ORNITORRINCO

O QUE QUER DIZER MARINA SILVA?

Após o óbito, se deu o óbvio, e Marina Silva foi confirmada como candidata à presidência da república pelo PSB. Sabemos pouco sobre o que será sua campanha, e menos ainda sobre seu governo. Muito se falou sobre as últimas pesquisas, realizadas ainda sob o efeito emocional e midiático da morte de Eduardo Campos, mas quase nada sobre planos de governo, alianças, alicerces políticos, em resposta às dúvidas que essa candidatura levanta. Tudo é névoa e confusão até aqui.

Marina é uma candidata originalmente de esquerda, que em princípio traz ventos progressistas para a política brasileira. Seu engajamento no que diz respeito à questão ambiental é louvável e significativo, mas não me parece suficiente para justificar uma eleição para presidente. No mais, as coisas se confundem quando a candidata afirma, por conta de suas crenças religiosas, certas opiniões conservadoras sobre tópicos caros ao rumo do país, como a legalização das drogas e do aborto, o casamento gay e as pesquisas com células tronco. A própria necessidade que Marina sente de reafirmar sua religiosidade quando discute tais tópicos sugere o espaço que o assunto já ocupa – e principalmente, pode vir a ocupar – em sua eventual agenda política.

Marina já se colocou por diversas vezes contraria ao casamento gay. Segundo ela, seria a distorção de uma instituição milenar que deve unir necessariamente pessoas de sexos diferentes. Aos poucos, porém, incluiu nessa opinião o adendo de que tal grupo deve ter seu direito civil garantido. É uma posição que confunde. Se ela crê nesse direito, por que sente a necessidade de se dizer pessoalmente – religiosamente – contra, quando perguntada? Por que não simplesmente defende o que entende como um direito democrático? Como pode não enxergar a influência que tal posição pessoal teria, caso falasse como presidenta da república? Se entende o que é e defende o estado laico, por que Marina insiste em incluir a religião como filtro para questões de foro constitucional?

Sabemos a resposta. Porém, da mesma forma que acontece com as doações de empresas para campanhas, o posicionamento conservador que garante a adesão de certos grupos também será cobrado futuramente, caso a candidata seja eleita. Marina parece tentar manter o diálogo ao mesmo tempo com uma frente progressista de eleitores e com os mais conservadores. Marina é e não é.

Sobre o aborto e as pesquisas de célula tronco, o mesmo: se diz pessoalmente contra, mas sugere a realização de plebiscitos. Tal recurso parece simplesmente fazer a manutenção dessa névoa ao seu redor. Um plebiscito pode ser o paroxismo da participação democrática, mas merece cuidado em questões como essas, a fim de não servir simplesmente como a manutenção de uma tirania da maioria. O direito das minorias não deve ser julgado pela maioria favorecida. A justiça, a equidade e eventuais opiniões dissonantes ou decisões impopulares, que visem avanços ou transformações no país, não podem ser impedidos pelo mero desejo abstrato da massa – em nome de deus, por exemplo. É preciso entender qual é o país que Marina quer ajudar a construir. Imaginem se certos indivíduos que comentam reportagens na internet tivessem poder de veto ou voto sobre leis de direitos humanos. Onde estaríamos?

Marina sabe que os conservadores e os religiosos formam essa maioria no Brasil. O estado não pode permitir que, em nome da religião – uma filosofia abstrata, sem bases científicas respeitadas, que não visa a realidade e a equidade – seja decidido o destino das milhares de mulheres pobres que abortam diariamente em verdadeiros açougues, colocando em risco suas vidas – para não falar do direito que possuem sobre o próprio corpo, e do machismo velado que há por trás dessa posição.

Os evangélicos de Brasília, além de colecionarem processos por corrupção, infelizmente parecem atuar somente para impedir a garantia desses direitos e o questionamento realista sobre assuntos tão caros e tão atrasados, em nome da manutenção de preconceitos milenares. Para que se tornem uma bancada respeitável – não por decreto divino, mas por atuação política – é fundamental que tanto os eleitores quanto os políticos evangélicos abandonem a defesa cega de seus preceitos religiosos como se fossem leis. A bancada evangélica deveria justamente deixar de ser uma bancada evangélica, para se tornar uma bancada política. Enquanto isso não se dá, é fundamental sabermos o que Marina pensa de fato, para entendermos o tamanho de sua autonomia, e quem será o deus de um eventual governo seu.

Vitor Paiva é escritor, músico e colunista do ORNITORRINCO.





*Imagem: Pintura sobre foto da Marina Silva: Gabriel Pardal

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Publicado em 22/08/2014 por em Vitor Paiva.
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