ORNITORRINCO

RACISMO E PUNIÇÃO NO FUTEBOL

Nesta quarta-feira, 03 de setembro, o Grêmio levou uma punição severa do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) e está excluído da Copa do Brasil de 2014 sem o direito de jogar a partida de volta contra o Santos na Vila Belmiro. O time ainda pode recorrer ao pleno do STJD, mas os 5 a 0 na primeira instância mostram que é difícil a decisão mudar.

O episódio que gerou tudo isso se deu na quinta, 28 de agosto. Aos 42 minutos do segundo tempo do jogo, na arena do Grêmio, torcedores que estavam atrás do gol do goleiro Aranha, do Santos, xingavam o atleta. De xingamentos ditos normais para um estádio de futebol (se existe isso) a coisa descambou para a discriminação e o racismo.

Ao ser chamado de “macaco”, o goleiro não se aguentou e interrompeu o jogo, chamou o juiz e relatou tudo. Virou-se indignado para a torcida, bateu no braço, cuspiu no chão. O jogo seguiu e terminou Grêmio 0x2 Santos.

Parecia apenas mais um caso de racismo, entre tantos no futebol, que seria esquecido no dia seguinte, mas a história, felizmente, tomou um vulto muito maior. Digo felizmente porque acho um absurdo extremo qualquer tipo de discriminação, seja ela racial, de gênero, religiosa ou o que quer que seja, isso é inadmissível. A TV flagrou alguns torcedores, em especial uma torcedora, que chamou Aranha de “macaco”. O rosto transtornado da torcedora desesperada frente a derrota é típico e vemos todos os dias nos estádios do país, mas a clara leitura labial do grito de “macaco” é revoltante. Assim como a condenação sumária feita por parte da população que, fazendo justiça com as próprias mãos, apedrejou barbaramente a casa da menina.

O goleiro Aranha deu entrevistas lúcidas. Indignado, falou sobre o Brasil e o preconceito racial, sua história de vida e citou o “discurso do sonho” de Martin Luther King Jr: o sonho de que um dia ninguém mais seja julgado pela cor da sua pele, mas sim pelo conteúdo do seu caráter. Compartilho desse sonho com ele.

RACISMO
O bom goleiro do Santos se chama Aranha em referência a uma lenda do futebol, o goleiro Yashin, o Aranha negra, que ganhou esse apelido por se vestir de preto e ter reflexos rápidos em defesas geniais. Mas o próprio apelido do goleiro me faz pensar. A homenagem é uma honra – ser comparado a Yashin é para poucos – mas Yashin era um russo branco que se vestia de preto, já o nosso Aranha é negro, e suponho que o apelido tenha começado por aí. Duvida?

Muitos jogadores brasileiros têm apelidos assim. Diamante Negro, Negueba, Petróleo e Grafite são alguns exemplos. O último esteve envolvido em um caso recente de racismo quando um argentino o chamou de macaco. O argentino foi preso – parece ser mais simples colocar um gringo como racista e reprimir mais uma vez nossos próprios defeitos. Grafite, assim como os outros, tinha um apelido que remetia a cor da sua pele. Mas o futebol tem o poder de, em alguns momentos, perverter esses preconceitos e transformar o que era injuria em potência. Assim se deu com esses jogadores, assim aconteceu com o Flamengo, chamado Urubu de forma depreciativa, mas acabou transformando o bicho em seu símbolo.

Outro grande goleiro, Barbosa, que tomou o gol do Ghiggia em 1950, era negro. Por causa daquele gol, que nem foi culpa do Barbosa, criou-se um preconceito de que goleiro negro não presta. O Júlio César é branco e tomou 7 gols na semifinal da Copa do Mundo no Brasil. E agora? Goleiro branco também não presta? Futebol não tem nada a ver com cor da pele, tem a ver com a qualidade dos jogadores em campo e com o sobrenatural imponderável desse esporte.

PUNIÇÃO
O Superior Tribunal de Justiça Desportiva é um tribunal estranho. Talvez devesse ser chamado de Sobrenatural Tribunal de Justiça Desportiva. Diferente de qualquer outro tribunal ele é apenas um órgão da CBF que julga casos desportivos. Por isso vemos, volta e meia, uma briga envolvendo o STJD e a dita justiça comum.

