ORNITORRINCO

JULIO CORTÁZAR DECIME QUE SE SIENTE!

Há cem anos atrás, Julio Cortázar estaria completando um dia de vida. Dentro da embaixada da Argentina em Bruxelas, onde por questões diplomáticas e de turismo ele nasceu, os pais o olhavam pensando o que seria da vida daquele argentino expatriado que só aos quatro anos pisaria em Buenos Aires.

Cortázar é o argentino mais estrangeiro e o estrangeiro mais argentino ao mesmo tempo, uma síntese do que os próprios Hermanos chamam de “síndrome del médio del charco” esta sensação de meio do caminho entre ser um europeu na América do Sul e um sudaca na Europa. Um contraste que aparecerá de forma perturbadora em seu livro mais famoso: Rayuela (Jogo da Amarelinha, é o título no Brasil). Seu rosto estranho e forte e argentino, bonito como uma xilogravura, com seus cabelos negros como os de um índio Mapuche e seu sotaque francês que nunca o abandonou. Um sotaque tão forte capaz de torna-lo incompreensível. Foi comentarista de boxe, esporte que amava. Comentava uma luta de Oscar Bonavena, um combate épico. Alguém liga para a rádio e reclama daquele gringo, de sotaque estranho, que se emocionava muito comentando e ninguém podia entender o que falava. Foi despedido.

O boxe explicava o mundo para Cortázar. Não era um fã de futebol, como seria comum para um argentino. Para ele os esportes coletivos diluíam muito algo que lhe parecia fundamental: o embate de um corpo contra outro corpo, o desafio que impunha o boxe, sendo apenas você e seus punhos em cima do ringue, sem floreios e artifícios, apenas a potência de dois corpos em combate. O boxe explicava a literatura: numa luta os romances ganhavam o leitor por pontos, enquanto os contos por nocaute. Direto, direto, cruzado e gancho.

Para chegar ao céu basta um toco de giz, uma pedrinha e a ponta do sapato. Essa condensação do jogo da amarelinha em conjunto com essa infantil e mágica ideia de ascensão ao paraíso por meio tão prosaico, me conquistaram desde o princípio. Li a Rayuela seguindo sua tábua de leitura, caminhando pelo livro como uma criança que pula pelo tabuleiro riscado no chão. Por alguns números você passa na ida, por outros na volta, por uma ordem que interrompe a cronológica e cria um passeio constelar. 73, 01, 02, 116, 03, 84… pulando assim pelos capítulos o livro ganha um sabor curioso, bem físico. Pensando no marcador de página como um divisor entre início e fim o livro implode aquela sensação de romance na qual a parte inicial do livro começa mais fina e vai engordando até terminar completa por todas as páginas. Na Rayuela você se embaralha na leitura, se envolve com Horácio e La Maga, como na brincadeira que os dois faziam ao saírem sem destino por um bairro de Paris para ver se o próprio destino se encarregava de fazê-los esbarrar por acaso numa esquina.

Rayuela é um livro quase infinito, poderia ser lido por cem anos em ordens tão distintas, fazendo com que você se aproximasse da história por caminhos tão diferentes que podem mesmo mudar por completo a história que é contada. O todo é sempre mais do que apenas a soma de todas as partes. A literatura argentina é rica em jogos, Macedonio Fernandez, antes de Cortázar, jogou muito no seu Museo de la novela de la eterna, com prefácios sucessivos de um livro que nunca começa até te contar que é ele quem te lê e não o contrário. Mas Cortázar conseguiu criar um jogo que é literário, num plano das ideias e da imaginação, ao mesmo tempo em que é físico, na busca pelo próximo número de uma ordem ilógica a qual o leitor é convidado a romper a qualquer momento.

