ORNITORRINCO

O ESCRITOR E SEU NOVO ROMANCE

Pronto, o escritor se sente pronto para começar a escrever seu novo romance. Seu novo romance é, no caso, o seu primeiro romance. Para a tarefa, ele pensa que deve largar seu trabalho na repartição pública afim de ter mais tempo para escrever. Afinal, como vai conseguir escrever se ele passa a maior parte do tempo enfiado entre papelada burocrática, carimbos e fotocopiadoras? Conseguiu juntar um dinheirinho suficiente e acha que dá pra passar três meses enfiado na escritura do seu novo romance.

Pronto, após o afastamento do trabalho, o escritor sente que agora tem tempo de sobra para começar a escrever seu novo romance, que é – será – o primeiro. Já tem o enredo todo na cabeça, início, meio e fim, personagens, curva dramática, desfecho, tudo planejado, e está em seu apartamento, andando de um lado pro outro, na terceira xícara de café, excitado com a ideia de finalmente colocar a história no papel, quando seu amigo, um poeta desempregado convicto – em ser desempregado e poeta – descobre que o escritor largou o emprego e lhe convida para uma noite no bar. O escritor, claro, não recusa o convite do amigo, afinal de contas a noite pode lhe trazer muitas inspirações. Ele considera seu amigo poeta um gênio e conversar com ele pode abrir muitas janelas, ou seja, seria uma noite em nome do seu primeiro novo romance.

Acontece que as noites no bar se tornam uma rotina e o escritor se vê bebendo todos os dias, voltando pra casa entusiasmado com as novas ideias que surgiram, mas no dia seguinte não tem capacidade de pôr no papel nada do que pensou – e esqueceu.

Além disso, o escritor percebe que seu computador está velho, que vai precisar de outro e acaba comprando um de uma marca cara porque o vendedor lhe disse que era o melhor, e compra também um tablet porque o vendedor lhe disse que era ótimo para ler.

O escritor percebe que suas economias estão acabando e que vai precisar de um adiantamento da editora. O problema é que ele não tem editora. Tenta ligar para algumas, informando que tem uma ideia para um romance, que é muito bom, mas nenhuma editora aceita sua proposta. Então acaba pegando uns trabalhinhos que lhe dão uns trocados ao mesmo tempo que ocupam os dias no quais ele deveria estar se dedicando ao seu novo romance, e por isso, acaba adiando seu prazo em dois meses.

Após ter concluído todos os trabalhinhos, o escritor se sente pronto para escrever o seu novo romance, só que percebe uma certa dificuldade em manusear o novo computador e decide que é melhor começar a escrever com papel e caneta enquanto vai aprendendo a informática. Compra um caderno novo e pensa que precisa de um lugar bacana pra escrever, um parque, um café, uma biblioteca.

O escritor está pronto para sair e começar seu novo romance mas perde umas horas respondendo e-mails e conferindo uns links nas redes sociais:

– Lista das celebridades que ganharam mais dinheiro no ano.
– Lista dos programas de televisão da década em que foi adolescente.
– Fotos de mulheres peladas.
– Fotos de mulheres peladas e peitudas.
– Fotos de mulheres peladas, peitudas e peludas.
– Entrevista com seu escritor favorito, sobre o seu novo romance.

O escritor se angustia, se sente um merda, pois não consegue prosseguir com seu projeto. Enquanto isso seus amigos estão curtindo festas, outros viajando de férias, outros ganhando uma grana no mercado financeiro e ele está ali escrevendo seu primeiro romance, ou melhor, não escrevendo seu novo romance.

Mas tudo bem, ele acredita que não será uma obra comum, mas sim um livro que vai chocar o mercado literário. Após ser publicado, ele sabe que com certeza seu livro será uma febre, ele se imagina sendo convidado para feiras e festas de literatura, dando entrevistas em programas, ganhando prêmios, e assim sendo, nunca mais vai precisar voltar para a repartição pública. Seu novo romance vai causar um frisson no mercado editorial e nos leitores. A partir daí ele só terá que escrever novos romances.

Para isso basta sentar e escrever, e não vai demorar muito, escrever é a parte fácil, o difícil já passou, agora ele se sente pronto e ele vai começar.

Mas aí o telefone toca.

Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Informação

Publicado em 03/09/2014 por em Gabriel Pardal.
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