ORNITORRINCO

O MOMENTO QUANDO DECIDIMOS ENFRENTAR

Olá. Como vai? Quero logo iniciar isto com clareza total: já comecei assim, falando direto com você, leitor, como se fosse uma conversa, para tentar te convencer a me ouvir. Mas não é só por isso. É também porque eu quero te garantir, antes de tudo, que para mim este texto tem as palavras mais honestas que consegui escrever. E em se tratando de palavras, isso é tão difícil quanto fazer voto de silêncio. Mas em vez do silêncio, resolvi dar pontos nos meus pensamentos e costurar frases com a paciência necessária para que tudo ficasse transparente e assim eu pudesse contar uma coisa, só uma coisa – e meu esforço é também para que o que eu diga venha à tona sem rodeios, sem deslumbre, sem fetiche, como se você e eu pudéssemos, pela translucidez da linguagem, encostar nosso pensamento ao que está dito aqui. Para isso eu preciso contar com você. Afinal esse exercício não se faz só na escrita, ele depende igualmente do momento da leitura.

Você que está me lendo talvez se sinta inclinado a ler o que vou dizer apenas como um texto, como uma criação literária (não necessariamente real, documental), por isso gostaria de dizer agora: o que digo neste texto é exatamente o que me toma e o que me faz viver e tremer, é ao mesmo tempo o que me alegra e o que me entristece. E ao dizer isso publicamente, quero, da minha parte, saber como é que se faz para viver desse jeito precário que eu sou, se existe algum padrão humano nas minhas inquietações aqui ditas – porque, na verdade, tenho esperança de aprender a conviver com minhas limitações através da troca, através da visão do que há de mim nos outros e do que há dos outros em mim, e enfim poder viver melhor e descobrir que o enigma que me constitui não passa da mais banal experiência de estar vivo. E que, por fim, todo o meu sufoco, inclusive este, de tentar te dizer algo com exatidão, é uma preocupação desnecesssária, incoerente com a simplicidade do mundo. E mesmo assim, talvez por limitação minha, estou falando com você em vez de trancar estas palavras na escuridão do que nunca digo a ninguém, e em vez de fingir que você não está aí. Eu preferi me esforçar. Aceito os riscos da exposição porque sinto necessidade e urgência de me dizer a você.
Então agora eu gostaria de te convidar a se livrar daquela curiosidade que nós, quando lemos, temos em saber se tudo o que estamos lendo é real ou não. Apenas imagine que por um breve período você não vai desconfiar do tom com que alguém lhe fala – neste caso, eu mesmo. Acredite que tudo aqui é real: que as palavras aqui escritas por mim são reais e que refletem um pensamento real meu. Se puder, desfaça-se de qualquer desconfiança por um breve intervalo e se exponha comigo através da movimentação que estas palavras puderem fazer entre mim e você, por dentro de nós mesmos, atravessados pela busca da compreensão exata das coisas. Conto com a sua destreza e com a sua capacidade de concentração em uma ideia. Sim, estou te convidando a se desfazer. A ficar sozinho. E, por estar sozinho, estar comigo aqui. Sei que falo mais ou menos como um mestre de cerimônia zen que se esvazia de falsa humildade para poder convidar seus discípulos a entrar em meditação, mas se é assim é porque aqui está a mais pura honestidade que pude alcançar nos últimos tempos, numa fase crítica da minha vida, em que, não posso negar, tudo está sendo colocado em jogo. Mas então, se mesmo assim seguirmos juntos daqui para a frente, poderemos nos comunicar quase que por telepatia, pois a verdade exata, ao ser lida, não é uma espécie de milagre da comunhão?
Antes de começar a dizer exatamente o que pretendo dizer, gostaria de reproduzir um diálogo anedótico no qual tomei parte, porque ele pode dar luz ao que tenho a dizer aqui, e que vou dizer ainda, nas linhas seguintes, até chegar ao fim deste texto. E quando eu disser o que tenho a dizer, eu e você perderemos nossos nomes próprios e seremos simples.
