ORNITORRINCO

DESDE QUE A LINHA DO HORIZONTE SE DISSOLVEU

Em 2007, não havia Google Maps no celular e as distâncias eram maiores, mais demoradas, a gente se perdia mais. Hoje, teleguiados, nos achamos sem saber onde estamos; dizem de cima “in 200 meters, at the roundabout, take the second exit” e obedecemos. Quando a voz se cala por muito tempo, paramos para ver se está viva a pessoa lá do outro lado. Se, por descuido, não erramos a rua.

Desde que ultrapassamos a linha do horizonte, que limitava o campo das coisas visíveis ao alcance dos nossos olhos, que nossa orientação espacial mudou. A temporal também. Não que a perspectiva linear fosse a verdade, era também uma abstração, já que a terra é redonda, mas linearizava o tempo, passado- presente-futuro. Hoje vivemos como no espaço sideral, vários tempos simultâneos, flutuando, ausentes de gravidade. Nós, as coisas e pessoas que atravessam o caminho da visão satélite. O chão não é mais nossa base estável, de onde não passaríamos. Às vezes as pessoas próximas aos nossos corpos até gostariam de ficar mais tempo ao lado, mas o fluxo não deixa. O movimento segue em busca de novas vistas aéreas.

Estamos em queda livre junto com os drones. Pessoas se transformam em coisas e vice-versa, chego a sentir falta da voz do GPS soletrando as ruas em inglês e eu tentando decifrar pro alemão, uma brincadeira diária na bicicleta.

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Todos os convites são para flutuar. A exposição do Harun Farocki no Hamburguer Bahnhof, em Berlim, traz diversas projeções de vídeo ligadas simultaneamente, deixando-nos fluir até o que mais nos interessa, tirando-nos do lugar de mestres que detêm todo o conteúdo de uma obra, nos colocando como parciais, pegando uma coisa e outra de tantas, formando nosso próprio jogo de significados. Os trabalhos são vídeo games operados pelos soldados antes e depois de irem para a guerra do Afeganistão. Antes de partir, eles dirigiam os tanques pelas dunas afegãs, enfrentando minas implantadas virtualmente, dando um rolê virtual pelas cidades onde a guerra se passaria. Para conhecer o terreno, os horários de mudança de luz. Na volta, refaziam seus percursos no vídeo game para se curar dos traumas. Repetiam as histórias de momentos terríveis para que talvez começassem a acreditar que não era nada mais do que mais uma partida.

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Instalei um novo aplicativo de mensagens que tenta reconquistar ou reformular ou valorizar as trocas presenciais. O sujeito manda uma mensagem para outro e quem recebe é uma outra pessoa, a que estiver mais próxima do destinatário. Esta tem o dever lúdico de transmitir o recado pessoalmente para quem deveria de fato receber a mensagem. Uma espécie de alargamento dos caminhos para ver se alguma coisa acontece. Baixei de curiosa, o aplicativo chama-se Somebody, e é uma invenção da multi-artista Miranda July. De início pensei que não teria ninguém usando isso, mas para minha surpresa, mil mensagens flutuaram para eu entregar. Essa parte ainda não testei, os escritos já estão elaborados, metalinguísticos; o povo já tá zoando o próprio app e eu nem entendi como funciona direito.

Como sou restrita a mais contatos na vida presencial do que virtual, 36 pessoas aparecem na minha timeline. Fico imaginando a inflação de quem usa o Grindr, o Tinder e tantos outros que nem conheço. Quantos dados cruzados, sugestões de novas formas de família. Há notícias de pais casados e com filhos, mas que dormem em quartos separados e têm também uma vida sexual à parte da relação. Há também os filhos de três e outras maravilhices. Sem contar os casamentos entre amigos para conseguir visto de permanência. Parece que agora a Dinamarca é a nova Las Vegas europeia. Os casais precisam passar somente três dias no país para poderem se casar e viver legalmente. Descobriu-se este algum lugar do mundo onde prestam atendimento de união acelerado, mais adequado à realidade. A gente muda de cidade, de país, compra passagem aérea em promoção, mas as leis continuam rígidas, como se houvesse estabilidade de sentir.

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Fui nadar no Teufelssee num dia de verão 20 graus em Berlim, convém não desperdiçar. Tenho feito o exercício de me esparramar em qualquer resto de sol largado na calçada numa tentativa desesperada de acumular vitamina D. Nesse lago, os alemães praticam o FKK, Freie Körper Kultur, que deveria ser um costume mundial. Infelizmente, tem praia onde não dá nem para pagar um peitinho. E somos obrigados a sensualizar no mistério (tem o lado legal também, mas seria muito mais se em qualquer parte pudéssemos escolher a onda, pelado ou sensualizando de biquíni).

A primeira coisa que fiz foi tirar o maiô, correr pelada pela grama e me atirar na água gelada, nadando até o deck feito com material especial para sugar o sol e deixar os corpos nus quentinhos no meio do lago. Como se não houvesse amanhã, achando tudo muito natural. Essa história de que ninguém nem liga, nem observa, é mentira. Todo mundo se olha discretamente. Olhei todos os paus de diferentes tamanhos, os pelos pubianos ruivos, o cara que foi pro lago de skate, canguinha amarrada e mais nada, os corpos lindos das senhoras. Acho que nem o corpo da minha avó eu já vi inteiramente nu nos tempos recentes, então eram mágicas aquelas bundinhas sem muito volume, a pele gasta, solta, alegre, tomando sol por inteiro. E tinha um homem sem pau (ou era uma mulher sem peitos?), com cabelo descolorido, pele tatuada, um andrógino autêntico. De corpo e alma. Reinventando junto comigo as formas de se relacionar na falta de gravidade, abraçada aos drones.

Peguei-me falando que queria uma casa com jardim, vendo as crianças brincarem da janela. Olhei para fora e me dei conta de que eu já tinha a tal da casa, com jardim inclusive, e até crianças gritando em turco.

Ana Hupe é artista visual.

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Publicado em 03/09/2014 por em Ana Hupe.
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