ORNITORRINCO

A VIDA DO FÃ DESCONTROLADO DO GRUPO CORPO

Começo, então, em 1994, quando eu tinha 12 anos, o Brasil conquistava o tetracampeonato de futebol dos EUA e eu dormia num camarote do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com a minha avó ao lado: o Grupo Corpo estreava Nazareth e, se bem me lembro, reprisava 21.

Eu ainda não conhecia a Beta, com quem passei muitos réveillons e que seria capaz de exclamar “feliz ano sim!” ou “feliz ano não!” à meia-noite. Tampouco era amiga da Luiza, que passou a me mandar mensagens dizendo “balcão nobre, né?”, quando saía a matéria de capa do Segundo Caderno anunciando novidades. A vida do fã descontrolado do Corpo é assim, dividida em anos em que uma nova coreografia é apresentada (o “ano sim”) e em anos de repescagem em que a peça mais recente é dançada ao lado de uma outra do repertório (o “ano não”). E para alívio dos agostos trágicos, o Corpo sempre passa pelo Rio nessa época, inédito ou não.

De 94 para cá eu não cochilei mais: alternei aplausos efusivos com outros nem tão empolgados, bati a cabeça no teto da galeria do Municipal quando levantei para aplaudir o Lecuona pela primeira vez (parte do teto ali é rebaixada, vocês já repararam?), dancei o “Xique-xique” do Tom Zé na cadeira, cantarolei baixinho melodias, chorei, invejei aquelas bundas maravilhosas que as bailarinas empinavam pra todos os lados, invejei todos os peitos de pé envergados das mesmas, colecionei dvds fortunosos, me esgoelei no carro cantando o “coro das mulheres românticas” com a Tetê Espíndola na trilha sonora de Santagustin, fui atrás da poesia de Gregório de Matos e de Drummond, planejei com a Luiza encontrar uma costureira que plagiasse para nós as saias e malhas estampadas de Sem mim, fui terminantemente contra a Beta quando ela resolveu passar mal e tomar um Dramin quando assistimos o Ímã (que por si só já é um pouco sonífero) no Teatro Alfa, reconsiderei minha amizade com gente que não gosta do Corpo e até na padaria cujo projeto arquitetônico foi feito pela Freusa Zechmeister (a figurinista do grupo) eu fui, em BH. E sim, também fui ao restaurante cujo projeto idem, e voltei para o Rio convencida de que a Freusa está diretamente implicada no sucesso de todas aquelas comidas – do suflê ao brownie industrializado.

* * *

Em todas as entrevistas e depoimentos que concede, assim como em todas as coreografias que desenha para a companhia a partir dos anos 80, Rodrigo Pederneiras se mantém fiel à ideia de que sua dança é uma música. Composta especialmente para o clã mineiro – por nomes como Arnaldo Antunes, José Miguel Wisnik, Caetano Veloso, Tom Zé, Marco Antonio Guimarães com ou sem o Uakti, entre outros – numa tradição que começou em 1975 com Maria Maria, do Milton Nascimento, quando Pederneiras ainda era bailarino, essa música é um ritmo que começa no quadril.

Coleção dos programas dos espetáculos do Grupo Corpo. 

Dessa dobra saem quiques, saltos, duos, caminhadinhas com joelhos flexionados e rebolados que terminam com pulinhos e uma cabeça atrevida apontada para cima. Dessa dobra, também, vem o gancho para a crítica e a repercussão mundial que o Corpo atrai, e que o coloca como representante máximo de uma ideia de brasilidade. Capitaneados pelas ancas, os bailarinos mais que clássicos quebram linhas rígidas em gestos e sequências sinuosas com um fôlego que, assim como a coreografia, parece inexaurível e muito, muito brasileiro.

Muitas palavras se colaram à imagem da companhia, dentre elas, exuberância, sensualidade, autenticidade, precisão, atrevimento, ousadia, musicalidade, ritmo… Ou seja, gostosura.

Também pode-se falar em alegria. O resultado da música dançada pelos movimentos característicos de Pederneiras (destaco aquele em que, com as mãos apoiadas na cintura, os bailarinos projetam o quadril pra frente em saltinhos vigorosos, uns virados para os outros como se brincassem numa provocação mútua) vestidos em malhas coloridas e banhados por luzes cuidadosas foi quase sempre alegre para mim. Por isso o meu assombro quando, ao completar 20 anos de tiete, saí do teatro com uma ponta de decepção, cobiçando uma bancada aveludada onde eu pudesse discretamente dormir.

* * *

A temporada de 2014 trouxe Triz, a mais nova, e Onqotô, coreografia de 2005 que assisti pelo menos 3 vezes e cujas músicas da dupla Caetano e Wisnik são das mais tocadas na minha sala. Não são minhas peças preferidas, mas confesso que fui gostando um pouco da música do Lenine e encontrando elementos que me deixaram curiosa para saber o que vem pela frente. Taí uma das graças de acompanhar o Corpo, também, perceber o amadurecimento de gestos e notar como algumas mudanças sutis alteram sequências e frases. Ao mesmo tempo, olhava aqueles bailarinos e sentia falta de alguma coisa que ficou muito evidente no segundo ato.

Onqotô entrou gasto, mirrado, e já na segunda faixa eu me perguntei quem dali daria conta da porradaria que é a “Mortal loucura”. Pelos meus cálculos só havia uma possibilidade, mas são precisos 4 bailarinos para executar o trecho, e então entendi. Falta carne e curva dorsal. Os cambrés já não são os mesmos, as bundas já não hipnotizam, os cabelos já não têm mechas. Talvez o Corpo mítico, aquele que performou entre 2002-2006, tenha prejudicado o elenco de agora, ou talvez ele seja mesmo desprovido daquela gostosura fundamental. Em vários momentos achei que os novos intérpretes estavam esbaforidos, correndo atrás dos mecanismos de seus corpos para então chegarem atrasados nos passos. Ao fim da noite, diante da fila de bailarinos ovacionados de pé, eu era de novo aquela menina de 12 anos: confusa ao acordar, ciente de que seria preciso voltar para entender.

Liguei para a Beta imediatamente, é claro, e ela foi taxativa: faltou élan. Suspirei, desencontrada que estava da Luiza.

Eu adoro gostar das coisas, e ando com a impressão de que boa parte delas hoje quer provocar, incomodar, tirar da zona de conforto. Sentir alegria com uma dança, portanto, surge para mim como uma possibilidade quase subversiva, sobretudo quando isto envolve um modelo disciplinatório contra o qual cada vez mais nos insurgimos.

Encerro estas linhas aos 32 anos, testemunha do tetracampeonato da Alemanha, sozinha na plateia gelada do Municipal, meio abalada com esse bode que baixou num lugar que me parecia tão seguro de sorrisos. Para que tudo não pareça dramático para uma ou três admiradoras fanáticas do Grupo Corpo, e porque “o coração é do sonhar” (cf. Tom Zé em Santagustin), não custa dizer: 2015 é “ano sim”.

Julia Wähmann é editora de literatura e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 08/09/2014 por em Julia Wähmann.
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