou cartas de amor. Mas não é por falta de vontade, eu as invejo. E é pelo simples fato de não ter sido virtuoso o bastante, e ter guardado um trevo de quatro folhas dentro do meu diário – de não ter tido, inclusive, um diário – e por não ter feito uma cápsula do tempo aos dez anos de idade.

Na maioria das vezes, invejo os que passam anos estudando e se formam em universidades de prestígio; os que formam famílias; os que passam anos apaixonados e os que se apaixonam diversas vezes; os que colecionam vinis e os exibem em suas vitrolas; os que tocam instrumentos e os que cantam; os que dançam; os que escrevem livros, poesias e roteiros de cinema; os que possuem relógios de pêndulo e obras de arte; os que calçam seus mocassins vermelhos, verdes e azuis; os que já assistiram a mais filmes do que se podem lembrar; os que leram mais livros do que toda a universidade de Yale e os que, inclusive, possuem bibliotecas maiores do que a do Congresso.

Sim, sinto inveja, que mal há nisso? Sinto porque gostaria de tomar café no Upper East Side três vezes ao ano; de entrar e sair das pâtisseries do 5º arrondissement; de velejar no Mar Egeu a cada verão; de tomar sorvete de baunilha todos os dias e de ir à Lucca toda primavera. Gostaria de fotografar mulheres nuas, silhuetas no Porto da Barra e minhas amantes na luz da alvorada – gostaria, também, de ter amantes – de discutir política com propriedade e de entender o que os políticos me dizem.

Sinto ainda mais inveja dos que sabem de tudo e dos que sabem de nada; dos que amam assistir ao pôr do sol; dos que caminham todos os dias na praia; dos que remam de manhã cedo na Lagoa; dos que fazem yoga e meditam; dos que possuem coberturas, duplex e triplex; dos que fazem festas e tem muitos amigos. Invejo os que passeiam com seus bulldogs franceses; os tatuados, os que tatuam e os que vivem em São Francisco; os que tem disciplina; os que leram toda a obra de T.S Eliot, assistiram à todos os filmes do Woody Allen e cantam todas as canções do Chico Buarque; os sarados de Ipanema e os jogadores de futevôlei; os que abandonam seus empregos e viajam o mundo. Invejo os que sempre citam Sartre em momentos oportunos; os que saem do armário e os que ficam lá dentro; os amantes na praça, na mesa do bar e numa cama de motel; os vegetarianos, veganos e os que comem carnes sem remorsos.

Invejo também os que trepam; os que gozam; os que se lambuzam; os que se molham na chuva; as pedras que se movem no Vale da Morte; os deuses do Olimpo; os felizes; os sadios; os solitários; os cultos; os fanfarrões; os inteligentes; os burros; os cabelos grisalhos; a juventude; o otimismo e os monges tibetanos.

Eu me invejo, te invejo e invejo, mais ainda, quem não tem inveja.

Ricardo Burgos é ator e bailarino.
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Publicado em 09/09/2014 por em Ricardo Burgos.
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