ORNITORRINCO

EU PREFIRO AS ORGÂNICAS

Tenho preferido as orgânicas. Explico: depois de tantos meses trabalhando como vendedor no Circuito Carioca de Feiras Orgânicas, me apercebi de um fato nada raro, mas de sutilíssima decifração. A forma como escolhemos a comida no mercado, que virá a constituir nossos almoços e jantares, é a mesma como escolhemos nossos cônjuges. Sabe aquela bancada com 500 abacaxis à mostra, extremamente parecidos, dentre os quais você escolhe apenas um? O que é isso, senão amor?

Lembro sempre de uma professora de psicanálise que falava não ser à toa associarmos termos alimentícios à sexualidade, por exemplo: pão, filé, chuchu, delícia… São muitos. O que a experiência na feira de orgânicos me trouxe foi: quais são os critérios usados pra escolher o que comemos?

Lembro também de uma vez ter ouvido este diálogo, que me chamou muito a atenção pela inversão do ponto de vista operada, de forma tão singela, por aquele pequeno-produtor rural:

— Moço, essa goiaba tá com bicho.
— Então quer dizer que tá boa, o bichinho não come fruta ruim…

Entre a feira de orgânicos e uma grande rede de supermercados é gritante a diferença que se apresenta à vista no que diz respeito aos produtos hortifrutigranjeiros. As cenouras da feira são cenourinhas, os tubérculos, as frutas mesmo, apresentam menores proporções, aparentam fragilidade. O que a princípio interpretaria como carência – não sou biólogo – mas de alguma coisa em sua constituição.

Mas a realidade é outra. Quando nos debruçamos sobre o assunto, percebemos outros contornos. Como as características, à princípio negativas, dos produtos orgânicos. O que define um orgânico é a ausência de compostos químicos artificiais-industriais que visam aumentar a produtividade mas que muitas vezes comprometem a saúde humana; um orgânico é, seguindo com a analogia, uma fruta sem maquiagem. O que me é muito caro.

Como não associar, depois disso, um supermercado do calibre de um Zona Sul, à famosa e badalada boate Baronetti? É como uma grande boate em que as mulheres estão todas “montadas” como peças numa estante, uniformizadas pela moda e homogeneizadas pelo padrão clássico-comercial de beleza.

Desde então valorizo muito mais um defeitinho bobo, sobretudo se não se esconde, mas se se assume. A natureza é rara. Não existe uma maçã igual a outra, e o seu sabor se dá na boca, não nos olhos.

Ou, como diria o poeta: “bonito é ser / como você / feia mesmo”.

Cesar Sampaio é aluno do curso de Gastronomia pela UFRJ.

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Publicado em 26/08/2014 por em Cesar Sampaio.
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