ORNITORRINCO

SABER LER A INTERNET

Neste sábado passado (16/08), fui convidado pelo escritor Paulo Scott para participar de um bate-papo no lançamento do seu novo livro de poemas, “Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo” (Cia. das Letras, 2014), na livraria Berinjela no Rio de Janeiro. Além de mim, estavam também os camaradas Victor Paes e o Augusto Guimaraens Cavalcanti, para conversarmos sobre nossos trabalhos, literatura contemporânea e qual o sentido de escrever um livro no século XXI.

Como editor do ORNITORRINCO, me concentrei em falar sobre a influência e a importância da internet na produção literária, e nos nossos hábitos como consumidores de informação. Em debates passados de que participei, eu costumava dizer que a rede mundial era o nosso Woodstock, o espaço onde podíamos voar livres, exercendo nossa independência de diferentes formas.

Por exemplo, na literatura, o escritor pode publicar seu livro sem depender da aprovação das editoras, do alcance das distribuidoras, da visibilidade das livrarias. O leitor pode escolher o que ler, onde e quando. Fica à distância de poucos cliques um texto publicado há 80 anos atrás, de um escritor checo, caolho, escrito em uma língua morta. Não precisa mais depender que esse escritor esteja sendo reeditado para que seu nome apareça nos jornais.

Durante este último debate, eu quis complicar um pouco mais o meu discurso, e perguntar: será que estamos sabendo escolher o que ler? A liberdade nos está sendo útil, ou continuamos presos nas manchetes e nas listas dos mais lidos?

Em uma entrevista para o jornal Zero Hora, o jornalista americano David Carr, colunista do The New York Times, disse que é comum se sentir perdido com tanta informação.

“Os tablets são nossos amigos, mas a Newscorp criou um jornal apenas para tablet e não deu certo. Parte da questão é que, se você desliga o tablet, não consegue ver o jornal. Não está ali, parado, sugerindo a você o que ler. (…) Meu problema com isso é o seguinte: no New York Times, a seção de notícias Internacionais vem primeiro. Então eu a leio. Se estou no tablet, nunca chego nem perto. Porque no jornal há uma hierarquia e, se eu fosse escolher, só escolheria outras coisas, nunca a Internacional. Parece que, nesses casos, as notícias sérias sempre perdem a disputa com outras, mais leves.”

Eu concordo com o comentário do Carr, mas não gostaria que um editor definisse o que eu deveria ler. Prefiro ter as minhas próprias escolhas. Mas será que estamos todos qualificados para garimpar os conteúdos no oceano da internet? Precisamos saber como usar essa ferramenta, selecionar nossas fontes, montar nossa rede de informações, e o melhor é aprender coletivamente a fazer isso. A absorção fragmentada, característica do mundo virtual, exige que façamos um esforço para descobrir o que ler agora e o que deixar pra depois.

A maioria dos usuários passa o dia nas redes sociais, conversando, atualizando seus perfis, curtindo fotos, vendo vídeos. É basicamente isso. O Facebook é a plataforma escolhida para se informar e compartilhar informação. Portanto, estão restritos ao algoritmo criado pela equipe do Mark Zuckerberg, que define o que deve aparecer na sua timeline. Desde o ano passado a empresa redefiniu seu sistema para que o usuário pague caso queira que seus posts alcancem um número maior de pessoas. O Facebook é a nova TV, onde 10% do seu conteúdo é relevante, e no fim do dia, depois de tanta bobagem, você não consegue mais se lembrar do que viu ou leu.

A professora Zeynep Tufecki escreveu um texto sobre o algoritmo do Facebook ignorar as notícias de Ferguson nas primeiras horas de protestos na cidade americana. Ela compara o espaço concedido aos algoritmos nas nossas vidas, e como somos informados de acordo com quem um programa acha que queremos ler:

“Algoritmos estão, cada vez mais, sendo chamados para tomar decisões onde não há uma resposta certa, apenas um juízo de valor. O Google diz que nos mostra os resultados mais relevantes, e o Facebook nos mostra o que é mais importante. Mas o que é relevante? O que é importante? Ao contrário de outras formas de automação ou algoritmos, em que há uma resposta correta definida, estamos vendo o nascimento de uma nova era, a era das máquinas que tomam decisões: máquinas que não só organizam rapidamente um banco de dados, ou realizam um cálculo matemático, mas decidem o que é melhor, relevante, apropriado ou nocivo.”