Essa vinculação com a CBF acaba transformando suas decisões em algo mais politico e clubista do que propriamente técnico, como deveria ser. Muito suscetível ao clamor popular e midiático, o tribunal toma muitas decisões descabidas, mas dessa vez acho que acertou. Em parte.


Esse episódio suscita muitas questões sobre o Brasil. A primeira fala do nosso mito da democracia racial. O lindo pensamento atribuído a Gilberto Freyre, que falava na verdade sobre mestiçagem, é mais um sonho, como o de Luther King, do que realidade. Freyre, entre tantas outras coisas, escreveu o prefácio do importante livro O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho, desejando um país sem distinção de cores e classes através do futebol. Afinal, se não tivemos leis separando brancos e negros, como nos EUA, tivemos um racismo reprimido, recalcado, que em algum momento irrompe de maneira estupida. Dizer-se racista é coisa mal vista, agir como tal…

Torcedora do Grêmio é flagrada em ato de racismo contra o goleiro
do Santos, Aranha, durante uma partida no Rio Grande do Sul

A segunda é a seguinte: ser negro no Brasil é foda. Um amigo negro estava naquele ônibus no qual um policial federal matou dois assaltantes a bala há poucos dias. O medo do meu amigo não era uma bala perdida, era ser confundido com um assaltante por ser negro. Eu que sou classificado como branco jamais teria. Não é fácil.

Outra coisa que esse episódio expôs é como lidamos com o preconceito, respondendo com mais preconceito. Ouvi muitas piadas sobre como os gaúchos não gostam mesmo de aranha, numa referência ao estereótipo do gaúcho viado, tão preconceituoso quanto as injúrias racistas.

A ideia de justiça com as próprias mãos também voltou a tona no apedrejamento da casa da torcedora identificada como racista. Tão brutal quanto prender um ladrão num poste. Calma galera, o estado de direito está aí pra não deixar a gente cair na barbárie.

Sobre a punição acho algumas coisas. Identificar os torcedores que proferiram as injurias racistas é perfeito. Foram todos impedidos de entrar em qualquer praça esportiva por 720 dias. Devemos separar os imbecis do meio do pessoal que gosta de torcer. Temos que parar de tratar as torcidas como uma massa única que é punida enquanto os indivíduos que praticam atos criminosos em nome de um clube saem de boa e voltam no domingo seguinte. A punição ao árbitro, que não relatou nada do ocorrido na súmula, é outro acerto, 90 dias foi pouco. Mas sou contra a punição ao clube. Embora seja exemplar e essa tenha sido a intenção do tribunal, com a empurradinha de que o Grêmio tomou de 2 em casa e que tava difícil reverter o resultado na Vila Famosa. Penso que essa decisão reafirma a ideia de punição coletiva que exime os indivíduos de suas responsabilidades, pune quem não teve nada com isso e generaliza a questão. Então todo gremista é racista agora? Para tudo porque não é assim.

FUTEBOL
Por fim vejo as arenas da Copa e esse pensamento do legado. Talvez o pessoal ache que com estádio novo você reeduca o torcedor. Esse episódio mostrou que não funciona desse jeito. Os estádios elitizaram o futebol e fizeram apenas um corte de classe social. O perfil do torcedor mudou, mas não será num estádio bonitinho e caro que ele aprenderá o que é educação e a dor de quem sofre o preconceito. Isso se aprende na escola e não só em escolas bem reformadas, mas com bons professores capacitados e ganhando bons salários.

Me solidarizo com a dor do goleiro Aranha, ela deve ser uma dor de todos nós. Um país que foi construído também por mãos negras, vindas da África, não pode aceitar o racismo. Um país que, segundo o censo do IBGE, vem aumentando o número de casamentos inter-raciais deve reafirmar cada vez mais sua potência de mestiçagem. Foi essa mistura que, desde Friedenheich, nos transformou na maior potência do futebol mundial. Mas parece que isso só é valorizado na vitória. Precisamos redescobrir o valor dessa mistura, dessa mixagem, como relatou Mario Filho em seu belíssimo livro: “O povo descobrindo, de repente, que o futebol deveria ser de todas as cores, futebol sem classes, tudo misturado, bem brasileiro”.

Que o sonho de Luther King, Mario Filho e Gilberto Freyre nos guie. I have a Dream.

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Texto escrito com colaboração de Pedro Birman

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 05/09/2014 por em Domingos Guimaraens.
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