ORNITORRINCO

O SURFISTA PRATEADO

Zenn-La é um planeta do sistema Deneb, localizado na Via-Láctea, muito parecido com a Terra. Atingiu o ápice da tecnologia e do desenvolvimento, dominando a ciência, os meios sustentáveis e, inclusive, a engenharia espacial. Norrin Radd é um nobre e jovem intelectual de Zenn-La que vê com enorme tristeza o marasmo pelo qual seu planeta passa. Com todas essas conquistas e desenvolvimentos tecnológicos, os habitantes do planeta Zenn-La parecem ter perdido a vontade de seguir. Há uma espécie de spleen de tédio que fez com que a juventude entrasse em uma período inevitável de auto-destruição. Uma sociedade sem utopias.

Norrin é inquieto por natureza, uma espécie de Selvagem, profundamente atormentado pela situação que sua sociedade vem passando e, por isso, é interessado pelo passado de glórias de Zenn-La. Norrin tem uma amante que se chama Shalla-Bal e seu caminho se mostra aparentemente sem muitas dificuldades, não fosse pela profunda estranheza que toma seu desejo e a insatisfação do presente limitado.

Eis que o destino fez tudo mudar quando o semi-deus cósmico Galactus, o Devorador de Mundos, que, como o nome já diz, alimenta-se de toda a energia vital de um planeta, encontra Zeen-La. Galactus não é necessariamente um ser maléfico ou um vilão. Planetas são a sua comida e Galactus tem fome. Voraz e extremamente poderoso, como um Urano, ou mesmo Cronos, sua chegada anuncia a catástrofe. Toda a população de Zenn-La vai morrer, assim como tudo que é vivo. Seria o fim de mais uma civilização pela fome do ser grandioso.

Norrin, completamente desesperado, vendo que depois de Galactus tudo viraria pó, em um rompante visceral, oferece a Galactus um pacto trágico: Deixar o planeta Zenn-La vivo em troca de ser seu arauto por toda a eternidade. Galactus, que precisava de um cão guia, um peão para tornar sua busca por alimento ainda mais eficaz, aceita e transforma Norrin Radd, dando-lhe uma porção de seu poder cósmico, transformando-o em um ser praticamente indestrutível, com um poder avassalador, capaz de mudar as moléculas dos objetos e podendo vagar pelo universo a bordo de uma prancha em velocidades ainda mais rápidas que a da luz. Cria assim o Surfista Prateado.

Sua vida de habitante nobre de Zenn-La havia acabado para sempre. Agora, Norrin não se chama mais Norrin, agora seria um escravo que escolhe trocar sua vida de antes, seu amor, seu trabalho, seus sonhos, pela de todos que ele conhece e conheceu e todas as gerações seguintes. Norrin Radd virou um mártir clássico.

Então o Surfista Prateado começa seu trabalho, vagando pelas estrelas em busca de planetas com energia vital. Em um conhecido planeta do nosso sistema solar, como que antevendo a possível catástrofe. O Vigia, um ser que observa a história do universo sem participar diretamente, avisa ao também cientista Reed Richards, líder do grupo Quarteto Fantástico, sobre a vinda do messias da morte, o Surfista e, consequentemente, Galactus.

E fazem de tudo para maquiar o planeta Terra, mas, nada parece impedir a chegada do feixe de luz prateado. E assim que descobre o planeta azul, dá o sinal a seu mestre. Todos morrerão.

Mas parece que o que restou de sentimento no Surfista aflora quando conhece os terráqueos. É memória afetiva fundamental, quase ancestral. Talvez tenha lembrado de como era em seu planeta, talvez tenha visto as claras semelhanças que ambos os povos tinham, lembrou o que fez com que mudasse o rumo de sua vida e, como um Prometeu, volta-se novamente contra seu dono clamando a permanência da vida no planeta Terra. Galactus, o deus ex-machina do cosmos, poupa o planeta Terra da destruição total, porém, dá o castigo derradeiro ao Surfista, deixando-o preso no planeta que o sensibilizou. Anos depois, o próprio Reed Richards viria a ajudar o Surfista a quebrar a barreira invisível que o impedia de vagar pelas estrelas.

O Surfista Prateado torna-se um ser sem pátria, sem amor, sem vida, com um enorme poder e sem objetivos. Não tem inimigos eternos. Não quer destruir ninguém, não quer conquistar nada, é um imortal com nostalgia do lar, da vida que poderia ter sido e não pode ser mais. É meio trágico, meio herói, mas não é nem um nem outro. Por isso vaga, busca algo que não sabe o que é e acaba se envolvendo nas mais diferenciadas histórias do acaso. Não julga, apenas age com prudência. Está sempre pensando no certo e no errado, no bem e no mal, nas diferenças que encontra em cada lugar, em cada ser que encontra na vastidão infinita do cosmos, suas aventuras são sempre introspectivas, solitárias, e por isso é um dos personagens mais fascinantes do universo dos quadrinhos.

Pedro Lago é poeta.

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Publicado em 08/09/2014 por em Pedro Lago.
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