Inventivo e imaginativo Julio era um escritor diferente a cada livro, em cada texto. Um amante apaixonado, perdido num labirinto de ruas e capítulos, em Rayuela. Um etnólogo surrealista em Historias de Cronopios y famas. O boxer Cortázar era capaz de te massacrar em 11 segundos do primeiro assalto ao enxergar um futuro distópico, regido pelo caos, num engarrafamento épico como o que acontece em La autopista del sur, e ser um fantástico cientista em Los limpiadores de estrellas, conto que mostra um observador atento ao mais inútil do cotidiano uma vez que a história nasce “de pasar frente a una ferretería y ver una caja de cartón conteniendo algún objeto misterioso con la siguiente leyenda: STAR WASHERS”.

Cortázar era também político, ou essa é uma leitura que não deve ser excluída de sua obra, como ele gostava de dizer. Atento a tudo tanto de forma irônica, como em Novedades en los servicios públicos, onde um carro restaurante chiquérrimo aparece no metrô de paris para que a alta burguesia possa andar no transporte público e apreciar o modo de vida do proletariado, ou de forma contundente como no famoso Casa tomada, uma invasão surda e violenta de uma casa que vai fazendo um casal de irmãos se refugiar em alguns cômodos até terem que bater a porta e fugir, apenas com o relógio de pulso no braço, um índice de tempo nos lembrando da finitude dessa porra toda. Um grito forte contra a repressão política na Argentina nos tempos do peronismo, ainda que essa nunca tenha sido a leitura de Cortázar, para quem tudo tinha saído apenas de um pesadelo.

Julio Cortázar e sua esposa, Carol Dunlop 

Não há como ler Julio Cortázar sem esbarrar em Jorge Luis Borges. As entrevistas dos dois são repletas de elogios e comentários sobre a importância do que o outro escrevia. No plano da literatura os dois se irmanavam, mas quando o assunto era política, as posições eram diametralmente opostas. Na Argentina esse embate aparece há quase cem anos em qualquer conversa de bar. Borges sempre ataca pela ponta direita enquanto Cortázar é um franco atirador pelo flanco esquerdo. Mas o mais curioso é que em 1946 os dois se encontraram pela primeira vez na redação da revista Anales de Buenos Aires, editada por Borges. Cortázar, então com 28 anos, levava os manuscritos de Casa Tomada. Entregou-os a Borges que prometeu lê-lo e tecer comentários. Alguns dias depois os dois se esbarram novamente e Borges diz: En lugar de darle mi opinión, voy a decirle dos cosas: una, que el cuento está en la imprenta, dentro de unos días tendremos las pruebas; y otra, que ya le he encargado las ilustraciones a mi hermana Norah. Foi o primeiro texto de Cortázar publicado na Argentina quando ele ainda era um desconhecido.

Sobre esse tema espinhoso da política segue um diálogo fictício entre os dois, tirado de coisas que foram ditas em tempos e espaços apartados, mas que na Rayuela da literatura nós podemos unir.

Borges: Creo que profesamos credos políticos bastante distintos: pero pienso que, al fin y al cabo, las opiniones son lo más superficial que hay en alguien; y, además, a mí tus cuentos fantásticos me gustan.

Cortázar: En la actualidad, cada vez que se menciona a Borges, inmediatamente la gente se divide en bandos perfectamente diferenciados. En América Latina, diría yo. En otros lugares te conocen como escritor, pero lo que pasa en América Latina es que en estos últimos años (los 70) además de tu trabajo como escritor, hemos conocido tus puntos de vista geopolíticos. Sin embargo escribiste algunos de los mejores cuentos de la historia universal de la literatura. Escribiste también una Historia Universal de la Infamia.

Y bueno, nada, eso. Como diria um argentino tomando um mate sentado na calçada, numa tarde de verão porteña. Cortázar decime que se siente ao escutar esse jazz do outro mundo, 100 anos depois do primeiro round da sua existência. Eu te digo o que eu sinto até nos teus livros que nunca li. Soy un Cosmonauta de la autopista en un Viaje al dia en ochenta mundos. Você vive na minha casa, tomada pela Rayuela que me ganha por nocaute a cada capítulo. Feliz aniversário atrasado.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 27/08/2014 por em Domingos Guimaraens.
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