Há algumas semanas atrás, usando minha conta no Facebook, eu fiz um teste. Primeiro, divulguei uma lista de textos e sites que achava interessante, com artigos sobre política, comportamento e arte. Logo depois publiquei um vídeo engraçado de cachorros bagunçando a casa. Em quatro horas, apenas duas pessoas curtiram o primeiro post, e 35 pessoas o segundo, com 8 comentários de gente que eu nem conhecia.

Assim como no mundo, na internet podemos escolher entre sermos turistas ou viajantes. Os turistas são aqueles que apenas frequentam os cartões postais, os lugares que todo mundo conhece, e acabam tendo a mesma experiência programada para todos. Já os viajantes exploram os lugares, percorrem outras rotas, descobrem novos caminhos, têm uma avaliação mais profunda e diferenciada dos demais.

Como um dos meus prazeres – e tarefa – é o trabalho de garimpar conteúdo, vou sugerir algumas ferramentas que poderão auxiliar na sua viagem.

— O Twitter é a melhor rede social para compartilhamento de informação e ideias. Você não precisa seguir todo mundo que lhe segue, o que deixa sua timeline mais objetiva. Além disso, você pode colocar as pessoas que você segue em listas (ex: Cinema, Música, Tecnologia, Humor), o que facilita muito a sua vida. Visual clean, customizável e livre das publicidades direcionadas do Facebook. A restrição de posts com apenas 140 caracteres faz com que o usuário seja direto. Como não tem um sistema de comentários, diminui consideravelmente a discussão infinita dos quem não tem nada pra dizer. E o mais importante: como não tem algoritmo que escolhe o que você deve ler, todo post que você publicar, com certeza vai chegar para quem te segue.

— Ter um leitor de feeds é a melhor coisa. O sistema possibilita que um leitor possa receber todas as atualizações de suas páginas favoritas em um só lugar, sem precisar acessar cada site individualmente. Desde que o Google Reader morreu, eu tenho usado o Feedly (mas existem outros). Nele acompanho as atualizações dos jornais e sites que assino e que vai desde portais tradicionais até o blog de poesia de um amigo que só publica de dois em dois meses.

— O Pocket mudou meus hábitos de leitura. Depois que esse aplicativo surgiu, nunca mais tive que ler na tela do computador. O Pocket armazena seus artigos preferidos e envia para uma conta que pode ser acessada do seu celular ou tablet. Você pode salvá-los e acessá-los sempre que quiser, como uma gaveta virtual. Várias vezes salvei textos para ler durante viagens de ônibus.

— Outra ferramenta que elastece a internet é o Stumbleupon. Você se cadastra e seleciona as áreas de seu interesse, daí então o aplicativo vai lhe sugerindo conteúdos de diversos sites, tanto dos mais conhecidos quanto dos que você nunca ouviu falar. Além disso é possível ranquear o que gosta ou não, fazendo com que as sugestões futuras sejam aprimoradas.

Recomendo que você dê um passeio por outras áreas de interesse, que pesquise novas fontes, que leia sobre coisas que não está acostumado a ler, que saia de si mesmo e vá conhecer outras opiniões, versões, conhecimentos. Sei de muita gente que quer viajar para vários lugares do mundo, mas não faz o mínimo esforço de viajar até uma outra pessoa, sair do seu próprio eixo e entender o que não lhe é familiar.

Para não estar fadado a depender dos grandes interesses corporativos da informação, é bom aprender a pesquisar por si mesmo. Claro que todas as ferramentas acima demandam um tempo para você conhecê-las, testá-las, alimentá-las, até se acostumar com o uso. No primeiro momento vai parecer mais fácil comprar o jornal ou acessar o portal que todo mundo acessa.

Mas aí é com você, escolher entre ser um turista ou um viajante na vida.


Gabriel Pardal é editor do ORNITORRINCO.
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Publicado em 19/08/2014 por em Gabriel Pardal.
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