ORNITORRINCO

COSMÓPOLIS – IMIGRAÇÕES CONTEMPORÂNEAS

Andando pelo centro da cidade do Rio de Janeiro, vou esbarrando em gente e mais gente num quase bloco de carnaval do consumo popular que é a SAARA (Sociedade dos amigos das Adjacências da Rua da Alfândega). Amo esse lugar que cada dia é diferente na profusão e proliferação de novas lojas junto das tradicionalíssimas que resistem (como as Casas Turuna), às vezes se incendeiam (como aconteceu com a Caçula ano passado), ou são exterminadas como foi a clássica confeitaria Cavé esse ano.

De toda a fauna típica do SAARA a que mais têm me chamado a atenção é a invasão oriental. Chineses e Coreanos vieram em peso para o Brasil e se instalaram no centro do Rio. Vendendo pastel de “cane”, “queso”, “flango” ou eletrônicos xing-ling, o coreano e o mandarim vão dominando a paisagem sonora de um bairro historicamente compartilhado por brasileiros, árabes, católicos e judeus.

Estive em Taiwan no início desse ano e fiquei pensando como seria louco encontrar um bairro cheio de comércio brasileiro, com um pessoal que teria vindo do interior do Mato Grosso, num país tão distante e de cultura tão distinta. Imagina um chinês recém chegando ao Rio: perdidão ele caminha pelo centro tentando achar o Paço Imperial até parar pra matar a sede numa pastelaria que fala mandarim! Ali ele encontra um conterrâneo que saiu de alguma cidade improvável da China para lhe explicar o caminho até o museu. Uma grata e assustadora surpresa.

SAARA, no Rio de Janeiro

Os países ditos desenvolvidos há muito convivem com imigrações e com a relação, poucas vezes pacífica, desses fluxos de estrangeiros que chegam para ficar. Sinto que o Brasil volta a viver uma onda de imigrações e acho isso maravilhoso. Digo volta a viver porque isso não é novidade, o mundo é feito de imigrações. Reza a lenda que 100 homo sapiens decidiram sair da África para a Europa em priscas eras, ali a confusão começou. O Brasil mesmo é uma enorme terra formada pelos índios que aqui chegaram muito antes dos portugueses que trouxeram milhares de africanos e assim fomos formando uma nação. Mas hoje os motivos, e a maneira como essa imigração acontece, são bem diferentes.

(Clique para ampliar)

Estranho pensar que o Brasil virou uma espécie de terra das oportunidades e vermos haitianos entrando clandestinamente no país e formando uma comunidade no Acre, Bolivianos e Peruanos construindo um espaço de convivência em São Paulo, cidade que vai tendo seu tradicional bairro japonês tomado por chineses, que vêm na mesma leva dos que chegaram ao centro do Rio. The Brazilian dream! Dinheiro, mobilidade social, calor tropical, lindas mulheres e uma nação de braços abertos como no cartão postal. Com que país sonham esses gringos?

Talvez tenhamos vivido algo assim no início do século XX, São Paulo recebeu muita gente de fora que veio para trabalhar sonhando com uma vida melhor. O poeta modernista Guilherme de Almeida escreveu em 1929 um bonito livro sobre os bairros estrangeiros de São Paulo. Cosmópolis fala de uma cidade que aos olhos do poeta era fervente, mas para os padrões de hoje parece uma roça bucólica com apenas 900.000 habitantes. Para ele a cidade era uma constelação de nações: “São Paulo enorme de casas e gentes. Casas e gentes de todos os estilos. Cosmópolis. Resumo do mundo”. O alto da Mooca era o bairro húngaro. O bairro japonês se iniciava na velocidade de um poço cavado entre os dois extremos do planeta. Judeus, russos, italianos, espanhóis, uma babel paulista contada em gostosas e poéticas crônicas.

São Paulo foi rica nessa mistura no início do século XX, rica inclusive em literatura, ganhando leituras ficcionais feitas por grandes escritores que, principalmente, falaram sobre a enorme colônia italiana. Alcântara Machado, Oswald de Andrade e o impagável Juó Bananere, cantaram os costumes e os sotaques desse pessoal que temperou São Paulo.

Já no Rio de Janeiro não encontro esse histórico tão marcado de imigrações. Não que elas não tenham acontecido, mas por algum motivo os estrangeiros não ficaram aqui identificados aos bairros da cidade. Não temos uma China Town, um Bexiga italiano ou nada parecido. Temos muitas comunidades estrangeiras espalhadas por uma cidade porto que acolhe o pessoal de outros países ou os migrantes nacionais e os joga no turbilhão enlouquecido dos encontros. Mas do jeito que a coisa vai é possível que os chineses construam sua China Town na Saara carioca. Que mistura!

Esse caldeirão carioca não torna a vida do imigrante mais fácil, o Brasil tem recebido esses estrangeiros ainda com certa cautela. Se por um lado estamos de portas abertas, por outro sinto nascer um pensamento xenófobo perigoso, algo que nunca foi a cara do Brasil, mas que pode vir a ser se não tomarmos medidas para acolher com carinho e estrutura o pessoal que chega para construir a vida aqui.

Penso assim porque não acredito muito nos Estados Nacionais. Os entendo como grandes aglomerações culturais, que por línguas e costumes aproximam quem neles vive, mas não como instituições fechadas que devem se proteger e impedir que o pessoal de fora entre para roubar mulheres e empregos. Acho esse o pior pensamento fascista que pode existir.

Sonho com a Cosmópolis de Guilherme de Almeida, um mundo sem fronteiras, cada vez mais miscigenado, misturado, mixado, plural. Um sonho que aparece sintetizado num diálogo de março de 1929 quando ele bateu um papo com “um homem de avental branco, apregoando aos gritos os doces incompreensíveis do seu tabuleiro”:

— O senhor é russo?
— Nada. Estou no Brasil, sou brasileiro.
— E esses doces: são polacos, alemães ou italianos?
— Nada. Feitos no Brasil, são brasileiros.
Inútil discutir. A pátria é isso: onde a gente está.

Vale ficar de olho no que exportamos com esse Brazilian Dream. Vale também conhecer esses novos gringos, tirá-los da invisibilidade, pois eles também darão nova cara às nossas cidades. Espero que sigamos juntos com eles, assim caminhando como num cordão, num bloco de carnaval, no caos da SAARA, onde todos os corpos são cada um em si e ao mesmo tempo todos um só.

Domingos Guimaraens é doutor em literatura brasileira, professor da PUC-Rio, integrante do OPAVIVARÁ! e colunista do ORNITORRINCO.
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Publicado em 25/08/2014 por em Domingos Guimaraens.
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