De vez em quando eu mostro o que escrevo a amigos próximos. J. é uma dessas pessoas. Escritor e ativista, cineasta e tradutor, espécie de padrinho que tive a sorte de ganhar pouco tempo depois de me mudar para São Paulo. Nós – eu, ele e sua enorme cachorra, com quem brinco feito criança – nos encontramos com uma frequência nem muito forte nem muito remota, mas estamos sempre próximos porque somos vizinhos (costumamos nos encontrar e nos sentar na calçada em frente ao meu prédio, onde tem um café que J. gosta de tomar à tarde). No final de novembro passado ele leu um conto meu bem na minha frente, debaixo do sol. Estávamos nesse local, no centro da cidade. Eu segurava a cachorra de J. enquanto ele mantinha os olhos e as mãos no meu texto. Depois de ler, J. me disse que gostou do conto e achou muito bonito (citou partes e explicou por que gostou delas), mas logo passou a criticar: disse que, apesar dos aspectos positivos, eu não enfrentava os meus maiores medos no que escrevia, que ele já tinha reparado nisso em outros textos meus e que pensava que eu precisava parar com essa limitação autoimposta para poder, só assim, dar conta de desvelar meu próprio pensamento e deixar as minhas palavras acontecerem. Eu precisava me libertar e ter muita coragem, porque isto significa se revelar. Ele disse que acreditava na literatura como sendo isto: o enfrentamento do próprio abismo.
– Você fica rodeando questões enormes, mas não vai até lá e se atira nelas! É preciso encarar a sua própria escuridão para se saber.
J. é assim: para dizer aquilo em que acredita ele usa as palavras mais impactantes que puder. E você talvez até discorde do que ele disse, mas eu fui convencido – aquilo grudou nas paredes da minha mente e por ali se disseminou pelos próximos dias e semanas. Afinal eu estava mesmo num momento difícil e me sentindo perdido. Talvez por isso ele ainda tenha conseguido um jeito dramático e convincente de associar seu comentário sobre o ofício de escrever a uma paixão pela qual eu andava me descabelando. O que ele me perguntou em seguida foi:
– Esse rapaz aí por quem você tanto sofre, por exemplo: por que ele mexeu tanto assim com você?
J. queria me mostrar que os nossos abismos são aquilo que nos fazem ser como somos, e que embora isso seja de natureza escorregadia, profundamente difícil de enxergar de tão colado em nós, ainda assim é possível de ser encarado – como se ficássemos de frente para um espelho que refletisse o nosso mistério por inteiro, e não apenas o nosso contorno mais óbvio. 
Ainda quero dizer outra coisa sobre o comentário de J.: ele não é apenas sobre literatura, mas sobre a experiência humana. J. não pensa na literatura como algo externo à experiência, e é por isso mesmo que ele acreditava que aquela minha perturbação diante da paixão tinha a ver com o não-enfrentamento das minhas questões nos meus textos. Ambos me deixavam de frente para meu enigma. Pois, como todos sabem, toda paixão é uma queda no abismo. De fato, o que eu sofria por aquele rapaz era misterioso e sem explicação, colocando toda a minha vida em abalos sem que eu pudesse responder com exatidão por que (por que alguém nos tira do eixo?, por que passamos horas discutindo com alguém mesmo sabendo que não haverá jamais uma resposta que nos convença a aceitar a nossa derrota frente às paixões? por que nossa alegria às vezes é tão fugaz e precária?). Mas eu queria entender se eu poderia um dia domar meus medos ou se eles me domarão para sempre. Ou talvez eu seja exatamente como todo mundo – talvez o medo seja algo inescapável a nós, humanos. E o que eu quero não é o que todo mundo quer para si: compreender-se e se aceitar?
Eu poderia ficar falando dessa conversa entre mim e J. por muito mais tempo, mas tenho a impressão de que, se fizesse isso agora, estaria ignorando o próprio conselho dele para mim (conselho este tão desconcertante justamente por ser certeiro). O que quero dizer agora é que: sim, eu comecei a me enfrentar. Aos poucos tenho aprendido a me soltar de tudo e deixar que o que sou se manifeste no que faço, não apenas no que escrevo, mas nas ações todas, da escolha de frutas numa feira aberta à demonstração explícita de cuidado e carinho com as pessoas que me são caras. O mais espantoso de quando eu ajo assim é descobrir que, para viver e me realizar, eu só preciso ser espontâneo e despreocupado. Aí eu descubro também o quanto tudo é menor, inclusive eu. E notar isso é muito bom, porque assim já não temos terreno para cultivar nossos medos. É preciso apenas voltar a ficar nu para ser livre.
