ORNITORRINCO

MEMÓRIAS DE PORTUGAL

Há muito penso que conhecer o país de alguém favorece uma maior compreensão deste alguém. Num paralelo talvez não tão exagerado, fui a Portugal esperando entender um pouco mais sobre o Brasil.

Para alguém nascido, criado e vivido no Brasil, Portugal é o que na cultura pop chamamos de prequel, isto é, uma sequência, continuação, que na verdade relata acontecimentos cronologicamente anteriores à obra original.

Pois uma vez na terrinha, é fantástico notar inúmeras semelhanças entre nós e eles. E no processo, perguntar, ‘será daí que vem?’.

O trato afável e prestativo, seja com alguém pra quem se pede informação na rua ou para o garçom bom de papo, me parecem muito familiar. Assim também o é o comportamento expansivo e barulhento que observo nas cidades grandes, pequenas e praianas por onde passamos.

Também por mais de uma vez, dei com um certo ‘jeitinho português’ pela frente. Aqui preciso dizer que acho o desrespeito pelas regras um problema sério e complexo no modo de vida brasileiro. Mas também acho que por vezes trata-se de bom senso. É proibido comer no Oceanário de Lisboa. O segurança nos avisa, repreendendo pela banana que minha esposa come, mas logo diz que podemos terminar o lanche há alguns metros dali, ‘onde não há câmeras de vigilância’.

Em duas cidades mais turísticas vejo um ou dois flanelinhas. Em mais de uma ocasião, encontro um monte de carros em estacionamento irregular. Nas cidades maiores, perdi a conta das vezes em que me ofereceram cocaína e haxixe na rua.

Mas é a arquitetura que me chama atenção. As ruas estreitas, as calçadas de pedras (nem todas inteiras, vale dizer), as igrejas barrocas, os palacetes neoclássicos. Está tudo lá, como cá.

E finalmente entendo de onde vem o modo como um homem como o meu pai se veste. E talvez como o seu pai, o seu avô. Morando há um ano em Nova York, cidade habitada por gente de todo o mundo, muitas vezes consigo identificar brasileiros como eu apenas pelo comportamento, pelo modo como falam inglês ou pelas roupas que estão vestindo. Assim como não é muito difícil identificar um estrangeiro passeando em terras brasileiras.

E no que diz respeito à maneira de se vestir, a familiaridade entre Portugal e Brasil é incrível. Seja nas ruas e nos corpos dos locais, seja nas vitrines.

Em algum nível – e perdoem-me se isso soa exagerado – é quase como uma amostra imaginária de um pedaço do Brasil na Europa.

Este sentimento se amplifica com a identificação linguística. Como é reconfortante chegar a outro país, num outro continente, em que falam a mesma língua que você. Num modo de falar às vezes engraçado e bonito na maneira como palavras simpáticas como miúdo (em vez de jovem ou pequeno), bocadinho (no lugar de pouquinho), entre outras que soam bem aos ouvidos.

Sem contar o que batizei de permissividade lírica, quando os portugueses usam expressões que no Brasil ferem a língua, mas que cá soam quase como poesia popular. E assim, ouço sorridente um ‘mais pequeno’ ou ‘mais grande’ aqui e ali, ou um ‘obrigado nós’, em vez do ‘nós é que agradecemos’.

Os portugueses parecem possuir uma lógica própria no raciocínio. Talvez seja daí – e da vontade de dar uma sacaneada no colonizador – que venham as piadas.

– O que há do outro lado do rio? – pergunto a uma menina em Lisboa, de frente ao Tejo, referindo-me a parte urbana que vislumbro do lado de lá.

Ao que ela responde:

– A outra margem.

É como se levassem ao pé da letra cada frase ou questão. Talvez por isso, muito seja chamado pelo que de fato é. A rua da praia chama-se ‘Rua da beira da praia’. O salva-vidas eles chamam de ‘nadador salvador’. A região além do rio Tejo tem o nome de Alentejo, e por aí vai.

Os nomes em si se tornam uma atração à parte. Na estrada passamos por placas anunciando vilarejos como Aldeia das Gordas, Aldeia dos Cunhados, Orelhudo, e o campeão: Almoçageme.

Ainda diante do efeito do modo de falar português, ponho-me a pensar que a fala brasileira realmente parece um tipo de evolução da fala portuguesa, com a informalidade ganhando espaço e o relaxamento do aparelho vocal no ato de processar o discurso. Nós abrimos mais a boca, articulamos mais as palavras e diminuímos os atritos na emissão dos fonemas (ouvi muitos portugueses dizendo ‘xinquenta’ em vez de cinquenta, por exemplo, ou chiando no uso do ‘sc’ como em ‘piscina’ ou ‘seiscentos’).

Tendo estado em outras partes da Europa, não deixei de notar um sabor de decadência por onde rodei em Portugal. Por um breve período, os portugueses dominaram os mares, e consequentemente, o mundo. Mas os curtos tempos de glória não foram tão bem preservados como observo em muitos dos casarões e palacetes antigos nas ruas e becos das cidades.

Todo esse clima de decadência se acentuou com a crise econômica pela qual passa o país. Em abril, a taxa de desemprego chegou a 14,6%. No primeiro trimestre do ano passado, 42% dos jovens estavam sem trabalho.

Com a recessão, profissionais portugueses qualificados, famílias inteiras (incluindo crianças em idade escolar) e ainda pessoas com idade avançada, empregos duradouros e sem condições de arcarem com compromissos estabelecidos, emigram em busca de melhores condições de vida em outros países.

São dados de um relatório do Governo referente a 2013, atestando inclusive que Portugal é o país da União Europeia com maior emigração, com os emigrantes (2,3 milhões de pessoas) representando um quinto da população residente (10,5 milhões).

No total, viajamos 20 dias, cruzando (boas) estradas portuguesas com um pedágio atrás do outro, sendo ultrapassado por muita gente em altíssima velocidade – muito acima do limite – e passando, entre as cidades maiores, o litoral e as pequenas vilas, por mais de 30 cidades (sem correria, o país é pequeno).

Na despedida, imagino que Portugal, como excelente anfitrião, me dissesse ‘obrigado por ter vindo’.

Obrigado eu.

Lucas Gutierrez é ator, escritor e jornalista.
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Informação

Publicado em 02/09/2014 por em Lucas Gutierrez.
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