Por que as pessoas vivem insatisfeitas e sofrem? Por que antecipam a dor e se privam de viver o que é bom? Por que fazem isso, se antecipar a dor e se privar é por si só o aniquilamento de uma alegria que o mundo nos oferece? Por que não aceitar que alegria e dor não se excluem, pelo contrário? Por que as pessoas se acolhem na dor pelo que não podem fazer, se a responsabilidade nunca poderia ser só delas, pelo que não podem controlar? Por que somamos a isto até o sofrimento da desconfiança e do desencanto quando farejamos alguém tentando dizer coisas animadoras e clichês a um amigo que sofre? Por que vivemos amedrontados e em busca não da realização, mas de qualquer raciocínio que justifique o nosso amedrontamento? 
Essa semana uma prima minha tentou se matar. Há pouco tempo o ator Robbin Williams foi encontrado morto sozinho no seu apartamento. Meses atrás a afilhada de uma amiga tentou se matar. Ha poucos anos meu primo fez a mesma coisa. E agora, diante da nossa vida insatisfatória e do esgotamento que tanta gente sente a ponto de virar as costas para si mesmas e se atirar no nunca, eu tenho uma pergunta para você: o que é isso que falta tanto a ponto de fazer com que essas pessoas não só prefiram mas tentem, mesmo que por um vacilante momento, acabar com tudo? Você se satisfaz com as explicações científicas e médicas? Porque, mesmo que venha alguém e me prove a mecânica da desilusão, eu ainda não me dou por respondido, e desconfio que podemos viver melhor se tentarmos entender isto que falta na vida dos suicidas e até mesmo na vida de todos nós, sempre que nos sentimos esgotados da força colossal que o mundo nos exige para que permaneçamos firmes nele. Vai ver não passamos mesmo de um amontoado de matéria frouxa em movimento, e então talvez o que falte aos tristes, aos deprimidos, aos que habitam a fenda, seja a sabedoria de lidar com esse pouco que cada um é, aceitar esse pouco e conviver com esse pouco, e aceitar também o enigma que rodeia e atravessa esse pouco que somos. Por que será que o que parece mais fácil (colocar-nos assim no nosso devido lugar) é justamente o mais difícil? Chego a pensar que isso tem a ver com o tempo em que nos encontramos, um tempo pós crenças e descrenças, um tempo pós crença NA descrença. Me parece que vivemos um tempo muito propício à aceitação, apesar de tudo. Mas, sinceramente, eu ainda não tenho certeza. Uma coisa é certa: nós ainda não chegamos lá. E eu me sei atravessado pelo que jamais terá resposta.
Acho que é melhor parar com essa conversa já e mostrar logo as palavras que, a meu ver, são o meu enfrentamento e a minha exposição mais explícita – prática sem a qual, segundo J., não se faz literatura; prática sem a qual, por dedução, um sujeito nunca se sabe. (E aqui um parêntese direcionado exclusivamente aos céticos mais insistentes: caso você ainda agora se pergunte sobre qual a relevância de se saber, a minha resposta é: é preciso se saber para poder se aproximar mais de viver com o que se é e se dar por satisfeito, para não enfrentar ataques de pânico gerados por ignorância, para enfrentar tão somente o que se é. É preciso perder a vergonha de somente ser. É preciso fazer isso já. Mas para se deixar ser é preciso saber lidar com a transparência de si no agora. E pode ser que, no surgimento desse EU tão despido de tudo, sobretudo de arrogância e medo e antecipação, surja muito, muito pouco, surja um quase nada, pode ser que surja apenas uma fome a ser saciada, ou uma necessidade de tomar um banho, ou vontade de ficar um pouco quieto. Uma coisa é certa: o que resulta disso é sempre algo menor, muito menor. 
Por isso mesmo, o que tenho para te dizer é muito pouco e muito pontual. Outras pessoas já disseram, é bem provável. Ainda bem, porque só assim, ao me dar conta do ínfimo que me constitui como humano, ao me dar conta de que não trago nada de novo em mim, eu me aproprio com humildade da minha busca e vejo que minhas questões principais são bastante ínfimas, apesar de urgentes. Bem, aqui vai o que eu sou:
Sou incapaz de ser feliz sozinho.

Thiago Barbalho é escritor e editor da Revista Rosa.
*Imagem: Thiago Barbalho

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Informação

Publicado em 27/08/2014 por em Thiago Barbalho.
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